Companhia mais longeva em atividade no Brasil, o Teatro Oficina recebe, entre março e abril de 2026, uma programação especial que articula arte, pensamento crítico e luta política. Serão seis encontros gratuitos na sede do teatro, no Bixiga, em São Paulo, tendo como fio condutor o espetáculo-rito BORI, que esteve em cartaz entre 2023 e 2024 e ganha apresentação única no dia 12 de abril.
Com o título BORI: Luz Negra no Terreiro Eletrônico, inspirado no conceito da filósofa e artista Denise Ferreira da Silva de “pôr luz negra no mundo, fazer brilhar o que é opaco”, a série de conversas, leituras e ritos propõe uma reflexão sobre racismo, luta urbana, teatralidades pretas e culturas afrodiaspóricas em diálogo crítico com a biografia da própria companhia. “O Oficina tem 67 anos, é patrimônio da cultura brasileira, é fundamental que a gente olhe para o racismo estrutural que nos atravessa e atravessa as relações entre teatro e território”, defende Marília Piraju, idealizadora e co-diretora do espetáculo e uma das organizadoras do ciclo de debates.
Idealizado como um rito de oferenda à cabeça, o Ori, BORI estreou em 2023 e, desde então, vem sendo apresentado em datas simbólicas para a companhia. O espetáculo investiga as criações fundamentais de artistas pretos e nordestinos na construção da linguagem coral e ritual do Oficina, sobretudo a partir dos anos 1970, quando a volta do exílio de José Celso Martinez Corrêa e a chegada de migrantes do Nordeste radicalizaram ainda mais a pesquisa estética e política da Uzyna Uzona.
A montagem não entra em temporada, mas opera como catalisadora de discussões mais amplas. “Desta vez, tiramos o espetáculo como centro da iniciativa e colocamos o trabalho como disparador de diálogos com outras/os pensadoras/es, artistas e intelectuais que temos acompanhado desde os primeiros movimentos deste time em torno de BORI”, explica Marília Piraju.
A abertura da programação, no dia 14 de março, fica por conta do multiartista e historiador Salloma Salomão, que conduz a conversa “Teatralidades negras, interpretações corais”. Doutor em História pela PUC-SP, com mais de 40 anos de carreira e 10 álbuns lançados, Salloma é uma das referências nos estudos da cultura afro-brasileira e diaspórica.
No dia 12 de abril, o Oficina será palco da apresentação única de BORI, às 18h. O espetáculo reúne um coro de artistas pretos, nordestinos e caboclos que encarnam e presentificam as caravanas migratórias dos anos 1970 e 1980, ao mesmo tempo em que atualizam as perspectivas pretas no aqui e agora da companhia. A dramaturgia coral entrelaça tragédias coloniais com cantos de trabalho, partilha da comida, festa e a tecnologia política que o Oficina chama de “alegria como arma de desmassacre”.
SERVIÇO
BORI: Luz Negra no Terreiro Eletrônico
Ciclo de debates + apresentação única do espetáculo BORI
Local: Teat(r)o Oficina – Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo/SP
Todas as atividades são gratuitas
Classificação indicativa: espetáculo BORI, 16 anos; demais atividades, livre
PROGRAMAÇÃO COMPLETA
14/03 (sábado), 11h
Abertura com Salloma Salomão
Tema: Teatralidades negras, interpretações corais
21/03 (sábado), 11h
Aulão com castilho
r.ebó.lar – corpo como arquivo vivo
25/03 (quarta), 20h
Leitura encenada de O Poder Negro
Com Coletivo Legítima Defesa, seguida de conversa com William Santana Santos
28/03 (sábado), 11h
Conversa com Eduardo Neves e Luciana Araújo
Tema: A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação
11/04 (sábado), 11h
Conversa com Denise Ferreira da Silva
Tema: conferência Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito
12/04 (quinta), 18h
BORI – apresentação única do espetáculo-rito
