Os dois jovens que chegam para a entrevista tem a energia condizente com o trabalho mais recente que lançaram, o álbum “Deekapz FM”. Parecem ser locutores de uma rádio FM noventista. Paulo Vitor parece comandar um programa de início de tarde com muita música eletrônica.Fala desinibida, levemente acelerada e cheio de informação. Matheus Henrique é bem mais tímido e econômico nas palavras, tal qual um radialista de sessão de soul do fim de noite. Ambos se completam no estilo e formam o Deekapz, duo de DJs que há mais de dez anos se consolidou como sinônimo de música boa e produção musical caprichada.
Com seu mais recente trabalho, “Deekapz FM”, pensado como uma estação de rádio independente, construída a partir de sonoridades e referências que transportam o duo direto para os anos 90 e 2000, eles reuniram parte dos grandes músicos que aprenderam a serem entusiastas de seu trabalho. Funk, Pop, Soul, R&B, Rap e House recebe colaborações de Fat Family, Tuyo, Luccas Carlos, Criolo, Urias, DJ Marky, Nill, Gab Ferreira, Mauí, Makoto, Kaike, Bibi Caetano, Maffalda, Clara Lima, Nego Bala e Jamés Ventura.
“Esse trabalho, a gente elencou pensando na relação que tivemos durante esses 11 anos de carreira. A gente teve a oportunidade de encontrar esses artistas que fazem parte do nosso disco. Então, Fat Family, a gente teve a oportunidade, por conta da banda Tuyo, que inclusive, a gente já tinha colaborado junto com o Baco Exu do Blues. Luccas Carlos, a gente já tinha colaborado, mas não tinha saído nenhuma faixa oficialmente, e assim fomos juntando, como se fosse uma mesa de jantar familiar, trazendo o conceito de memória afetiva, união. Realmente queríamos trazer o clima de antigamente, se juntar com pessoas conhecidas e ligar o rádio para ouvir junto”, conta Paulo Vitor.
“Eu acredito que o respeito que conquistamos para conseguir juntar essa galera vai muito do jeito que a gente chega e troca com as pessoas. Vai muito da convivência também e das conexões que a gente gosta de fazer e também a sorte de todas essas pessoas terem ido com a nossa cara”, acrescenta Matheus.

Com 14 faixas, o álbum revela a versatilidade da dupla como artistas completos, indo além do papel de produtores, beatmakers e pesquisadores musicais: “A gente quis criar algo que fosse nosso, mas que também representasse o coletivo – como se cada faixa fosse uma antena diferente captando e transmitindo histórias. A ideia da rádio independente vem disso, da ocupação criativa, da autonomia, da liberdade de circular com nosso próprio sinal”, explicam eles.
Segundo Matheus, a dupla está ciente que o que rolava nas FMs nos anos 1990 já não é mais o padrão de hoje e isso pouco importa porque não é a lógica de mercado que os guia a fazer música. “Esse disco começou a tomar forma há três anos atrás. Então, foi uma caminhada para a gente conseguir chegar nesse momento. Seguimos convictos daquilo que a gente quer, que é lançar nossa música, lançar o disco do jeito que a gente acha que tem que ser”, conta.
O conceito de “Deekapz FM” é de ser um acompanhante para a rotina da pessoa. As faixas passam como parceiras de um dia comum. “Se você for dissecando o disco, indo de faixa a faixa, vai sentir o iniciar do dia, conforme passa, vai entardecendo. Quando chega na faixa ‘Riscos’, a cantora Bibi Caetano começa a levar o ouvinte para uma parada mais pista, mais eletrônica, que é aquele clima, né, de você estar saindo do trabalho”, explica Paulo Vitor.

Quem olha esses dois jovens pretos com o ímpeto de quem pegou o primeiro vinil ontem, nem imagina que já são consolidados como um dos nomes mais influentes da cena alternativa e eletrônica no Brasil.
“Viemos do interior, já tivemos muitos percalços. Por não termos vindo da capital, muita gente pessoal não deu espaço para mostrarmos nosso talento. Então, é muito gratificante, hoje , ter o voto de confiança de tanta gente”, aponta Paulo.
A timidez de um e a expansividade do outro se integram na simbiose musical. Além da parte técnica, a amizade de Paulo e Matheus são parte da receita para chegarem onde estão. “Desde o começo, sempre teve essa química meio engraçada, porque às vezes eu penso em uma coisa, mas sou tímido e antes de eu falar, acabava que o Paulo parecia que ele estava lendo a minha mente e teve a mesma ideia. Então é uma parceria que dá muito certo”, conta Matheus.
“Desde quando a gente se conheceu, os gostos, as referências, eram muito parecidos. Tinha coisas diferentes, mas acho que, no geral, reconhecemos os sinais um do outro”, completa Paulo.
“O álbum chega como síntese e recomeço. Um marco que celebra o legado de uma década ao mesmo tempo em que aponta para novas possibilidades de som e linguagem: “Esse disco carrega toda a estrada que percorremos até aqui. Tem muito do que a gente viveu nesses 10 anos e também do que a gente imagina para o futuro. É como se fosse a trilha sonora de um movimento”, afirma o Deekapz.
