É muito provável que quando falemos dos monstros da Universal, a Múmia seja o menos quisto entre seus colegas. Embora tenha conquistado popularidade com a trilogia protagonizada por Brendan Fraser nos anos 2000, foi muito mais esquecida que e menos relida que figuras como o Lobisomem ou o Frankenstein, por exemplo.
A Múmia é uma das criaturas mais antigas e resilientes do cinema de horror. Desde que Boris Karloff emergiu de seu sarcófago em 1932, sob a direção de Karl Freund, o monstro enfaixado passou por transformações radicais: foi aventureiro-pulp com Lon Chaney Jr. nos anos 1940, tornou-se blockbuster de ação com o já citado Brendan Fraser (arrecadando mais de US$ 1,2 bilhão ao longo de três filmes e gerando cinco derivados focados no Escorpião Rei, originalmente vivido por Dwayne Johnson), e quase destruiu o ambicioso Dark Universe da Universal em 2017, quando Tom Cruise e Sofia Boutella entregaram um reboot pavoroso que matou um universo compartilhado de monstros logo no nascedouro.
A história do monstro no cinema é, portanto, uma montanha-russa de altos e baixos. O que Lee Cronin faz com “A Maldição da Múmia” é algo que poucos diretores ousariam: ele ignora quase tudo que veio antes e entrega um filme de terror puro, visceral, desagradável e perturbador , mais próximo de “O Exorcista” e de seu bem-sucedido e igualmente sinistro “A Morte do Demônio: Ascensão” do que de qualquer areia movediça ou besouros devoradores de carne.
A trama segue um casal de jornalistas (Jack Reynor e Laia Costa) cuja filha, Katie (Natalie Grace), desaparece no deserto após um encontro com uma mulher misteriosa. Oito anos se passam. A família, dilacerada pelo luto e pela culpa, tenta seguir em frente pelos outros dois filhos. O mais velho (Shylo Molina) e a mais nova (Billie Roy). Então, um acidente aéreo liberta um sarcófago, e Katie — agora adulta — reaparece desfigurada e catatônica, diagnosticada pelos médicos com a Síndrome do encarceramento, o que, a princípio, é usado para justificar os estranhos e repentinos movimentos que faz com o corpo.A família se reencontra em choque, mas algo está terrivelmente errado.

Cronin parece menos interessado em explicar a origem sobrenatural do mal do que em explorar suas consequências. A múmia, aqui, é menos um personagem do que um dispositivo narrativo, uma desculpa para liberar uma força sombria que se manifesta não em tempestades de areia com rosto humano, mas no corpo de uma criança que volta do além transformada em algo monstruoso. A especificidade da múmia como monstro do Egito antigo poderia ser mais explorada e pode incomodar quem esperava uma expansão da mitologia do monstro clássico. Os rituais de embalsamamento, o Livro dos Mortos, a vingança dos faraós, são deixados de lado em favor de um horror sobrenatural mais “livre”. Para espectadores que esperavam uma celebração da tradição da Universal, isso pode ser frustrante. Mas ao fim, o resultado é enervante justamente pela subversão. Cronin não está fazendo um filme sobre uma múmia; está fazendo um filme sobre uma família que descobre que a filha que amavam se tornou algo irreconhecível e o horror disso. E não, ainda assim, “A Maldição da Múmia” não se pretende ser um terror psicológico cabeçudo, mas consegue amarrar os bons sustos com uma construção de atmosfera muito competente.
Lee Cronin não é um diretor que se esconde atrás de sustos fáceis ou de uma atmosfera genérica. Seu primeiro longa, “The Hole in the Ground” (2019), já demonstrava uma obsessão por um tema que se repetiria em sua filmografia: a infância como território de horror. O filme irlandês, sobre uma mãe que suspeita que o filho não é mais o mesmo após um desaparecimento na floresta, estabeleceu Cronin como um bom expoente do “vale da estranheza” no horror. Aquela sensação desconfortável de que algo familiar se tornou esquisito, ameaçador, irreconhecível.
