Um encontro entre ciência e ancestralidade, atravessado por perda, urgência e descoberta. Esse é o ponto de partida de À Sombra do Sol (Solar Shadow), documentário brasileiro que faz sua estreia mundial no Hot Docs, um dos principais festivais de cinema documental do mundo, que acontece anualmente em Toronto, no Canadá.
Dirigido por Hugo Haddad e Isadora Canela, o longa, que terá sessões no festival canadense nos dias 28 e 29 de abril, acompanha, e ao mesmo tempo reconstrói, a trajetória do professor guarani Germano Afonso, referência nos estudos sobre astronomia indígena no Brasil. A produção é de Victoria Mazzia com articulação local de Diakara Dessano e Marcelina Moreira.
Após uma formação acadêmica tradicional, que inclui passagem pela Sorbonne, em Paris, Germano retorna ao país decidido a investigar os conhecimentos ancestrais dos povos originários sobre o céu, saberes historicamente negligenciados pela ciência ocidental.

“O filme nasceu do nosso encontro com o professor Germano e de seu próprio desejo de fazer um longa-metragem sobre sua pesquisa. Desde o início, fomos fisgados por suas histórias, um senhor de 70 anos de idade que contava com paixão os detalhes de sua pesquisa”, explicam os diretores de À Sombra do Sol.
Entre poesia estelar, ciência indígena, conhecimentos astrofísicos e ocidentais, a narrativa de À Sombra do Sol passeia por comunidades indígenas em busca da preservação dos saberes astronômicos e suas raízes. Entre eclipses e constelações, o filme propõe uma confluência entre ciência ocidental e ciências indígenas, abrindo espaço para encontros e transformações.
Nesse percurso, À Sombra do Sol, que conta com direção de fotografia de Alberto Alvares, cineasta indígena da etnia Guarani Nhandewa, e Carlos Ramon, encontra personagens raros: de um dos pajés mais antigos do Brasil a ex-alunos e lideranças indígenas que carregam, na prática, uma relação profunda entre observação do cosmos, espiritualidade e vida cotidiana.
A produção do filme sofre uma virada decisiva com a morte de Germano, vítima da Covid-19, ainda no início das filmagens. Sem seu principal guia, os diretores transformam o projeto em uma jornada própria, percorrendo diferentes territórios indígenas em busca das pessoas que mantiveram viva a pesquisa do professor.
Os realizadores também ressaltam o papel fundamental do professor na quebra de paradigmas e na ampliação das perspectivas sobre os saberes: “Mesmo sendo um pesquisador assíduo da academia, o trabalho de Germano desafiava a ideia de que o conhecimento científico só é válido quando vem de instituições ocidentais. Ele nos apresentou uma outra visão de mundo: uma cosmovisão em que as estrelas, o sol e a lua não são apenas objetos de estudo em laboratório, mas partes vivas da cultura, da memória e da resistência”.
Com cerca de 72 minutos, o documentário, que será distribuído nos cinemas pela Cajuína Audiovisual, combina imagens de arquivo de eventos e aulas do professor Germano, narração sensorial e uma construção que atravessa diferentes paisagens do Brasil, da Amazônia ao Sul do país. O resultado é um filme que dialoga tanto com o público de cinema quanto com áreas como educação, ciência e direitos indígenas.
