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“Eles Vão Te Matar”: Violência estilizada e clichês assumidos fazem da comédia de terror um delicioso exercício de exagero

“Eles Vão Te Matar”: Violência estilizada e clichês assumidos fazem da comédia de terror um delicioso exercício de exagero

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Há uma linha tênue entre o derivativo e o propositalmente referencial. “Eles Vão Te Matar” (They Will Kill You, 2026), novo longa dirigido pelo russo Kirill Sokolov e coescrito com Alex Litvak, caminha por essa fronteira com a desenvoltura de quem sabe exatamente o filme que quer fazer e se diverte com isso. A obra não tem pretensões a sutilezas, e é justamente essa falta de pudor que a transforma em um dos passatempos mais descompromissadamente divertidos do ano até aqui.

A trama começa onde muitos filmes de terror começam: na chuva. A cena de abertura apresenta as irmãs Asia (Zazie Beetz) e Maria (Myha’la) fugindo de um pai abusivo, diante da vitrine de uma loja que exibe a imagem idealizada de uma “família Doriana” — feliz, estável e, ao contrário delas, completamente seca. O destino, porém, separa as duas, e o filme dá um salto de uma década para reencontrar Asia agora adulta, em busca de uma nova chance.

Essa chance surge na forma de um emprego doméstico no Edifício The Virgil, uma construção nova-iorquina do início do século 20 que respira estranheza por todos os poros. A governanta (Patricia Arquette, em ótimo tom de ameaça contida) e os demais moradores compõem um mosaico de esquisitices que já antecipa o caos que está por vir. Em sua primeira noite no local, Asia é surpreendida por figuras mascaradas e encapuzadas que invadem seu quarto com um objetivo nada sutil: matá-la. Se o espectador evitou o trailer, o choque da revelação permanece intacto; caso contrário, o filme ainda guarda fôlego para surpreender na execução. Mas vale frisar , caso você não tenha visto o trailer: continue sem ver.

“Eles Vão Te Matar”: Violência estilizada e clichês assumidos fazem da comédia de terror um delicioso exercício de exagero

Após a primeira perna decepada por um machado, o clima de descompromisso e diversão fica claro, e mesmo os mais versados fãs de terror trash hão de se deliciar com as sequências que virão a seguir em um ritmo que segue bom se vacilar até o final.O festival de violência estilizada passa por mutilações, tiros que arremessam corpos com força descomunal e jatos de sangue que evocam os melhores momentos de Sam Raimi ou Quentin Tarantino. O apelo para a caricatura é proposital e torna a experiência ainda mais satisfatória.

Claro,para aqueles que militam de forma intransigente pelo terror realista ou psicológico, o filme pode soar bobo, mas é justamente o fato de não se levar a sério que torna “Eles Vão te Matar” uma experiência recompensadora.

As doses de humor visual funcionam em quase todas as tentativas. Uma cena em específico envolvendo Sharon, personagem de Heather Graham, é particularmente divertida. O resultado é mais risos do que sustos, mas ainda que pareça, não funciona como demérito para a produção.

Evito dar detalhes da trama porque muito da diversão vem do fator surpresa que é entregue nos primeiros quinze minutos. O caos se instala rápido e a virada vem à galope, puxando de vez o público para a jornada sangrenta de Asia Reaves.

Zazie Beets já tinha se destacado no cinema de ação como a Dominó do primeiro filme de Deadpool e, agora como o centro da ação, prova mais uma vez seu talento para conciliar carisma e fisicalidade. Sua Asia é uma heroína que segura a pancadaria com convicção. As lutas tem uma coreografia inteligível, mas em nenhum momento a protagonista soa invencível. Pelo contrário, é sua vulnerabilidade que compõe parte da diversão e sentimento de perigo. Sua performance sugere uma atriz claramente curtindo o material que tem em mãos, o que, convenhamos, é compreensível quando o antagonista que a persegue pelos corredores é (Spoiler) literalmente, um olho. Pois é, estamos aqui mergulhados no absurdo que lembra muito do cinema blaxploitation.

Ver uma mulher negra massacrando ricos brancos de forma estilizada poderia ganhar mais pitadas de complexidade? Poderia. Mas não é este tipo de filme e tudo bem.

“Eles Vão Te Matar”: Violência estilizada e clichês assumidos fazem da comédia de terror um delicioso exercício de exagero

Visualmente, Kirill Sokolov entrega boas imagens. O exagero que agrada quem abraça o absurdo pode não agradar quem não curte amálgamas de referências em profusão. Em determinados momentos, a sensação é de que o diretor tentou misturar referências como “Kill Bill”, “John Wick” e “Casamento Sangrento” e “A Morte do Demônio” em um só filme, mas sem o refinamento narrativo que equilibraria a balança entre homenagem e repetição. No fim das contas, as influências declaradas, em sua maioria, são bem utilizadas.

“Eles Vão Te Matar” cumpre com louvor o que promete desde o título. É um filme que abraça seus clichês com tanta honestidade que eles deixam de ser defeitos para se tornarem parte da proposta. Sokolov entrega um filme que não se leva a sério o suficiente para ser pretensioso, nem se leva tão pouco a sério a ponto de se tornar vazio. É um convite para desligar o cérebro e curtir o gore sem culpa.

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Última atualização em: 20 de abril de 2026 às 9:44

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