No documentário “Amazônia, A Nova Minamata?”, o cineasta Jorge Bodanzky, um dos nomes fundamentais do cinema documental brasileiro, diretor do clássico “Iracema, Uma Transa Amazônica” retorna à região que filma há mais de 50 anos para denunciar uma tragédia silenciosa: a contaminação por mercúrio proveniente do garimpo ilegal nas terras do povo Munduruku.
O filme, que chegou aos cinemas brasileiros 2025, com distribuição da O2 Play, coprodução da Globo Filmes e Globonews, e realização da Ocean Films, expõe os riscos da Doença de Minamata — síndrome neurológica grave causada pela intoxicação por mercúrio — que hoje ameaça populações inteiras na Amazônia. Em breve conversa com o diretor, ouvimos seu ponto de vista sobre os 50 anos de registro na floresta, a organização política das comunidades tradicionais e o papel do documentário como testemunho e instrumento de transformação.
Para o diretor, pouca coisa mudou. “Grande parte, ou quase a totalidade dos problemas que a gente vem discutindo nesse período, continuam aí. E, muitas vezes, aumentados, piores. Mas tem, no meu ponto de vista, uma novidade, uma coisa que vem acontecendo já há algum tempo e que eu acho importantíssima: a organização da sociedade civil”, aponta.
De fato, mesmo através das redes sociais, pode-se encontrar várias organizações indígenas e quilombolas resistindo ao avanço selvagem do capitalismo tardio. Mas Bodanzky tem a experiência mais rica, que é a in loco. “Hoje, você viaja pela Amazônia, em qualquer rincão que você vá — seja quilombola, ribeirinho ou comunidades indígenas —, eles têm a sua organização, a sua representatividade, sabem o que querem. Acontece que só não são ouvidos ainda no volume que precisam ser ouvidos, principalmente em Brasília. Mas se há uma mudança, e se possivelmente no futuro vai haver uma mudança, ela não vem dos governos, ela vem da sociedade civil”, reflete o documentarista.

Jorge Bodanzky estava gravando entre os Mundurukus em 2016 e ouviu o relato de um médico de que havia quase 200 pedidos de cadeiras de rodas para crianças com problemas neurológicos. Impactado, passou a filmar e fazer a pesquisa para o documentário. Durante as filmagens, o curta sobre a história de Minamata que é mostrado para os indígenas no filme, foi dublado em Munduruku e distribuído pelas lideranças indígenas para convencer os parentes a não permitir mais garimpo em suas terras. A personagem principal, Alessandra Korap Munduruku, ganhou o PRÊMIO GOLDMAN por sua luta contra as empresas de mineração.
“O que está acontecendo na Amazônia é uma repetição do que ocorreu em Minamata, no Japão, no século passado. Invadida criminosamente pela mineração ilegal, que destrói a floresta enquanto deposita toneladas de mercúrio nos rios, a Amazônia percorre o mesmo processo de contaminação silenciosa. Só que lá, a doença foi reconhecida. Aqui, ainda se tenta esconder”.
Apesar da jornada robusta como pesquisador dos rincões do Brasil na posição de documentarista, Bodanzky teve na experiência de filmagem de “Amazônia, A Nova Minamata?” seu desafio mais difícil. Temas ligados à saúde da população indígena, afetados pelo despropósito das pessoas brancas, é sempre calcado em obstáculos. “Fiz muitos filmes sobre a região, mas este é seguramente um dos mais importantes e difíceis da minha vida, pois alerta para os riscos que a contaminação por mercúrio significa para as novas gerações da Amazônia”.

Confira mais do papo com o diretor:
O senhor mencionou a organização das comunidades. De que forma elas aparecem no filme?*
Elas são protagonistas. O documentário é um testemunho daquilo que está acontecendo, mas é também um instrumento para se discutir e alterar o que está acontecendo. E o que torna esse testemunho tão importante é que são as pessoas que estão vivendo esse problema que estão fazendo a denúncia no documentário. Não sou eu, como diretor, falando sobre eles. São eles falando por si mesmos.
Como o senhor vê o espaço para documentários no circuito comercial hoje?*
Eu acho que o documentário cada vez mais está chegando a um público maior. Basta ver quantos documentários são exibidos em festivais, mesmo no cinema. Mas eu acho que o caminho natural do documentário não é exclusivamente o cinema. É o cinema também, mas com uma forma de divulgação mais ampla. O documentário é mais visto na televisão, nos streamings, como sempre foi.
Não digo que o documentário é um cinema menor, de jeito nenhum. O que se renova na linguagem cinematográfica vem sempre do documentário. E até surpreende a quantidade de documentários que estão atualmente sendo exibidos no cinema — não só no Brasil, mas no mundo todo.
A ficção está muito mais destinada a você se divertir, se distrair, enquanto que o documentário é uma questão mais reflexiva. Nem sempre as pessoas estão dispostas, no cinema, a pagar para ver um problema. Mas a divulgação do documentário nas outras mídias é muito grande hoje.
Qual é a principal mensagem que o senhor espera que o público leve para casa depois de assistir a “Amazônia, A Nova Minamata?”?
Eu espero que as pessoas saiam do cinema com a compreensão de que a Amazônia não é um problema, é uma solução. E que os povos que vivem lá — e que estão na linha de frente da defesa da floresta — sabem o que querem. Eles estão organizados, eles têm voz. O que falta é a gente ouvir. E, mais do que ouvir, agir.
