Em um marco histórico, a escritora, publicitária e dramaturga Ana Maria Gonçalves foi eleita nesta quinta-feira (10) para a cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a primeira mulher negra a integrar a instituição em seus 128 anos de existência. Ela sucede o gramático Evanildo Bechara, falecido em 2023, e venceu a disputa com 30 votos, contra a escritora indígena Eliane Potiguara.
Nascida em Ibiá (MG), Ana Maria Gonçalves, de 55 anos, é autora da aclamada obra “Um Defeito de Cor” (Record), romance épico que reconstrói a vida de uma mulher escravizada, inspirada na guerreira Luísa Mahin, líder da Revolta dos Malês. O livro, vencedor de importantes prêmios literários, foi tão impactante que inspirou o enredo da Portela no Carnaval 2024.
Sua eleição representa um avanço simbólico e concreto para a representatividade negra na ABL, que, desde Machado de Assis, teve poucos membros negros. A chegada de Ana Maria não apenas diversifica o cânone literário nacional, mas também reafirma a importância de vozes historicamente marginalizadas na construção da cultura brasileira.
Em suas próprias palavras, Ana Maria Gonçalves define sua obra-prima: “‘Um Defeito de Cor’ é a história da luta preta no Brasil incorporada em uma mulher que enfrentou os maiores desafios imagináveis para continuar viva e preservar suas heranças e raízes”. E completa: “A história de uma mãe, heroína, filha de África, que pariu a liberdade dessa nação.”

Ana Maria Gonçalves venceu com 30 votos, superando nomes como a escritora indígena Eliane Potiguara e outros 12 concorrentes, incluindo Ruy da Penha Lobo, Wander Lourenço de Oliveira e Célia Prado. Sua vitória não é apenas pessoal — é um símbolo de resistência e representatividade em uma instituição que, desde Machado de Assis, teve poucos ocupantes negros em suas cadeiras.
Gilberto Gil, imortal desde 2021, destacou a força de sua literatura:“Ana Maria Gonçalves produz uma literatura de muito fôlego, muita potência. A casa se sente agradecida à vida por ter nos mandado a Ana. Representa que estamos vivos, permanecendo ativos nesse contexto variado de diversidade.”
A eleição de Ana Maria Gonçalves não preenche apenas uma cadeira vaga, reafirma a urgência de a ABL espelhar a pluralidade brasileira. Sua presença ali é um convite para que mais vozes negras, indígenas e periféricas ecoem no templo das letras nacionais. Como ela mesma provou em sua obra, a literatura é, também, um ato de resistência.
