O primeiro “Zootopia” (2016) ganhou a simpatia do público de todas as idades como uma fábula social afiada, embalada em uma investigação policial ágil e sustentada pela química imediata entre uma lebre otimista e uma raposa cínica. Seu sucesso foi estrondoso. Ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão e fez somente no mercado doméstico (EUA/Canadá) US$ 341,3 milhões, impulsionado por uma grande força na bilheteria após a estreia. Então era óbvio que uma continuação viria, e até que demorou.
“Zootopia 2” precisava resolver o dilema da obra que fecha bem em si mesma, mas precisa se reinventar para render dinheiro aos donos do estúdio, como sempre foi em Hollywood. Bom, acontece que o filme consegue expandir seu universo, adicionando uma dose considerável de complexidade temática e novos personagens tão carismáticos quanto os de seu antecessor.
Após se tornarem heróis da cidade, Os detetives Judy Hopps e Nick Wilde se encontram na trilha sinuosa de um réptil misterioso que vira de cabeça para baixo a metrópole de mamíferos, Zootopia.
É satisfatório ver que os produtores não se restringiram a apenas repetir o que deu certo antes. A dinâmica entre os dois não apenas se mantém viva, como evolui de forma orgânica e comovente. Não estamos mais diante de uma dupla improvável em formação, mas de parceiros consolidados que enfrentam a próxima prova de fogo: a burocracia e a acomodação. O conflito central – a possibilidade real de serem separados para diferentes setores da polícia – é brilhante. Ele não nega o crescimento do primeiro filme, mas o tensiona, afirmando que a verdadeira amizade, especialmente entre personalidades tão opostas, é um projeto ativo e contínuo, não um “felizes para sempre” estático. Ginnifer Goodwin e Jason Bateman entregam performances vocais cheias de nuances, capturando a familiaridade carinhosa e as frustrações silenciosas de uma parceria madura. O mesmo acontece na dublagem brasileira Monica Iozzi (Judy Hopps) e Rodrigo Lombardi (Nick Wilde).

O filme transcende sua essência de “fábula policial” mais localizada e abraça uma conspiração de escopo gigante, remontando à fundação de Zootopia, envolvendo uma espécie inteiramente nova e marginalizada: os répteis. A ideia é potente. A metáfora de um grupo sistematicamente apagado da história, vivendo em um subterrâneo literal e metafórico, é um comentário social ousado e relevante. As crianças podem não pegar inteiramente essa parte do texto, mas isso é compensado com a inserção de inúmeros personagens cativantes.
Sim, há um certo “inchaço” narrativo para cobrir tudo que é explorado, mas “Zootopia 2” consegue se desvencilhar do possível cansaço com passagens hilárias de ação bem coreografada. Funciona como um thriller de conspiração histórica e também como um comentário sobre revisionismo e reparação enquanto desenrola a maturidade dos protagonistas em busca de suas individualidades e caminhos alternativos à carreira policial.
O vilão e sua motivação, em particular, surgem de uma necessidade mais caricata e menos engajante do que a memorável Bellwether, antagonista anterior.
A direção de arte e a animação são, como esperado, deslumbrantes. Os “Distritos Úmidos”, o habitat dos répteis, são uma maravilha de design. No entanto, essa expansão técnica espelha a expansão narrativa: há mais para ver, mas nem tudo contribui para um impacto emocional coeso. Os momentos mais poderosos do filme não estão nas revelações conspiratórias ou nas cenas de ação super competentes, mas nas pequenas pausas entre Judy e Nick – um silêncio compartilhado no carro-patrulha, um debate exasperado sobre metodologia. É quando o filme para de tentar salvar Zootopia e se concentra em salvar a parceria que ele realmente brilha.
A animação, é claro, continua espetacular. Zootopia ganha novas camadas, com sequências em distritos subaquáticos e bibliotecas ancestrais que são verdadeiros festivais de criatividade e detalhe. A cena em um “Clube de Gelo” gerado por ursos polares é um destaque de direção de arte.
O epílogo, um momento doce e íntimo entre os protagonistas, é um alívio necessário. É um retorno tácito ao coração da franquia. Mas também funciona como uma confissão involuntária: após duas horas de trama grandiosa, a conclusão mais satisfatória é um momento de quietude entre dois amigos. O filme é mais sagaz quando explora esse atrito profissional e pessoal, afirmando que a força de sua amizade reside justamente nessa fricção produtiva. As cenas entre eles mantêm a inteligência afiada e o coração do original.
“Zootopia 2” é triunfo no desenvolvimento de personagens e um exercício de narrativa fluído e agradável. Ele honra Judy e Nick de uma forma que poucas sequências ousam, tratando seu vínculo com a seriedade que merece.
