Quando a última cena de “Wicked” se encerrou com Cynthia Erivo performando de maneira magistral a épica canção “Defying Gravity”, era possível saber que estávamos presenciando uma deixa fenomenal que seria difícil de ser superada pelo que viria.
A promessa era épica: dividir o icônico musical “Wicked” em duas partes cinematográficas para, supostamente, aprofundar personagens e expandir o mundo de Oz com o esplendor que o cinema permite. A Parte 1 (2024), com seu universo visual deslumbrante e a química eletrizante entre Cynthia Erivo e Ariana Grande, cumpriu a meta e deixou o público em suspense. Agora, Parte 2 chegou às telas não como uma conclusão triunfante, mas como a materialização de um temor comum na era das franquias fragmentadas: um produto que é mais extensão artificial do que narrativa necessária. Quer dizer, muita coisa funciona, mas menos do que poderia.
O maior pecado de “Wicked – Parte 2” não está em sua execução técnica, que é brilhante, mas em sua espinha dorsal raquítica. O filme herda, com fidelidade quase autossabotadora, os problemas estruturais do segundo ato do musical original: um enredo que funciona mais como corre-corre entre pontos de plot conhecidos do que como uma jornada orgânica.
Fiyero (Jonathan Bailey) segue sendo uma figura carismática. Bailey empresta muito charme ao personagem que catalisa o triângulo amoroso entre as duas protagonistas Elphaba (Cynthia Erivo) e Glinda (Ariana Grande). A cena em que o amor do soldado finalmente é declarado para a Bruxa Má do Oeste exala uma química palpável e na sessão especial realizada em São Paulo, o público respondeu com gritos e aplausos efusivos.
A saga de afastamento definitivo de Elphaba e Glinda, a aceitação de seus destinos e o desenvolvimento final de suas personas são entregues com um ritmo que não permite a respiração ou a imersão necessárias, mas que são salvos pelas atuações magníficas de Erivo e Grande.

Há uma passagem no filme que resume a decadência de como se trata o clímax em relação ao filme anterior. Quando o famoso tornado destrói a cidade e mata uma importante personagem, não há peso narrativo construído para que o público possa sentir a perda. Há uma grandeza prometida que não se cumpre. Em defesa do filme, os fãs sabiam que a segunda parte tendia a ser, como na peça, menos interessante.
Jeff Goldblum oferece um charme muito peculiar ao Mágico Oz, enquanto Michelle Yeoh segue sendo uma presença imponente como Madame Morrible.
Talvez o personagem que mais sofra com a falta de um desenvolvimento mais bem explorado seja o Boq de Ethan Slater. Nos momentos em que aparece em tela, o ator dá um show e o arco oferecido a ele é muito rico. Se os cortes tivessem dado mais tempo de tela a ele e não aos pés de Dorothy tentando encontrar a estrada de tijolos amarelos, teria sido uma boa pedida.
“Wicked – Parte 2” é visual e tecnicamente deslumbrante. A direção de arte de Jon M. Chu continua sendo um banquete visual. Os figurinos são obras-primas de cor e textura, o Palácio de Oz brilha com um dourado opressivo, e a paleta que separa os mundos de Glinda (brancos gelados e brilhantes) e Elphaba (verdes sombrios e terrosos) permanece inteligente. As atuações também são colossais. Erivo e Grande carregam o filme nos ombros, transmitindo uma profundidade emocional que o roteiro frequentemente nega a elas. Cada olhar trocado, cada nota cantada com ferocidade ou dor, é um lembrete do filme poderoso que poderia ter sido.
De certa forma, é justamente esse contraste que condena a Parte 2 à irregularidade. O espetáculo visual e as performances servem como um desvio de atenção, um brilho ofuscante para disfarçar o fato de que estamos assistindo a um ato final alongado além de sua capacidade narrativa. A lógica do estúdio – criar dois “filmes-evento” a partir de uma história única – venceu a lógica dramática. O resultado é uma sequência que se move em “modo automático”, confiando que o afeto construído pela primeira parte será combustível suficiente para uma jornada que, sozinha, não encontra sua própria razão de existir.
“Wicked: Parte 2” é uma experiência frustrante. É um filme para fãs que desejam ver o desfecho visualizado e que certamente sairão emocionados pelos momentos-chave e pelas performances. No entanto, como obra cinematográfica autônoma e como conclusão de uma promessa épica, ele falha. É a prova viva de que fragmentar uma narrativa nem sempre significa aprofundá-la; às vezes, significa apenas diluí-la. A magia, tão cuidadosamente tecida na primeira parte, aqui se dissipa no ar, não por falta de talento em sua produção, mas por estar presa a uma estrutura que prioriza o “evento” sobre a coesão, o espetáculo sobre a substância.
