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As angústias de uma juventude agredida que ainda sonha: Lúcia Murat reflete em entrevista sobre “Hora do Recreio”, seu novo filme

As angústias de uma juventude agredida que ainda sonha: Lúcia Murat reflete em entrevista sobre "Hora do Recreio", seu novo filme

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Há filmes que conseguem capturar não apenas imagens, mas a própria respiração de um lugar. “Hora do Recreio”, novo documentário da cineasta Lúcia Murat, é um deles. Ao mergulhar no cotidiano de estudantes e professores de escolas públicas, a diretora investiga como se aprende — dentro e fora da sala de aula — sobre regras, afeto, violência, racismo e liberdade. O resultado é um retrato cortante de quem constrói a educação brasileira com as próprias mãos e de quem vivencia as faltas que ela possui.

Assistindo ao filme, confesso que o jornalista deu lugar ao aluno de escola pública que fui, negro, criado nas periferias de São Paulo, e que viu na tela experiências tão familiares. Alunos e alunas vítimas de vários tipos de agressões expõem suas histórias para a câmera da documentarista de forma crua, como se fosse suas últimas chances de serem ouvidos. Antes mesmo que eu formule direito a pergunta sobre como foi para ela, com uma trajetória tão distinta, estar naquele território, ela faz questão de pontuar: “Eu estudei em escola pública a vida inteira.”

A frase carrega uma história. “Eu era classe média. A educação mudou muito nesse país. Na minha época, classe média estudava em escola pública. E eram escolas de alta qualidade. O país tinha 70% de analfabetos nos anos 50, se discutia a universalização, mas com a ditadura ampliou-se o acesso e acabou-se com a qualidade.” Lúcia faz uma pausa e completa: “A classe média, que antes tinha poder de influência na escola pública, se retirou. E isso também é uma tragédia para a classe média, que hoje tem que ganhar muito para pagar escola particular, ter um filho só.”

Mas a distância entre sua experiência e a daqueles jovens, ela reconhece, existe. “A realidade social é outra.” Há anos, no entanto, Lúcia vem construindo pontes. Seu trabalho com jovens de comunidades teatrais — como o Nós do Morro, no Vidigal — a aproximou de uma potência que o cinema insistia em estereotipar. “Em filmes de ficção, eles acabavam estereotipados em papéis de bandidos. Eu conhecia a potência deles e queria dar um espaço para que falassem de si. Pensei em fazer isso na escola, para fugir do preconceito em relação à comunidade e à violência.”

As angústias de uma juventude agredida que ainda sonha: Lúcia Murat reflete em entrevista sobre "Hora do Recreio", seu novo filme

O projeto começou a ganhar forma em 2018, em contato com professores progressistas. Mas cinema, lembra Lúcia, demora. “Veio a pandemia, editais dizendo não… Quando voltei, em 2021, 2022, eu já não era uma estranha para eles. Fui como observadora, e quando filmamos, eles já me conheciam.” Ela sorri: “Devem ter dado um Google na minha vida também.”

Assistir a “Hora do Recreio” duas vezes foi, para mim, uma experiência de reconhecimento e estranhamento. A lucidez dos alunos contrasta com o crescimento do conservadorismo entre a juventude que vemos nas redes. Pergunto se esse recorte foi intencional. Lúcia é direta: “Não é um tratado sociológico, não é estatístico. Fui atrás de professores progressistas, que tinham esse tipo de discussão.” Mas admite que se surpreendeu. “Me espantaram duas coisas: primeiro, a coragem e a capacidade de articulação deles. É espantosa a firmeza com que falam. Segundo, apesar dos péssimos salários e condições, a quantidade de professores legais que batalham pelos alunos.”

Ela conta que, no sábado anterior à nossa conversa, realizou uma sessão para mais de cem professores de escola pública. “Todos muito dedicados. Essas foram as grandes surpresas para mim.”

Créditos_ Taiga Filmes
Créditos: Taiga Filmes

Não creio que as surpresas de Lúcia e as minhas em relação aos esforçados no campo da educação venha de subestimar quem nela batalha, mas talvez pelo ambiente político de exposição contínua de uma realidade que tem mostrado uma juventude reacionária e professores pressionados. No aspecto de mostrar que há esperança dentro dos muros escolares, “Hora do Recreio” consegue um belo feito.

A conversa ganha contornos políticos quando falamos do avanço das escolas cívico-militares em São Paulo. Lembro a Lúcia que ela própria já sofreu censura do Estado, impedida de filmar em algumas instituições para o próprio filme. Num cenário de expansão desse modelo, filmes como o seu ainda serão possíveis? A resposta vem sem rodeios: “Eu acho que isso é uma questão do país. Para combater isso, a gente tem que saber em quem votar. Eleger pessoas que possam acabar com essas escolas, porque isso é uma maluquice.”

