“O Telefone Preto” (2021) seguiu a fórmula dos filmes de terror contemporâneos, fugindo dos sustos fáceis e trazendo drama e metáforas como peso narrativo enquanto o terror existe como charme extra durante a jornada. O diretor Scott Derrickson e o roteirista C. Robert Cargill, que acertaram bastante em filmes como “A Entidade”, demonstram verdadeiro apreço por explorar outras nuances do gênero. Seguir
os personagens em seus caminhos de amadurecimento traz o charme para a franquia, inclusive na sequência, que acaba de chegar aos cinemas brasileiros.
Refinando a abordagem do filme anterior, Derrickson tenta fugir da repetição e acerta na saída que dá para o retorno do serial killer. “Telefone Preto 2″ acompanha um Finn adolescente (Mason Thames) lidando com as sequelas de seu encontro violento com o Sequestrador (Ethan Hawke). Isolado e sem amigos, o jovem extravasa seu medo incontrolável por meio da agressividade, enquanto sua irmã Gwen (Madeleine McGraw) vê seu dom psíquico se intensificar — suas visões agora a atormentam com frequência cada vez maior.
A atmosfera sobrenatural explorada no primeiro filme ganha protagonismo e a dupla de criadores a utiliza como alicerce para desenvolver a narrativa dos dois irmãos. O que testemunhamos é um mergulho nas influências deixadas pela franquia “A Hora do Pesadelo”, com os sonhos sendo um personagem crucial no desenvolvimento do vilão e também das vítimas. Ao descobrir que um acampamento presente em seus sonhos tem ligação com o passado de sua mãe, Finn e Gwen partem para investigar. Lá, são assombrados não apenas por novos fantasmas infantis, mas também pelo temível Sequestrador — que, mesmo morto, retorna como uma assombração.

Embora flerte com diversos clichês do gênero, o filme evita cair na armadilha de simplesmente reproduzi-los. Personagens como os interesses românticos dos protagonistas, o suspeito dono do acampamento (Demián Bichir) e os administradores cristãos do local ganham relevância inesperada. O grupo, que em um slasher comum seria eliminado um a um, aqui se une como uma frente de resistência contra o espírito maligno do Sequestrador. É um alívio que um filme envolvendo um serial killer não traga na bagagem personagens agindo de forma estúpida. É possível torcer sem remorso pelos protagonistas e seus coadjuvantes.
Sai de cena a ameaça física e as limitações de um assassino humano e entra as infinitas possibilidades de uma entidade que ganha poder se alimentando do medo dentro do sonho das pessoas (sim, os poderes do personagem são similares aos de Freddy Krueger). Só que o Sequestrador não copia a acidez e o tom humorístico da criação de Wes Craven, sendo um catalisador para explorar os traumas da sobrevivente de suas vítimas
Há poucos sustos aqui. O diretor escolhe abolir quase completamente o recurso de jumpscare. As filmagens em Super 8 e o design de som remetentes a 1982 fazem as vezes para o clima soturno e o crescente sentimento de o perigo se aproxima. Essa ambientação sombria realça o aspecto de thriller sobrenatural e compensa a menor ênfase no terror puro. A presença do Sequestrador — apenas com sua máscara e voz alterada — já é suficientemente aterradora.
Quando anunciaram que “Telefone Preto” ganharia uma sequência, me veio o pesar de refletir novamente sobre a insaciabilidade de Hollywood por sequências desnecessárias, mas nesta experiência específica, houve um esforço honesto dos realizadores para fazer valer à pena. A expansão da mitologia do primeiro filme, com foco na personagem da irmã paranormal, mantém o interesse na projeção.
O ponto baixo, e na verdade bem baixo porque quase me tira do filme, é a sutileza inexistente na exploração de simbolismos cristãos como acessório da personagem de McGraw. O que a princípio poderia ser uma característica entre outras importantes, não só resvala, como abraça o proselitismo religioso de forma irritante. Não é como se houvesse tentativa de reescrever a relação de um personagem assombrado pelo mal com sua fé. Soa mais como um trecho de filme evangélico no meio de um filme de terror.
O trecho final, passado sobre um lago congelado, nos traz aquela velha e boa sensação de perigo. Todos os envolvidos na resistência do temido assassino terão na resolução desse problema uma redenção para suas vidas. O envolvimento pessoal se torna complexo justamente por ser mais do que apenas seguir vivo, mas ter uma vida digna de viver.
O resultado de “Telefone Preto 2” é satisfatório, ainda que não reinvente a roda do gênero ou da própria franquia.
