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O preço da coerência: O dilema do BaianaSystem no Camarote Salvador e a complexidade de existir no capitalismo

O preço da coerência: O dilema do BaianaSystem no Camarote Salvador e a complexidade de existir no capitalismo

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Vamos começar pelo óbvio ululante: é impossível fugir de tudo que engloba o sistema capitalista. Estamos mergulhados em suas profundas contradições. Elas nos são impostas todos os dias. No entanto, podemos pensar em qual preço estamos dispostos a pagar e qual a receber para manter nossas convicções.

 O BaianaSystem emergiu de cenas contraculturais, as mesmas que alçaram o Mangue Beat com Chico Science & Nação Zumbi, Planet Hemp, Racionais, e tantas outras ao sucesso mainstream. É natural que os fãs que acompanham desde o começo esperem coerência irrestrita entre discurso e ação.

Ao aceitar tocar no Camarote Salvador, um dos mais caros da Bahia, onde somente a alta classe frequenta, enquanto os pobres ficam de fora ou trabalhando para manter a segurança dos abastados, Russo Passapusso e companhia tiveram de enfrentar críticas sobre esse passo. E seria estranho se não houvesse questionamentos. Aquele lugar é um símbolo da estratificação social do Carnaval, um “apartheid social” como muitos descrevem. É o lugar de quem pode pagar para ver a festa de cima, separado do calor, do suor e da “mistura” que o BaianaSystem sempre celebrou.

A força do BaianaSystem sempre esteve na rua, no contato direto com a massa, na energia do trio elétrico sem cordas. Tocar em um camarote é, simbolicamente, trocar a energia bruta da multidão por um palco para uma plateia segregada. Durante uma entrevista, ao ser questionado, Russo Passapusso, líder do grupo, disse que ele é o primeiro a se olhar no espelho e fazer o questionamento. A pergunta que fica é: Por que aceitou? Aquele público recebe bem a mensagem do Baiana? Eles compreendem?

O preço da coerência: O dilema do BaianaSystem no Camarote Salvador e a complexidade de existir no capitalismo
Foto: Jardel Souza

Quando olho de fora, vejo esses camarotes elitizados como um evento bizarro e alheio ao conceito de festa popular. No camarote, a massa que segue o trio na pipoca se torna, aos olhos de quem está no alto, parte do espetáculo, uma espécie de “segurança de abadá dos ricos”, um cenário vivo para o privilégio alheio.

Defendo sempre o esforço de entender a complexidade de existir no capitalismo sendo um indivíduo relativamente consciente. Nem sempre é financeiramente viável, por exemplo, ser artista nesse cenário.

O BaianaSystem nunca se propôs a ser um grupo “fora do sistema”. Sua arte sempre foi sobre escancarar as contradições, não sobre fingir que elas não existem. Eles não vivem de ar. Para existir, para pagar sua enorme equipe (técnicos, músicos, produção), para ter estrutura de som, luz e palco, o dinheiro precisa vir de algum lugar. A pergunta “qual o preço de cada um?” é a chave da questão. Todos nós, em alguma medida, fazemos concessões para sobreviver e trabalhar dentro do capitalismo. O engenheiro que trabalha numa mineradora que desmata a floresta, o professor que dá aula numa escola que não compartilha de seus valores. A diferença é que a arte do BaianaSystem é explícita em sua crítica, o que torna a concessão mais visível e, para muitos, mais hipócrita.

Pode-se argumentar que tocar em um espaço como o Camarote Salvador não significa concordar com ele, mas sim levar sua música e sua mensagem para um público que, de outra forma, nunca a ouviria. É acreditar que a transformação também pode acontecer “de dentro para fora”, plantando a semente da crítica em quem está no topo da pirâmide. É válido, ainda que soe ingênuo.

O cachê de um show desses é, sem dúvida, muito superior ao de um show na rua. Esse dinheiro pode ser reinvestido na própria arte, subsidiar projetos mais autorais e manter a banda independente de patrocínios ou gravadoras que poderiam, sim, amordaçar seu discurso. É a velha máxima: usar o dinheiro do “sistema” para fortalecer a “bagunça”.

Não há uma resposta fácil ou definitiva, embora eu ache que a banda não precisasse ter feito esse show em específico, mas eu sou um jornalista que cobre shows em festivais que já foram acusados de explorar o trabalhador de montagem. Então… O dilema do BaianaSystem é o dilema de qualquer artista que busca manter a relevância e a crítica sem abrir mão de sua estrutura.

Podemos dizer que banda se vendeu, ou que não é mais a mesma e tudo o mais por validarem um modelo de festa que eles sempre disseram odiar. Porque ao final, a mensagem que fica é que o dinheiro fala mais alto, e o discurso se torna apenas um “diferencial de mercado”. Mas se o capitalismo coopta e transforma tudo em produto, não é melhor que a grana vá para um projeto como o Baiana do que para algum artista bancado pelo agro?

O fato é que o BaianaSystem está apenas navegando nas águas turvas da realidade. Eles estão expondo a própria ferida, mostrando que ninguém está imune às contradições. A questão não é se você se vende, mas para quem e com qual propósito.

No fim, em algum momento teremos de confrontar nossas próprias incoerências e a questionar até onde vai a nossa “submissão” diária. A música, como sempre, continua. Mas o preço da entrada, dessa vez, parece ter sido a pureza do discurso.

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Última atualização em: 23 de fevereiro de 2026 às 16:21

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