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“O Drama” oferece ótima provocação tragicômica sobre ansiedades e segredos das relações amorosas, mas erra ao ignorar questões raciais

"O Drama" oferece ótima provocação tragicômica sobre ansiedades e segredos das relações amorosas, mas erra ao ignorar questões raciais

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Fui assistir a “O Drama” com expectativas moderadas, embora goste muito da maior parte das produções da A24 e enxergue em Zendaya e Robert Pattinson dois dos melhores atores de sua geração. Ao fim da sessão, a sensação foi de ter acompanhado uma montanha-russa de boas atuações e bons diálogos que dá vontade de bater papo com amigos depois.

Kristoffer Borgli chega ao seu terceiro longa-metragem com uma trajetória que já anunciava a chegada de uma voz singular, ainda que deliberadamente provocadora. Se “Doente de Mim Mesma” (2022) era uma sátira mordaz sobre a patologia da atenção, com sua protagonista se automutilando para roubar os holofotes de uma amiga, e “O Homem Dos Teus Sonhos” (2023) um mergulho kafkiano nos mecanismos da cultura do cancelamento e da celebridade involuntária, “O Drama” representa uma tentativa de fundir a tradição do cinema de desconforto escandinavo com os códigos narrativos da comédia romântica estadunidense e do thriller psicológico.

Aqui, o diretor oferece um o olhar distante sobre os rituais sociais em que o verniz civilizatório é sistematicamente corroído por impulsos primitivos, no caso uma cerimônia de casamento. Borgli insere o crescimento do absurdo que beira o grotesco, e uma muito bem-vinda ausência de solenidade ao tratar o tema. um prazer quase adolescente em quebrar tabus que outros cineastas tratariam com solenidade.

Um casal feliz e recém-noivado é colocado à prova quando uma revelação inesperada faz com que a semana do casamento saia dos trilhos.

"O Drama" oferece ótima provocação tragicômica sobre ansiedades e segredos das relações amorosas, mas erra ao ignorar questões raciais

“O Drama” tenta misturar comédia romântica, terror psicológico, sátira de classe e estudo de personagem, mas nenhum se sobrepõe ao outro.Há irregularidades de ritmo, mas nada que comprometa a delícia de acompanhar a jornada de um casal aparentemente perfeito que escala para uma disfuncionalidade quase surrealista.

A cena do café em que Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya) se conhecem poderia ser a abertura de qualquer comédia romântica convencional: um homem tímido se aproxima de uma mulher bela e aparentemente inacessível, há um mal-entendido cômico (ela não o ouve porque é surda de um ouvido e está com fone no outro), o gelo é quebrado e uma história de amor se inicia. Um espectador casual que pode suspirar decepcionado por pensar estar diante de mais uma tentativa de resgate de uma comédia água com açúcar. A garota bonita e o sujeito deslocado se encontram num café. Mas a paciência premia quem espera.

A trilha sonora, de cara (composta pelo colaborador habitual Ola Fløttum) introduz elementos que denotam o desconforto por vir, fugindo do tradicional de histórias de amor comuns no cinema. Silêncios abruptos aparecem para criar expectativa e instala uma aura esquisita de expectativa. Ruídos ambientes, o tilintar de xícaras, o sibilar da máquina de espresso, o ruído branco do tráfego lá fora vão formando uma camada narrativa anunciando que algo errado vai cair na cabeça daqueles personagens. O rosto de Charlie quando Emma finalmente o nota, por exemplo, é filmado em um close que dura excepcionais oito segundos (uma eternidade no ritmo da edição contemporânea) durante os quais vemos Pattinson transitar de alívio para ansiedade, de ansiedade para esperança, de esperança para um medo que ele mesmo parece não saber nomear. É uma atuação construída em microgestos, na dilatação imperceptível das pupilas, no tremor contido dos lábios.

Neste primeiro encontro, Charlie se apaixona por uma anedota romântica, uma versão recortada de Emma, sentada no café, bela, distraída, surda de um ouvido. Tudo soa engraçado. Até que tudo desabe, o primeiro encontro resume a idealização mútua do casal.

A revelação do segredo de Emma durante o jantar com os amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie) é o eixo sobre o qual todo o filme gira. A forma como o diretor constrói essa sequência é ótima e uma das melhores partes do filme. O jantar acontece durante a escolha do local da festa de casamento e é filmado em um estilo câmera na mão, iluminação natural (ou que simula natural), cortes que respeitam a continuidade temporal. O diretor nos coloca como intrusos da cena. É como se tivéssemos ouvindo algo que não deveríamos. Quando Emma começa a contar sua história, a câmera se fixa em seu rosto por um plano-sequência de quase três minutos, uma escolha que força o espectador a confrontar a ambiguidade de sua expressão, a oscilação entre vulnerabilidade, vergonha e uma forma perturbadora de orgulho.

