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Diretora de “Quatro Meninas”, Karen Suzane fala sobre representatividade, memória e os desafios de dirigir seu primeiro longa-metragem

Diretora de "Quatro Meninas", Karen Suzane fala sobre os desafios de dirigir seu primeiro longa-metragem

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Karen Suzane sentou conosco para a entrevista na semana em que seu primeiro longa-metragem, “Quatro Meninas”, foi selecionado para a Mostra Generation 14Plus na 76ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. O filme contou com sessões dias 14,15,16, e será exibido 19 e 21 de fevereiro, com as presenças da diretora, da roteirista Clara Ferrer, da atriz Dhara Lopes, do produtor Marcello Ludwig Maia, da República Pureza Filmes, e da coprodutora Ellen Havenith, da produtora PRPL, de Amsterdam.

Diretora formada em cinema e audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Em 2018, dirigiu o curta “A Mulher que Eu Era”, exibido e premiado em diversos festivais. Também realizou a websérie documental “DNA Gastronômico” (2020) e a série documental “Negro Muro” (2023). Agora, Karen chega ao topo da carreira (até aqui!).

Com um sorriso no rosto que se repetiu ao longo de toda a entrevista, Karen falou sobre a conquista, os bastidores da direção e o que significa contar histórias negras no audiovisual brasileiro. “A gente trabalha tanto, se esforça tanto… e aí poder de fato saber que existe uma seleção que regularmente ajuda muito”, disse, sobre a convocação para Berlim. “Foi uma coisa que realmente me deixou satisfeita.”

A chegada ao Berlinale acontece num momento de efervescência de atenção do mundo em relação ao cinema brasileiro. Só no festival, há dez filmes selecionados. Ainda assim, para Karen, é preciso fazer uma análise cautelosa. Segundo a cineasta o que se vê é ainda uma “fissura muito pequena”. “É um despontar no sentido de que a gente consegue abrir uma fissura, ainda muito pouca, muito pequena, para de fato internacionalizar nossos filmes. Quando a gente consegue trazer o que a gente tem enquanto nação para outros países, a gente promove um intercâmbio cultural. O filme, querendo ou não, é um produto da nossa cultura, da nossa expressão artística”, reflete.

A diretora aponta que os festivais seguem sendo o principal atalho para que filmes brasileiros cruzem fronteiras, mas pondera que o sistema também tem suas hierarquias. “A gente sabe que os festivais têm as suas ordens administrativas. Quando a gente passa num festival, a gente passa em um e deixa de passar em outro. O nível Europa, Estados Unidos é muito mais difícil. Ásia, desconheço. África também, conheço dois grandes festivais lá, que inclusive tenho muito interesse que o filme passe.” Outro caminho, segundo ela, é a contratação de agentes de venda internacionais, profissionais responsáveis por negociar a distribuição dos filmes fora do país. “É um atalho, porque eu, como diretora, e o Marcelo, como produtor, às vezes a gente não pensa nesse networking.”

Karen Suzane

Um dos pontos altos da conversa foi a descoberta das quatro jovens protagonistas do filme, incluindo as que viriam a vencer categorias no Festival de Brasília: Melhor Atriz (Darah Lopes) e Melhor Atriz Coadjuvante (Maria Ibraim).

“A gente fez três dias de casting em formato de workshop. O processo conduzido pela produtora de elenco Isabel Lobo, que apresentou cerca de 40 meninas para os papéis foi bem curioso .No primeiro dia, recebi as meninas negras; no segundo, as brancas; no terceiro, todas juntas. Curiosamente, as quatro, quando todo o casting foi filmado, desde o primeiro momento em que sentaram para conversar, já apresentavam uma química desde o início e estavam juntas. A câmera estava registrando e captou as escolhidas”, conta rindo.

O longa mostra uma sensibilidade a ficar de olho na diretora e no elenco. O tema poderia ser tratado de forma manipulativa e superficial, mas ganha a medida certa de cuidado pelos profissionais envolvidos. Há uma sutileza bem-vinda na condução da trama.

