Após uma trajetória em festivais internacionais, o longa “Narciso”, de Jeferson De (“Bróder” e “M8 – Quando a Morte Socorre a Vida”), chega aos cinemas brasileiros de mais de 20 cidades nesta quinta-feira, 19 de março, entre elas Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Recife, Maceió, Vitória, Curitiba, Florianópolis.
Livremente inspirado na obra de Caravaggio e no mito grego de Narciso, o filme acompanha a jornada de um menino negro e órfão em busca de sua própria identidade, pertencimento e do verdadeiro significado de família. O elenco reúne Arthur Ferreira, Bukassa Kabengele, Ju Colombo, Faiska Alves, Diego Francisco, Fernanda Nobre e participações de Seu Jorge, Juliana Alves e Marcelo Serrado.
No filme, Narciso (Arthur Ferreira) vive a dor de ser “devolvido” por pais adotivos, na véspera de seu aniversário. Ele volta a morar em um lar temporário sob os cuidados dos irmãos Carmem (Ju Colombo) e Joaquim (Bukassa Kabengele). Como forma de animá-lo, Narciso recebe de um amigo uma velha bola de basquete que teria poderes mágicos. Se ele acertar três cestas consecutivas, um gênio surgirá para lhe conceder um desejo. Atraído pela vontade de mudar de vida, o menino pede ao gênio (Seu Jorge) uma família rica, sendo atendido sob a condição de jamais poder ver sua imagem refletida, ou o encanto se quebrará.

O filme mergulha em uma narrativa que une espiritualidade, tempo e a realidade das periferias brasileiras. Em um encontro com a equipe do Pretessências, o diretor e os atores Ju Colombo e Seu Jorge falaram sobre a construção desta obra que desafia os moldes tradicionais do cinema nacional, confira:
Marcia Letícia (Pretessências): O filme chega aos cinemas agora no dia 19 de março. Como vocês estão lidando com a expectativa desse lançamento, vocês estão ansiosos?
Seu Jorge: Eu pessoalmente estou super ansioso. O Jeferson De arrasou na direção. Em muitos momentos eu senti que estava vivenciando um outro tipo de cinema, algo espiritualmente bonito. Existe uma espiritualidade em Narciso que a gente sente o tempo inteiro. O Jeferson teve uma percepção incrível com a questão do tempo. O filme funciona como uma partitura musical, onde o andamento e a clave já são impressos logo nas primeiras cenas. Parece música clássica; aquela experiência de ir ao teatro e ficar em silêncio, onde a arte te transporta para outro lugar. A estética é inovadora e a trilha sonora, composta quase inteiramente para o filme, é maravilhosa.
Marcia Letícia (Pretessências): O que mais chamou atenção de vocês na história e na construção desses personagens? Seja pela estética inovadora, que foge do que costumamos ver no cinema, ou pela trilha sonora tão marcante com músicas quase que completamente compostas especialmente para o filme?
Ju Colombo: O silêncio que o Seu Jorge mencionou é uma coisa nova, não havíamos pensado na comparação da estética desse filme, com a música clássica,o filme traz uma inovação necessária. É um cinema que coloca nossas dores e conflitos em um lugar de dignidade, falando da reza. As camadas da história chegam ao espectador da mesma forma que a música: você não precisa ser um intelectual para sentir. O Jeferson teve um apreço tão grande nessa construção que o filme acaba falando diretamente com o coração de quem assiste.
Marcia Letícia: Ju, sua personagem, a Carmen, aparece como um porto seguro para as crianças. Como foi equilibrar essa acolhimento e limite?
Ju Colombo: A Carmen é um arquétipo. O Jeferson disse que estava a cara da minha tia e que a caracterização estava ótima. Todos nós temos uma referência como ela na família. O desafio foi mostrar uma mulher que instrui, que dá disciplina e que coloca amor em cada detalhe, mas que também externa o seu cansaço. Ela deixa claro que tem limites e que quer ser reconhecida neles. Esse posicionamento é fundamental para nos humanizar como mulheres.
Seu Jorge: O trabalho da Ju foi excepcional. Em certo momento, ela dá uma lição de realismo necessária no personagem masculino ao lado dela. É um dos maiores momentos do filme. Ela coloca a bola no chão com uma elegância impressionante, como um Ronaldinho Gaúcho da atuação. Eu mesmo me senti tomando um aprendizado de vida, um verdadeiro coió, assistindo à força dessa personagem.
Marcia Letícia: Jeferson, o filme usa o nome de um mito clássico, mas foca em crianças negras periféricas. Como foi essa construção?
Jeferson De: O roteiro, escrito por mim e pela Cris Arenas é importante frisar, partiu da ideia de que o mito grego de Narciso ou histórias como Peter Pan não dão conta da complexidade de uma criança negra e órfã no Brasil. Essas mitologias europeias são limitadas para a nossa realidade. Buscamos novas descobertas sobre quem somos. O espelho em nosso filme serve para quebrar encantos e nos revelar através da nossa própria essência, com a força de um Oxóssi ou do nosso próprio gênio.
Marcia Letícia (Pretessências): Seu Jorge, como foi para você o processo de construção desse personagem que funciona como um gênio, mas com uma roupagem tão brasileira e espiritual?
Seu Jorge: Para falar desse personagem, preciso falar da minha vida. Fui criado na Igreja Católica, mas aos 22 anos me encontrei definitivamente no Candomblé. Xangô é meu pai de cabeça, com Iansã e Ogum na linha de frente. Então, o filme carrega muitos fundamentos. Quando o Jeferson De me convidou para interpretar algo em torno de um gênio, eu brinquei com ele: “Jefe, gênio, é lá na Arábia, de dar aquela raladinha na lâmpada. Aqui a gente é outra coisa”.
Jeferson De: Na primeira leitura, eu já disse que gênio não era a palavra certa. A gente apelidou a entidade de gênio porque a presença de Oxóssi ali é genial.
Seu Jorge: Ele aparece para trazer equilíbrio emocional para o garoto, para dizer que existem caminhos, mas que tudo depende do que ele quer experimentar. O recado do personagem é direto: não adianta ficar se admirando no espelho, se “lambuzando” de importância, porque tudo acaba. O importante é viver o que você realmente quer e reconhecer o amor onde ele está presente.
Assistindo ao filme, eu revi minha própria vida. Lembrei das minhas tias, que eram rígidas, da faxina braba de sábado, mas percebi que a quantidade de amor ali superava tudo. Foi esse amor que me transformou no homem e no artista que sou hoje. O personagem vem para permitir que o protagonista experimente essas possibilidades. Muitas vezes a gente deseja o que está fora e não reconhece o amor que já tem em casa, com pai, mãe e irmãos. O filme deixa essa mensagem bonita, não é sobre conformismo, mas sobre o reconhecimento da vida que foi preparada para nós e como podemos melhorá-la.
Marcia Letícia (Pretessências): Gostaria que chamem a nossa audiência para assistir este filme
Seu Jorge: Eu gostaria de convidar todos que acompanham o Pretessências para estarem nos cinemas no dia 19 de março de 2026. Cola na banca que o baralho é bom e o filme é incrível. É muito importante lotarmos as salas nas duas primeiras semanas para que o cinema de arte nacional continue em cartaz. Se você é amante do cinema brasileiro e dessa força de trabalho da nossa produção cultural, venha nos fortalecer. Narciso, dia 19 de março, em todos os cinemas do Brasil.
Ju Colombo: O resultado está nas telas. Convido todos a prestigiarem essa estreia no dia 19 de março. Adoro o trabalho de vocês no Pretessências!
