Primeiro longa da cineasta Janaína Marques, Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha foi selecionado para o prestigiado Festival de Berlim 2026, na seção Forum que é historicamente associada à liberdade estética e à experimentação formal.
Produzido pelas cearenses Delírio Filmes e Moçambique Audiovisual, o longa se constrói como um road movie do inconsciente, uma travessia sensorial guiada pela imaginação como forma de cura. A seleção foi recebida pela equipe como a coroação de um longo trabalho. Para a diretora, ter a première mundial no Fórum da Berlinale já é um prêmio, é onde estrearam filmes de alguns de seus cineastas favoritos, como Aki Kaurismäki e Tsai Ming-Liang. “Eu sinto que é o lugar que o filme deveria estar”, afirma.

O longa se desenvolve como um retrato íntimo de uma mulher convocada a revisitar sua própria história quando já não consegue se reconhecer nela. Diante da dificuldade de acessar uma memória feliz, a protagonista Rosa (vivida por Verônica Cavalcanti) mergulha numa busca interior que se torna a própria narrativa do longa. Entre o real e o imaginado, a realidade começa a ceder espaço ao sonho, ao delírio e à memória, uma jornada íntima em que Rosa reencontra a mãe (interpretada por Luciana Souza) e a transforma em parceira de estrada.
Para Marques, nascida em Brasília, mas criada no Ceará, essa jornada é, antes de tudo, um gesto de sobrevivência. “Eu acho que é um filme sobre a vontade de viver, sabe?”, afirma. Incapaz de acessar lembranças felizes, Rosa cria seus próprios caminhos, e a viagem com a mãe ganha um caráter íntimo e restaurador.
A diretora afirma que se conecta à personagem a partir do reconhecimento do corpo feminino como território atravessado por imposições e silenciamentos. O delírio surge como gesto de autopreservação. “O nosso próprio corpo, como forma de sobrevivência, acaba buscando certos delírios”, diz Janaína. Ao decidir levar a mãe em sua viagem, o filme afirma uma dimensão de sororidade e memória compartilhada.