Para Karen, dirigir um longa-metragem exigiu não apenas habilidades técnicas, mas também uma postura ética e afetiva diante de cenas que evocavam violência racial e memórias traumáticas. “Eu tô entrando numa parte da história que, para as pessoas negras — e isso inclui a minha pessoa —, é um lugar que você tem que ter um respiro. Você tem que ter uma força, uma resiliência, um cuidado muito grande, porque você trabalha a partir das emoções e está recriando uma realidade que foi violenta, dura, traumática.”

A diretora conta que, antes de filmar uma das cenas mais emblemáticas e tensas do filme, reuniu as oito atrizes e leu um texto que a emocionava. “Eu queria trazer para elas o que eu podia de conforto. Deixar claro que elas estavam num lugar seguro, que poderiam conversar comigo. Às vezes o elenco precisa de silêncio, às vezes precisa caminhar longe do set. São coisas pequenas, mas a gente precisa estar atenta.”

Diretora de "Quatro Meninas", Karen Suzane fala sobre os desafios de dirigir seu primeiro longa-metragem
As protagonistas de “Quatro Meninas” | Foto: Cris Lucena

Ao longo da entrevista, Karen refletiu sobre a necessidade ainda atual de se afirmar enquanto diretora negra. Para ela, o termo não é apenas uma autodeclaração identitária, mas uma ferramenta política. “A gente precisa falar isso ainda porque a humanidade ainda não entendeu, de alguma forma, que a gente é um só, que somos flores de um mesmo jardim. A partir do momento que a gente começar a entender isso, o asiático, o negro, o branco vai deixar de ser dito porque a gente já vai ter internalizado. Mas a gente ainda não internalizou.”

Ela lembra que, segundo pesquisas do setor, até 2012 apenas duas diretoras negras tinham longas comerciais lançados no Brasil. ” Pô, são 183 anos de cinema no Brasil, e a gente tem quatro. São coisas para a gente compensar e analisar. Por mais que sejam dados tristes, são uma forma de questionar e dialogar.”

Ambientado no passado, o longa dirigido por Karen Suzane escancara feridas que ainda não cicatrizaram. A busca por liberdade, amor e emancipação das jovens protagonistas ecoa em histórias contemporâneas de meninas negras que ainda hoje lutam para romper ciclos de violência e exploração. “É uma história que reverbera algumas relações brasileiras, especificamente no contexto cultural do Brasil. E é interessante para o Brasil entender isso. Faz parte de um processo de desconstrução a gente ficar brigando e se achando melhor ou pior, fugindo de lugares onde a gente é explorado, onde a gente não tem direito nenhum.”

Perguntada sobre qual sentimento espera despertar no público — brasileiro ou estrangeiro —, Karen não hesita: “Esperança. Eu acho que a esperança é um sentimento. Esperar, confiar. A gente pode sim ter um futuro melhor.”

Sinopse: Encarregadas dos cuidados pessoais de quatro estudantes em um internato no interior do Brasil em 1885, Tita, Lena, Francisca e Muanda sobrevivem às suas circunstâncias sonhando com a liberdade. Quando um romance impensado põe a vida de Lena em perigo, os sonhos de fuga tornam-se necessidade, e as quatro meninas decidem fugir. Para sua surpresa, suas sinhás descobrem o plano – e exigem ir junto. Encontrando abrigo em um casarão abandonado, o grupo enfrenta desafios de convivência. Livres das estruturas de poder tradicionais, as moças negras experimentam o poder, o amor e a possibilidade de sonhar com o futuro, enquanto as brancas resistem a aprender a ajudar nas tarefas domésticas, cuidar de si mesmas e encarar seus erros. Quando uma velha ameaça ressurge, no entanto, todas precisam se unir para sobreviver.

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Última atualização em: 21 de fevereiro de 2026 às 17:17

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