Foi com “A Morte do Demônio: Ascensão” (2023), porém, que Cronin explodiu para o grande público. A tarefa era hercúlea: dar continuidade a uma das franquias mais amadas do terror cult, criada por Sam Raimi, que combinava humor pastelão, violência extrema e um demônio sadomasoquista chamado Kandar. Cronin não apenas conseguiu como entregou um dos filmes de terror mais aclamados do ano, transferindo a ação para um prédio de apartamentos e usando a maternidade como tema central.

“A Maldição da Múmia” é, em muitos sentidos, a culminação de suas obsessões anteriores. Tem a criança sinistra, a possessão demoníaca e a violência grotesca e o tema da maternidade/filiação dilacerada que atravessa ambos. O resultado é um filme que combina esses ingredientes à muita coisa nojenta em um só pacote doentio
Cronin constrói o clima com calma, estabelecendo o cenário, apresentando a família, criando uma camada de luto e culpa que torna os personagens identificáveis. A identificação com o pai se sentindo culpado e com a mãe enlutada é quase que imediata, com crédito para as boas atuações do casal principal.
O filme entra num crescendo de desconforto assim que o avião cai e o sarcófago é aberto. Dá quase para sentir o diretor soltando as amarras e se preparando para a espiral de loucura que faria aquela família enfrentar. Os horrores incessantes grotescos começam durante os cuidados com a volta da antiga moradora e vão se tornando cada vez mais desagradáveis conforme a família passa a aceitar que talvez sua filha não more mais naquele corpo.
Cronin, como Raimi antes dele, tem um senso de timing e um prazer quase sádico em criar imagens que grudam na retina do espectador.
Se há algo em que “A Maldição da Múmia” é indiscutivelmente bem-sucedido, é na atuação de sua protagonista adolescente. Natalie Grace, que já vinha construindo uma carreira em projetos de terror (incluindo “A Maldição da Residência Hill”), entrega aqui uma performance que pode ser comparada à icônica interpretação de Linda Blair como Regan em “O Exorcista”. Seu olhar perdido, aos poucos ganhando malícia e profundidade, se unem à maquiagem grotesca e aos movimentos corporais intimidadores, fazendo de sua Múmia a mais ameaçadora representação do monstro até aqui. A alternância entre a vulnerabilidade de uma criança perdida e a ameaça calculada de uma entidade milenar filmadas em closes demorados é mesmo um acerto do terror neste primeiro semestre cinematográfico Somos obrigados a encarar o que ela se tornou.
O filme não esconde a excrescência trazida pela morte. O luto é um fantasma que paira a exibição mesmo quando uma notícia deveria ser positiva. O clima pesa conforme a previsão de desconforto se confirma com cenas que não se contém em detalhar a decadência física do corpo humano e a fragilidade dos personagens em tela, sobretudo em seu trecho final, onde o diretor parece se divertir sem dar trégua para o coração do público e dos protagonistas.
“A Maldição da Múmia” aposta majoritariamente em efeitos práticos. O visual da múmia e as cenas de perseguição da entidade foram feitos majoritariamente com efeitos práticos. Isso significa momentos de violência mais gráfica impactantes criados por prótese e não pelo famigerado e super utilizado CGI.
Os 133 minutos de duração não pesam, mesmo com alguns enxertos dispensáveis, como a introdução de uma seita religiosa (não precisava).
Há uma investigação policial em paralelo conduzida pela policial interpretada por May Calamawy que cai muito bem, afinal, em algum filme de terror a polícia precisa servir para alguma coisa. Os cortes entre as agruras da família e descobertas da agente não quebram o ritmo porque se completam.
As referências de Cronin se fazem valer em tela. Desde “Faça Ela Voltar” (2025) , passando pelo clássico “A Profecia” e o body horror “Fome Animal”, tudo se mistura para formar algo familiar, mas de certa forma original.
“A Maldição da Múmia” é um filme para para quem busca aventura e humor no estilo Brendan sangue e vísceras enquanto a morte dissolve uma família inteira. Se você ama terror, vai se deliciar com o prazer perverso capitaneado por Cronin.
