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“Educar para as relações étnico-raciais não significa dividir crianças, mas sim ensinar respeito”: Um papo com a Pretinha Educadora

Tatiane Santos

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Há nomes que carregam histórias. O nome escolhido por Tatiane Santos para reverberar sua mensagem nasceu do afeto, da comunidade e de um gesto político de ressignificação. “O nome Pretinha Educadora surgiu de forma muito orgânica, a partir da forma como eu sempre fui chamada na minha comunidade e nas redes sociais. A palavra ‘pretinha’, que muitas vezes foi usada historicamente de forma diminutiva ou até pejorativa, eu ressignifiquei como um lugar de potência, de identidade e de pertencimento”, conta Tatiane logo no início da conversa.

Quando decidiu unir o afeto à profissão, ela deixou claro o propósito de afirmar que corpos negros também ocupam o lugar da produção de conhecimento, da formação e da liderança pedagógica. O nome virou uma marca de seu trabalho, o de educar com identidade, com consciência racial e com compromisso com uma infância mais justa.

“Minha trajetória pessoal está profundamente ligada à minha escolha pela pedagogia. Ser uma mulher negra que passou pela escola pública e depois se tornou educadora me fez perceber, desde cedo, como a escola pode tanto reproduzir desigualdades quanto transformá-las.”

Foi na maternidade, no entanto, que o chamado se tornou urgente. Tatiane revela que a possibilidade de seu filho não encontrar referências com as quais se identificasse a angustiou. “Foi nesse momento que intensifiquei meus estudos sobre educação antirracista e comecei a compreender que meu papel como educadora também era abrir caminhos para que outras crianças negras se reconhecessem como potentes.”

"Educar para as relações étnico-raciais não significa dividir crianças, mas sim ensinar respeito": Um papo com a Pretinha Educadora

Hoje, como coordenadora pedagógica na rede pública de São Paulo, Pretinha Educadora enfrenta diariamente os desafios de implementar uma educação antirracista na primeira infância. E o primeiro deles, alerta, é derrubar um mito ainda persistente. “Um dos maiores desafios é romper com a ideia de que crianças pequenas não percebem o racismo”, afirma. “Elas percebem, sim, e desde muito cedo. O que muitas vezes falta é a intencionalidade pedagógica para lidar com essas questões.”

Há também a armadilha da “pedagogia do evento”, como ela denomina. “Outro desafio é sair da lógica da ‘pedagogia do evento’, quando a escola só fala de cultura negra em datas específicas, como o mês de novembro”, critica. “Educação para as relações étnico-raciais precisa estar presente no currículo, nos materiais, nas histórias, nos brinquedos, nas imagens e nas práticas cotidianas.”

“Também existe um desafio formativo: muitos educadores não tiveram acesso a esse debate durante sua formação inicial.”

Mas afinal, como falar de um tema tão complexo com crianças pequenas sem perder a leveza que a infância exige? Para Pretinha, a resposta está na experiência, não no discurso. “Na educação Infantil, o caminho principal é o da experiência”, ensina. “Trabalhamos muito com literatura infantil, brincadeiras, imagens, músicas, narrativas e representações positivas da diversidade. Não é uma conversa pesada, é uma construção de repertório.”

Indo na direção do que já foi bastante explicado, Tatiane reforça que crianças não brancas precisam ver seu tom de pele em todos os cantos, inclusive em suas experiências lúdicas. explica na prática: O mundo é diverso e a criança precisa navegar num mundo que reflita essa diversidade. “A ludicidade continua sendo central. O que muda é a intencionalidade do adulto”, pontua Pretinha Educadora.

Essa intencionalidade, no entanto, esbarra muitas vezes no medo e na insegurança dos próprios educadores. Para Pretinha, o caminho é estudar e desmistificar. “O primeiro passo é estudar. O medo muitas vezes vem da falta de repertório. Quando o educador começa a ler, pesquisar e dialogar com outros profissionais, ele percebe que esse trabalho não é algo distante, mas parte da própria prática pedagógica”.

E vai além: “Outro ponto importante é entender que educar para as relações étnico-raciais não é um favor para crianças negras. É um direito de todas as crianças. Quando o educador compreende isso, o tema deixa de ser um ‘assunto difícil’ e passa a ser parte do compromisso ético da educação.”

Podemos lembrar do caso recente em que um pai policial intimidou professores que estavam falando sobre cultura afro-brasileira em uma escola. A sociedade ainda está confusa sobre como lidar com essas demandas, às vezes até agressiva. “Explicamos que educar para as relações étnico-raciais não significa dividir crianças, mas sim ensinar respeito, história e diversidade.”

Para Tatiane, em situações em que o embate aparece, o caminho é sempre o diálogo pedagógico, mostrando que esse trabalho está previsto em leis educacionais brasileiras e faz parte de uma educação democrática. Para a educadora, quando as famílias entendem que o objetivo é formar crianças mais conscientes e respeitosas, a parceria geralmente se fortalece.

Paralelamente ao trabalho na escola, Pretinha Educadora  se dedica à literatura infantil como ferramenta de transformação. Em livros como “O Sonho de Dandara” e “Super Black”, ela coloca crianças negras no centro da narrativa, oferecendo para crianças negras deste geração aquilo que faltou na própria infância. “Quando uma criança negra se vê como protagonista de uma história, ela percebe que sua identidade também é digna de ser narrada, celebrada e valorizada. A mensagem principal é que elas são potentes, inteligentes, criativas e capazes de sonhar alto. A literatura infantil pode ser um espaço de construção de autoestima e de pertencimento.”

Essa preocupação com a representatividade também guia sua atuação como curadora de obras literárias. Tatiane observa alguns critérios importantes como quem escreveu a obra, como os personagens negros são representados, qual é a narrativa e se ela foge de estereótipos, tanto através da narrativa quanto das ilustrações. Segundo a educadora, uma curadoria visando a diversidade também precisa olhar com sensibilidade os contextos apresentados e se os personagens negros aparecem apenas em histórias de sofrimento ou também em histórias de alegria, imaginação e aventura.

“A literatura infantil precisa ampliar possibilidades, não reforçar limitações.”

Em 2023, seu trabalho ganhou um reconhecimento à altura: o Troféu Luiza Mahin, concedido pela Secretaria de Direitos Humanos. “Receber o Troféu Luiza Mahin foi um momento muito significativo na minha trajetória”, emociona-se. “É um reconhecimento que carrega um peso histórico e simbólico muito grande. Para mim, essa premiação representa não apenas uma conquista individual, mas também a visibilidade de um trabalho coletivo que muitos educadores negros vêm construindo há anos. É um lembrete de que nossa luta por uma educação antirracista é necessária e precisa continuar sendo fortalecida.”

Atualmente, Pretinha Educadora está desenvolvendo um novo livro chamado ‘Black e o seu Poder Invisível”, que dialoga com experiências da infância e também com questões relacionadas ao TDAH, trazendo uma narrativa sobre potência, identidade e formas diferentes de aprender e existir no mundo.

Ao final da conversa, Pretinha deixa claro que sua jornada é coletiva e que seu propósito segue inabalável: “E sigo com um propósito muito claro: formar cada vez mais educadores e educadoras, porque fortalecer a educação antirracista é fortalecer o futuro das nossas crianças.”

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Última atualização em: 16 de março de 2026 às 10:55

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