O conteúdo da confissão é tão meticulosamente construído quanto sua forma. (SPOILER….Continue por sua conta em risco). Emma revela não apenas que planejou um massacre escolar aos 14 anos, mas que sua surdez parcial foi causada pelo recuo do fuzil de assalto do pai durante treinamentos de tiro na floresta. Há uma precisão quase clínica nos detalhes: o modelo da arma (um Colt AR-15, o mesmo utilizado em tantos massacres reais), a localização da floresta (perto de uma cidade pequena no Oregon), a preparação meticulosa que incluiu a criação de um diário de bordo e a compra de munição ao longo de meses.

Diante do choque de seu parceiro e amigos, Emma conta que desistiu, mas não alivia. Ela não desiste por remorso, por empatia, por um súbito lampejo de humanidade. Ela desiste porque, no dia planejado para o ataque, um massacre ocorre em um shopping local, matando um amigo seu. Seu plano, que deveria ser único e chocante, torna-se redundante. Ela perde a “oportunidade” de ser a única atiradora, de ter sua imagem eternizada nas manchetes, de realizar a fantasia de notoriedade que a alimentava.

Cabe dizer aqui que atiradoras escolares são extremamente raras, se fizermos o recorte racial, mais raro ainda. Esse tipo de assassino é, em geral, homem e branco.

A partir dessa revelação, o filme entra numa espiral de dissolução de laços entre o casal e os amigos. Charlie passa a pesquisar freneticamente o assunto e passa a ponderar a ideia de se casar com uma possível psicopata. Ao mesmo tempo, Emma tenta explicar que isso foi uma fase e que não tem mais importância agora.

Uma questão profunda, que o filme nunca resolve inteiramente, é a desconexão entre a adolescente traumatizada e fanática que vemos nos flashbacks (interpretada com convicção por Jordyn Curet) e a Emma adulta que Zendaya encarna. A Emma do presente é equilibrada, bem-sucedida, emocionalmente estável, tão “perfeitamente normal” que a narrativa precisa operar um salto de fé para que aceitemos que essas duas pessoas são a mesma. Não há interesse em costurar absolutamente nada do presente de Emma que a conecte com a adolescente traumatizada e deprimida que planejou assassinar colegas na escola.

Os flashbacks são, talvez, o elemento mais frágil da arquitetura narrativa do filme. Não por falta de qualidade. (Jordyn Curet entrega uma performance impressionante como a jovem Emma, capturando a combinação de vulnerabilidade, raiva contida e frieza dissociada que caracteriza certos perfis de jovens em sofrimento extremo. O problema é de escopo.

Vemos Emma adolescente sozinha em seu quarto, consumindo conteúdo extremo na internet (os memes e fóruns são mostrados em rápidas montagens. Vemos o pai ensinando-a a atirar na floresta, uma figura periférica que nunca é desenvolvida. Vemos a preparação do plano, o acúmulo de munição, a redação do manifesto que nunca será lido. Mas o que não vemos, e o filme parece conscientemente evitar, é o que aconteceu nos meses e anos subsequentes ao massacre que “roubou” seu plano. OK, o filme pode não ser sobre isso exatamente, mas é como um vazio que incomoda.

Como Emma passou da adolescente que carregava um fuzil na bolsa para a mulher que conhece Charlie em um café anos depois? Houve terapia? Intervenção familiar? Uma crise de consciência tardia? O filme não responde. O interesse principal do cineasta é o efeito do segredo e como ele desestabiliza Charlie e o círculo de amigos do que na jornada de Emma em direção à suposta normalidade. Essa escolha tem consequências narrativas: Emma permanece, em grande medida, uma figura opaca, um catalisador para a desintegração alheia em vez de um personagem com agência plena sobre sua própria história. E se perde uma oportunidade incrível de fazer comentários de cunho racial. Talvez, nas mãos de um diretor negro, uma trajetória mais consistente fosse dada a Emma.

Na verdade, é um tanto desconfortável que um filme sobre um um homem branco pirando de medo de uma mulher linda, bem-sucedida e negra, se recuse a abordar qualquer questão de cunho racial. Emma e Charlie nunca discutem isso, o que parece improvável. Inclusive, o casal de amigos, também interracial,embora pareçam politicamente engajados, ignoram completamente a questão.

Zendaya faz o possível dentro desses limites. Sua Emma é construída em torno de uma contenção calculada, de uma serenidade que pode ser tanto autêntica quanto a mais sofisticada das máscaras. A atriz utiliza sua presença naturalmente magnética, aquela qualidade que a tornou uma estrela em “Euphoria” e “Duna”, como um instrumento de ambiguidade: nunca sabemos se estamos diante de uma pessoa genuinamente curada ou de uma sociopata que aprendeu a passar por humana. É uma performance inteligente, mas que deixa a sensação de que havia mais camadas a serem exploradas, mais contradições a serem habitadas.

