Limitações de locomoção, barreira linguística e falta de conhecimento sobre os direitos garantidos no Brasil são algumas das dificuldades enfrentadas por pessoas refugiadas e migrantes no acesso a serviços fundamentais. Na periferia da Zona Leste de São Paulo, um grupo de pessoas haitianas tem conseguido superar algumas dessas dificuldades por meio da mobilização comunitária e da sensibilização do poder público. Com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), na quinta-feira, 23, foi realizada a primeira ação para atendimentos de saúde dentro da própria comunidade.
A ação foi organizada por profissionais da Unidade Básica de Saúde que atende a região. O contato e mobilização com o serviço, realizado pelo ACNUR, foi feito após lideranças haitianas se organizarem e identificarem o acesso a serviços públicos de saúde entre as principais demandas da população local. Durante todo o dia, cerca de 70 pessoas receberam atendimentos, encaminhamentos para exames, orientações sobre saúde e nutrição, além de realização de testes rápidos e vacinação.
Jesula Cine e a filha, Carm-Steika, estão no Brasil há um ano e foram umas das primeiras que chegaram ao local. Jesula foi diagnosticada com pressão alta logo que chegou a São Paulo, mas, por causa da distância e da dificuldade de andar pela comunidade não pavimentada, ela não consegue aferir a pressão todos os dias, como é recomendado. Durante o atendimento, ela recebeu guias para exames periódicos e encaminhamento para nutricionista. Além disso, mãe e filha realizaram testes rápidos e atualizaram a carteirinha de vacinação.
“Para nós, é muito importante ter essa ação aqui na comunidade, porque fica mais fácil pra gente. Eu faço acompanhamento na UBS, mas já fazia tempo da última vez que fiz os exames. Agora vou conseguir fazer, porque já estou com o pedido”, comemora Jesula.
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Outra demanda identificada era que o atendimento pudesse ser traduzido e mediado para o crioulo. Por isso, em parceria com a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, um agente de ação social haitiano apoiou nos atendimentos. A iniciativa contou também com o apoio de lideranças e voluntários haitianos que estão há mais tempo no Brasil e que dominam o português.
“Foi a primeira vez que tivemos esse tipo de atendimento aqui e eu ajudei com a tradução, para que as pessoas pudessem entender, já que a maioria é haitiana. Foi muito importante para nós porque, por ser aqui na comunidade, fica mais fácil para ter esse apoio com tradução, mais fácil das pessoas chegarem para ser atendidas, mais rápido e mais prático. Tudo fica melhor”, afirma Betty Edmond, uma das lideranças locais. Ela também conta que, futuramente, gostaria de levar atendimentos de oftalmologia e odontologia, que são demandas grandes da comunidade e com mais dificuldade de acesso nos serviços públicos de saúde.
A ação de saúde foi a primeira realizada a partir da mediação do ACNUR para organização, mobilização e fortalecimento de lideranças haitianas no extremo Leste da capital paulista. Desde o início de 2026, uma série de encontros vem sendo realizados a fim de apoiar a organização, levar informações sobre acesso a direitos no Brasil, levantar as principais demandas da comunidade e endereçar possíveis soluções.
