Eu não esperava muito de um novo filme da franquia “Todo Mundo em Pânico”, e eles nunca deram razão para isso. Os primeiros dois filmes da franquia foram febre na época da escola, quando passaram na Tela Quente e foram hilários para um adolescente de 14 anos fã de filmes de terror, mas a cada revisita, como qualquer piada, iam piorando significativamente, assim como suas sequências e as outras paródias posteriores como “A Liga da Injustiça”, “Os Espartalhões” e por aí vai.
Lançado nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, “Todo Mundo em Pânico” (sem o “6” no título, como o estúdio faz questão de frisar na cabine de imprensa) chega com uma proposta que já foi genial nos anos 2000: rir dos maiores sucessos do terror. O problema é que alguns dos alvos já nem estão mais no hype, como é o caso de “Corra!”, lançado em 2017 ou “A Corrente do Mal”, de 2014. Então, o desafio do filme era superar o atraso com o que passou e aproveitar as referências recentes e o próprio limite do humor estabelecido pela franquia.
Eu quis desesperadamente rir durante toda a projeção do filme e tive uma boa vontade que os Wayans não merecem há muito tempo. Mas não rolou.
O roteiro, assinado por cinco nomes, quatro irmãos Wayans e o parceiro Rick Alvarez, tenta tirar o atraso mirando em vários alvos, como “Halloween” (2018), “Ma” (2019) e, curiosamente, “John Wick” (2014). Sim, John Wick: um filme de ação, não terror, que aqui entra como tentativa de expandir o escopo da paródia. O resultado é uma colcha de retalhos referencial que parece menos um filme e mais um “melhores momentos” do YouTube de 2019. Vai fazer muito sucesso no Tik Tok posteriormente, mas como filme em si é muitas vezes deprimente, parecendo mais um encontro de velhos amigos, embora há de se reconhecer que vez ou outra há lampejos do que poderia ser algo parecido com boa ideia.
Falando de tiradas que funcionam, há uma passagem em que o longa satiriza o último filme da saga Premonição que é engraçada. Claro, como característico dos Wayans, a piada se estende por tempo demais, mas ainda assim tem seu valor. Há outro momento em que brincam com o filme de terror mais premiado da década,”Pecadores”, em que a falta de sutileza desperdiça a boa ideia, com um dos personagens tendo de desenhar piadas que por si só já são óbvias, envolvendo a questionável orientação sexual de Ray (Shawn Wayans). Ainda sobre “Pecadores”, há um trecho descartável de reencenação da cena musical dos vampiros irlandeses.

A inserção de personagens consagrados vai agradar os fãs da franquia. Por exemplo, a química entre Brenda (Regina Hall) e Cindy (Anna Faris) segue funcionando, com destaque para o carisma de Hall, que parece ter envelhecido dois minutos nos últimos vinte anos.
O diretor Michael Tiddes, colaborador de longa data dos Wayans, repete o mesmo estilo de comédia capenga e orgulhosamente sem vergonha de ser tosca. E, para o público dessa franquia, isso pode ser exatamente o que se pede. Há uma virtude na previsibilidade: você sabe o que vai ver, assim como eu sabia quando entrei na sessão. Só que a gente também espera que haja alguma boa vontade dos realizadores de evoluírem como escritores e os Wayans não mudaram quase nada em quase trinta anos em sua forma de escrever comédia. As piadas de pau e vagina seguem presentes, assim como a caricatura do cara chapado 24 horas por dia. E tudo bem, eles até tentam embalar isso em tiradas de sarro com a geração Z.
Se eu disse antes que os Wayans não mudaram quase nada, podemos deixar neste campo do quase uma coisa que chama atenção: as piadas politizadas se tornaram mais presentes. Há críticas tanto a dificuldade de pessoas mais velhas aceitarem o diferente quanto a afetação dos mais jovens tentando militar em toda e qualquer oportunidade sem nenhum tino de comunicação. Talvez seja reflexo do fato de Marlon Wayans ter um filho trans.
Em alguns momentos da sessão, eu me senti bem ansioso pelo momento em que poderia gargalhar, mas nunca chegou. O trecho final é o melhor momento, com os personagens mais velhos exercitando metalinguagem consciente, tentando explorar o ridículo que é ter um filme tentando se atualizar para as novas gerações. Mas se saber ridículo não impede que o filme seja ridículo. Não é assim que funciona quando falta criatividade no roteiro.
“Todo Mundo em Pânico” (2027) é exatamente o que promete: nada mais, nada menos. E talvez isso seja ao mesmo tempo sua maior força e sua condenação. Para quem só quer ver cenas famosas recriadas de forma torta, a diversão está garantida. Para quem esperava uma sátira que dialogasse com o agora de forma mais ácida, fica a sensação de que o filme chegou atrasado na própria festa.
Em alguns momentos, o filme cumpre o contrário do que uma comédia deveria e chega a roubar a alegria, mas quem sou eu para ditar o que os Wayans devem fazer? Afinal, a família se tornou influente no mundo do entretenimento fazendo exatamente isso aí. Um punhado de ideias desconexas que vez ou outra acertam, mas nunca entregam o que poderiam.
