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“A Melhor Mãe do Mundo” aponta a solidariedade feminina como redenção e cresce na atuação crua de Shirley Cruz

“A Melhor Mãe do Mundo” aponta a solidariedade feminina como redenção e cresce na atuação crua de Shirley Cruz

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“Uma negra e uma criança nos braços, solitária na floresta de concreto e aço”. “A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert (“Que Horas Ela Volta?”, “Durval Discos”), me lembrou a chegada de minha mãe em mais uma de suas tentativas de melhorar de vida entre sua terra natal, Bahia, e a grande metrópole brasileira, São Paulo. Noites frias, bolachas recheadas como janta, uma desesperança incômoda e uma resiliência inabalável.

Shirley Cruz interpreta Gal, uma mãe catadora de materiais recicláveis que foge de uma relação abusiva com seu marido Leandro, vivido por Seu Jorge. Com os dois filhos pequenos, interpretados por Rihanna Barbosa e Benin Ayo, Gal empreende uma fuga desesperada com seus dois filhos de uma rotina de violência doméstica,levando junto sua carroça e um coração aflito pelas ruas de São Paulo. 

Anna Muylaert filma sua protagonista de perto, quase como se tentasse isolá-la da opressão da cidade, captando seu nervosismo nos olhos que piscam sem parar, sua vaidade limitada pelos recursos financeiros e o medo de não dar conta da vida. Gal é defendida por Shirley Cruz com firmeza e crueza. Já na cena inicial, em que denuncia o namorado por violência doméstica, com poucas palavras, atitude envergonhada, temos o parâmetro que vai guiar sua atuação até o final do filme. Ela não é resoluta e militante como as mulheres que vemos nas redes sociais. É mais parecida com as milhões que ainda não sabem seus direitos e que precisam lidar com o fato de amarem seus algozes, ainda que sob a égide da violência.

“A Melhor Mãe do Mundo” aponta a solidariedade feminina como redenção e cresce na atuação crua de Shirley Cruz

Retratar Gal sem drama panfletário enriquece a personagem pois a coloca num lugar mais identificável e menos cansativo. Já convivemos com “entendidos” demais na rede e vemos pouco o reflexo do que é de fato uma mulher periférica lutando por amor, maternidade digna e a sobrevivência.

O filme arrisca uma emulação de “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni, com Gal tentando criar um mundo de sonhos enquanto dorme na rua com os filhos, mas felizmente não insiste em seguir por esse caminho. Até pelo questionamento da filha mais velha que já entende que dormir embaixo de uma lona é pouquíssimo mágico.

O longa quase se torna um road movie, mas explora menos do que seria desejável as agruras de uma São Paulo tantas vezes invisível. Ainda assim, foi salutar entender o contexto vivido pela catadora numa cooperativa de reciclagem.

Quando chegamos na expansão familiar de Gal, onde somos apresentados a um refúgio supostamente seguro na casa de uma prima (Luedji Luna), acontece a passagem mais inspirada do filme. As contradições de uma mulher que quer o amor, quer lealdade, fidelidade, mas não ser violentada e que está disposta a perdoar seu agressor em troca de todas as promessas as quais sempre somos tentados a acreditar. É essa mulher que faz “A Melhor Mãe do Mundo” vale à pena o tempo investido. Uma mulher que ganha sua redenção pela solidariedade de outras mulheres e pelo amor dos filhos, que acreditam na heroína errática que os guia por um mundo mais cinza do que pinta a imaginação.

Anna Muylaert possui trabalhos mais inspirados e, aqui e ali, tenta seguir por um caminho narrativo que não faz jus ao que sabemos que ela consegue fazer, mas assim como a Gal de Shirley Cruz, ela encontra salvação justamente na figura de outra mulher, e é sua protagonista, que segura no óbvio talento algo que o filme poderia dizer com mais visceralidade, mas hesita no meio, embora consiga recuperar-se de forma satisfatória.

“A Melhor Mãe Mundo” vale pela presença de Shirley Cruz e pela amostragem de um Brasil que muita gente convive do lado, mas se recusa a ver.

Título original: A Melhor Mãe do Mundo 

País de Origem: Brasil 

Gênero: Drama 

Duração: 106’ 

Ano de Produção: 2025 

Direção: Anna Muylaert

Elenco: Shirley Cruz, Seu Jorge, Rihanna Barbosa, Benin Ayo, Luedji Luna, Rubens Santos, Rejane Farias, Lourenço Mutarelli

Participação Especial: Katiuscia Canoro, Ayomi Domenica e Dexter

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Última atualização em: 5 de agosto de 2025 às 13:11

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