Se Emma é o centro gravitacional em torno do qual o filme orbita, é Charlie quem fornece sua energia cinética. E Robert Pattinson oferece uma das performances mais bacanas de sua carreira. O colapso progressivo e silencioso, sem explosões melodramáticas. Seu desmoronamento é silencioso, racional, metódico, uma tentativa desesperada de usar a inteligência e a articulação verbal como barreiras contra a dissolução iminente.

Observe-se, por exemplo, a cena em que Charlie confronta Emma sobre o segredo, já no apartamento deles, após o jantar. O diálogo é desenvolvido como uma série de perguntas aparentemente racionais: “Como você sabia que não faria de novo?”, “O que te impediu de tentar novamente?”, “Você acha que alguém que planeja algo assim pode simplesmente… parar?”. Mas Pattinson insere entre essas perguntas pausas que duram milissegundos a mais que o normal, pequenos desvios de olhar que sugerem que sua mente está processando não apenas o que Emma diz, mas uma realidade paralela em que ela é uma assassina em potencial e ele, seu próximo alvo.

MAIS SPOILERS!!!! A cena em que Charlie assedia sua assistente no museu, Misha (Hailey Benton Gates), mostra toda a desintegração de Charlie. A cena recusa qualquer romantização. Charlie é patético e ameaçador na mesma medida, e Pattinson não busca a simpatia do espectador.

Gosto muito dos amigos,Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie), que são mais do que coadjuvantes funcionais; eles representam, em sua própria dinâmica de casal, um contraponto e um espelho para Charlie e Emma. Rachel, interpretada com a inteligência cômica afiada que Alana Haim demonstrou em “Licorice Pizza”, é o elemento de “realidade” no grupo, a amiga que, horrorizada com a revelação, tenta processar o que ouviu em termos práticos: “Você tinha armas em casa?”, “Seus pais sabiam?”, “Como você pode estar tão calma sobre isso?”.

Mike, por sua vez, é a figura do intelectual liberal que tenta transformar o horror em abstração filosoficamente digerível. Suas intervenções: “mas ela era uma criança”, “o que importa é quem ela é agora”, “todos nós já tivemos pensamentos sombrios” são tão previsíveis quanto vazias, e Athie interpreta essa vazio com uma precisão que beira a sátira. Ele é o amigo que quer parecer compreensivo, mas que dorme com as luzes acesas depois do jantar (confesso que me reconheci nele).

A dinâmica entre os quatro é um microcosmo da sátira de classe. São jovens profissionais bem-sucedidos cujas vidas confortáveis são subitamente invadidas por algo que seus protocolos sociais não estão equipados para processar. Os rituais de classe estão todos presentes: o jantar regado a vinho natural, as conversas sobre gentrificação e privilégio branco, o horror mal disfarçado diante de algo que não pode ser enquadrado como uma opinião política ou um gosto estético duvidoso.

O filme satiriza em algum ponto as racionalizações confortáveis com que a classe média se protege de sua própria cumplicidade com sistemas de violência.

A sequência do casamento é tragicômica e é onde Zendaya e Pattinson brilham. O clímax acontece enquanto a farsa se desenrola. O ensaio da primeira dança com o professor ridiculamente severo, a descoberta de que o DJ está fumando heroína na rua, os convidados que sussurram sobre o segredo que, inevitavelmente, vazou.

O problema é que o final do filme é super indeciso. Enquanto a tensão e a loucura se instalam, tudo parece para um inevitável niilismo narrativo, mas o diretor parece se acovardar e escolhe oferecer redenção e respiro ao espectador. É como se Tom Cruise aparecesse e desativasse a bomba-relógio armada na festa. Ainda não decidi, de fato, se gostei ou não. Eu torci por Emma e sua felicidade, mas as questões subentendidas do filme parecem ser deixadas de lado.

A ideia de fundir a comédia de casamento de Hollywood com o tema do massacre escolar é, em si mesma, uma declaração de intenções, mas o filme parece indeciso se quer ser ofensivo, quer incomodar, quer testar os limites do que pode ser tratado como humor negro ou oferecer redenção milagrosa que alise a consciência do público.

Ao fim, questões como a ansiedade pré-casamento, a negociação de segredos em relacionamentos íntimos, a impossibilidade de escapar do próprio passado, a forma como as narrativas que construímos sobre nós mesmos são simultaneamente necessárias e frágeis estão todas postas de forma competente.

“O Drama” mais acerta do que erra. A hesitação final pode incomodarn,mas não é uma traição completa à proposta do filme,embora reste a sensação de que o filme poderia ter sido ainda mais do que é.

Para quem busca cinema que incomode, que provoque, que recuse o conforto narrativo em favor da exploração de zonas cinzentas, “The Drama” oferece muito. É um filme que ficará na cabeça por dias, que suscitará discussões e que dividirá opiniões, e isso, em uma era de cinema pasteurizado, já é uma conquista.

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Última atualização em: 17 de maio de 2026 às 11:23

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