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Deslumbre visual com narrativa repetitiva; “Avatar: Fogo e Cinzas” aponta para cansaço da franquia

“Avatar: Fogo e Cinzas”

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James Cameron é, por excelência, um contador visual de histórias, um arquiteto de deslumbramentos sensoriais que transforma premissas simples em espetáculos inigualáveis. Em “Avatar: Fogo e Cinzas”, essa vocação atinge um novo patamar técnico, mas acompanhado de um roteiro que oferece pouca ou nenhuma novidade, denotando um cansaço que começa a se fazer sentir na franquia.

Se “O Caminho da Água” representou um salto quântico no realismo digital, especialmente no domínio da água, este terceiro capítulo oferece um refinamento mais discreto, porém ainda arrebatador. A verdade é que exigir evoluções tecnológicas revolucionárias a cada três anos é injusto; o que Cameron entrega é uma imersão visual tão meticulosa e opulenta que, ao notar uma única videira bioluminescente que por um piscar de olhos não parece totalmente fotorrealista, temos a súbita consciência de que até os deuses, por vezes, sangram. É um preciosismo que só ressalta a perfeição quase absoluta do restante.

A grande narrativa deste filme gira em torno da introdução do clã Mangkwan, liderado pela feroz e violenta Varang (Oona Chaplin). Vivendo à sombra de um vulcão em uma terra cinzenta e estéril, estes Na’vi magros e agressivos trazem uma vitalidade nova e bem-vinda ao ecossistema de Pandora, afastando de vez a imagem de que seus habitantes são todos “hippies paz e amor”. Seu ataque a uma embarcação que transporta a família Sully – ainda em luto pela perda de Neteyam – serve como gatilho para uma trama que, de uma vez só, expande o mundo, aprofunda conflitos e acelera a jornada de autodescoberta de Kiri (Sigourney Weaver). É fascinante observar a aproximação tática e ideológica entre Varang e um Coronel Quaritch (Stephen Lang) agora mais complexo, dividido entre sua programação humana e suas experiências no corpo de um avatar. Esta união entre a tecnologia colonialista e um ódio indígena brutal eleva consideravelmente as apostas, mas já tínhamos visto boa parte disso nos dois filmes anteriores.

“Avatar: Fogo e Cinzas”
Varang (Oona Chaplin)

O filme tenta descentralizar Jake e Neytiri, dando espaço e desenvolvimento para a nova geração, mas não se contém e retorna aos mesmos conflitos da dupla original de protagonistas. Em alguns momentos chega a ser enfadonho. Kiri e seu quase poder místico, Lo’ak e sua culpa fraterna em relação a Payakan, e especialmente Spider (Jack Champion), cuja transformação fisiológica após um ato de salvação divina o coloca no centro de uma crise de identidade, ganham destaque necessário e isso oferece pitadas de emoção à uma trama que insiste em dar voltas em torno de si.

Não há problema em simplificar uma narrativa. O problema está na falta de sutileza. A abordagem anticolonialista e ambientalista é expositiva além do necessário, com Cameron retirando qualquer véu restante que deixaria interpretações ao público. É como se o diretor estivesse mais preocupado com as pessoas que vão ver o filme depois enquanto mexem no celular.

O ponto mais frágil do roteiro é uma conveniência narrativa alarmante: a introdução tardia e abrupta de um personagem aleatório como peça-chave em um salvamento crucial, um remendo que rompe a costura da imersão.

Apesar disso, o charme de “Fogo e Cinzas” é inegável. O filme é uma viagem de quase 200 minutos para um Oz digital de beleza hipnótica, uma experiência que ainda justifica a ida ao cinema, mas aponta perigosamente para um rumo decadente se não houver uma reviravolta na abordagem para os próximos filmes prometidos da franquia.

James Cameron é um diretor fenomenal e não podemos deixar de imaginar quantas outras maravilhas este mestre poderia criar se, por vezes, deixasse o trono de Pandora para explorar novos reinos.

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Última atualização em: 15 de janeiro de 2026 às 12:07

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