Para Lúcia, o que está em jogo é um projeto de nação. “O que o filme está provocando de discussão é justamente o contrário: educação pública é fundamental, tem que ter recurso, professores têm que ter melhores salários e condições de levar esses estudantes para o teatro, o cinema, o museu. É esse acesso à cultura que vai impedir que esses monstrengos aconteçam.”

Sua voz ganha um tom mais grave ao lembrar do episódio recente no Colégio Pedro II, no Rio. “Me afetou muito. Sou uma pessoa de escola pública de referência. O Pedro II é uma escola de referência. Foi assustador.” O caso, que envolveu conflitos internos, escancarou a fragilidade das instituições. “Não adianta só expulsar. Tem que rever a escola, trabalhar com cultura. É essa discussão que a gente está levantando, não exatamente no filme, mas nos debates depois.”

Em diversos momentos da conversa, Lucia insiste na cultura como saída para o crescente apelo do conservadorismo reacionário com os jovens. Como transformar essa energia em algo que dialogue com ideias como as do filme? “Pensar a educação não só na educação formal, mas na importância do acesso. Você vê no filme aquela senhora, quase da minha idade, levando um monte de garoto no metrô? É de uma coragem! Isso tinha que ser prática permanente.”

Ela compara com realidades que conhece: “Lá fora, você vê crianças entrando no metrô, indo ao museu, todo mundo sabe o que é o quê.” Mas pondera: “Claro, a Europa está com crescimento da extrema-direita, então não é solução total. Mas temos que dialogar e brigar por isso. Nós, que temos pensamento progressista, temos essa responsabilidade.”

Lembro a ela que, na minha época de escola, as idas ao Sesc, à Pinacoteca, eram frequentes. Com meus irmãos mais novos, isso rareou. Pergunto, então, se “Hora do Recreio” é para ela um manifesto de esperança ou de angústia. A resposta ilumina todo o projeto: “Eu terminei o filme muito esperançosa, por esses dois motivos: os jovens são incríveis e os professores também. É uma dádiva no país. A gente tem em quem apostar.”

Ela detalha o processo de construção do filme, que contou com três grupos de teatro comunitário: Nós do Morro (Vidigal), Grupo Vozes (Pavão-Pavãozinho) e Instituto Arteiros (Cidade de Deus). “Desde o início, chamei a Luciana Bezerra, do Nós do Morro, para ser preparadora de elenco. Esses trabalhos são fundamentais.” Lúcia fala com entusiasmo da longevidade desses grupos — o Nós do Morro vai fazer 25 anos — e do impacto que têm na vida dos jovens. “Na sessão que fizemos lá, apareceram 40 jovens, além das famílias.”

É nesse ponto que ela traz uma reflexão preciosa: “É totalmente diferente quando você tem um porto seguro. O Babu Santana falava muito isso: se você tem um lugar para voltar, você volta inteiro. Se não tem, fica no vácuo. Quem pertence a esses grupos tem discussões políticas e culturais totalmente diferentes.” O exemplo vem rápido: “Ninguém conhecia Lima Barreto, mas o Nós do Morro já fez duas dramatizações de Machado de Assis. A escola também tem que ser esse lugar.”

Havia uma escola, na base do Alemão, que Lúcia queria muito filmar. “Não pude porque houve operação policial no dia. Era uma escola muito legal, com coordenadora incrível, discussão de racismo presente, grafite da Marielle, da Carolina.” O que mais impressiona é que, para ela, isso não é raridade. “Me espantou. Mas aí vem a operação policial e você não pode filmar. É a loucura da sociedade que a gente vive.”

“O que mais me impressionou foram essas duas coisas: os estudantes e os professores. Eu gostaria que as pessoas passassem a ter respeito. Basicamente isso. Respeito pelos jovens, pelos negros, pelas mulheres. É isso que a gente está querendo.”

Antes de nos despedirmos, ela faz questão de deixar um recado: “Anuncia aí que professores que tenham alunos de escola pública podem entrar em contato com a gente pelo Instagram @taigafilmes. A gente está fazendo sessões de manhã nos cinemas. Não é sempre possível, é caro, dá um trabalho fantástico, mas a gente está batalhando. Quem tiver proposta, a gente arma.”

A cineasta, na contramão de tudo, insiste em levar o cinema até quem precisa vê-lo — e, mais do que isso, em ver-se refletido nele.

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Última atualização em: 14 de março de 2026 às 13:11

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