Em Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros, obra de estreia de Cidinha da Silva na editora Relicário, a autora reúne dezesseis ensaios impactantes nos quais investiga as tensões, armadilhas e insurgências que marcam a experiência de escritoras negras no mercado editorial. O livro integra a Coleção Nos.Otras, voltada para a publicação de prosa de não ficção com o melhor do pensamento crítico de mulheres latino-americanas, e sua estrutura é tecida a partir de três fios condutores: o casulo, a lagarta e a borboleta. Esses elementos correspondem, respectivamente, ao cerceamento da liberdade criativa, à exigência constante de que escritoras negras justifiquem e expliquem o que escrevem em vez de terem suas escolhas estéticas e técnicas discutidas, e à ira organizada que se converte em enfrentamento político e literário.
No primeiro fio, o casulo, a autora aborda a tendência de circunstanciar as autoras negras num lugar eterno de educadoras e responsáveis pelos letramentos, evidenciando como o meio literário se acostumou aos privilégios gerados pela subalternização histórica das pessoas negras. O segundo fio, a lagarta, descreve as armadilhas criadas para forçar escritoras negras a detalhar e justificar o conteúdo de sua obra, em vez de debater questões fundamentais como a técnica, as influências estéticas, as águas simbólicas que nutrem sua escrita e os horizontes que almejam alcançar. Já o terceiro fio, a borboleta, representa a insurgência movida pela ira contra os lugares predeterminados a essas autoras no mercado editorial, denunciando as cotas atravessadas pelo racismo que elegem uma ou duas escritoras como “bola da vez”, enquanto colegas brancas desfrutam de presença reiterada em eventos literários e outros espaços de visibilidade.

Cidinha da Silva também desconstrói a narrativa biográfica que costuma ser imposta a mulheres atuantes na cena pública, sobretudo aquela baseada nos valores cristãos de abnegação e sacrifício, que exalta a dedicação a causas humanitárias e à maternagem como elementos essenciais à inscrição feminina no mundo. Essa narrativa, segundo a autora, funciona como uma forma de domesticação, amputando das mulheres o direito à insurgência, à ira e ao revide – um alerta já feito por pensadoras como Audre Lorde, Saidiya Hartman, Buchi Emecheta, Carolina Maria de Jesus e Marilene Felinto. Para Cidinha, o lugar da fala – seja escrito ou vocalizado – é uma arena pública e um campo fundamental de construção de imaginários, anterior mesmo à disputa de narrativas. O livro, argumenta ela, não deve ser tratado como um refúgio íntimo ou um diário juvenil, como tentam impor às mulheres que escrevem, mas sim como o espaço daquilo que se deseja tornar público, podendo a intimidade ser incluída ou não.
Entre convites indignos, políticas de representatividade limitadoras e expectativas que confinam escritoras negras ao papel de eternas educadoras da branquitude, Borboletas furiosas desnuda os mecanismos sutis e explícitos de controle e silenciamento. Cidinha da Silva confronta abertamente o mercado editorial e a sociedade literária brasileira, recusando o lugar estreito que historicamente se destina às mulheres negras. O futuro, afirma a autora, não é a promessa abstrata da inclusão, mas sim as asas abertas das mulheres negras que ousam escrever, criar e insurgir. No ensaio de abertura, “Armadilhas da representatividade”, ela adverte que, embora a reivindicação por representatividade seja uma das mais potentes demandas políticas do século XXI, é preciso discutir as armadilhas forjadas por procedimentos que barateiam esse entendimento em favor de práticas coloniais arraigadas.
O livro será lançado em uma turnê de eventos no Rio de Janeiro durante os meses de abril e maio, com passagens também por Belo Horizonte, São Paulo e Porto Alegre. A relevância da obra já vem sendo atestada por vozes importantes da crítica: para Marília Kodik, da Marie Claire, quando Cidinha da Silva empunha a palavra, o mundo se desnuda de máscaras e armaduras, e toda hierarquia se dissolve sob sua escrita inexorável. Já Tom Farias, na Folha de S.Paulo, destaca que a autora não apenas é uma mestra em contar histórias – sobretudo nos gêneros do conto e da crônica – como também uma grande conhecedora das relações raciais e uma aguerrida ativista literária negra, cuja obra premiada pauta essa temática de maneira precisa, histórica e pedagógica.
