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Coleção inédita de livros de bolso contará as histórias de cardeais do samba paulista

A publicação da Dandara Editora incluirá episódios da vida de pilares do samba, como Madrinha Eunice, Nenê de Vila Matilde, Carlão do Peruche, Inocêncio Tobias e Pé Rachado, para preservação da memória e celebração de suas contribuições para a cultura popular
Coleção inédita de livros de bolso contará as histórias de cardeais do samba paulista

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Na segunda (18), será lançada coleção Cardeais do Samba Paulista, publicada pela Editora Dandara que, em cinco volumes, narra histórias da vida de Inocêncio Tobias, Pé Rachado, Madrinha Eunice, Nenê de Vila Matilde e Carlão do Peruche, figuras consideradas pilares do samba paulistano. E, a partir desse mesmo dia, o conteúdo também estará disponível no site da Iniciativa Negra.

No formato de livros de bolso, a coletânea situa as trajetórias desses artistas no contexto histórico da formação das escolas de samba, fato histórico que conferiu a eles o título de “cardeais”, homenagem simbólica por seu papel central na organização, preservação e transmissão de tradições culturais dentro das comunidades do samba.

Coleção Cardeais do Samba Paulista 
As escolas de samba em São Paulo são herdeiras dos primeiros cordões carnavalescos que emergiram no início do século XX, nos chamados “territórios negros” da cidade, zonas de rica cultura africana delineadas por experiências compartilhadas e laços comunitários profundos. Eram alguns bairros centrais com características de baixada, como Barra Funda, Bixiga e Glicério, na Liberdade, e posteriormente regiões das zonas norte e leste, como Parque Peruche, Penha e Vila Matilde. Esses territórios se transformaram com a mediação das agremiações carnavalescas em núcleos de prática e vivência, onde afrodescendentes reafirmaram suas identidades culturais em um espaço urbano intrinsecamente desigual.

No final da década de 1960, houve um movimento de articulação dos futuros “cardeais”, o que deu às lideranças das escolas de samba condições de participar do processo de oficialização do festejo na cidade, mediando as relações entre as escolas de samba e o poder público.

Lideranças negras, como Seu Carlão, Pé Rachado, Seu Nenê de Vila Matilde, Inocêncio Tobias e Madrinha Eunice, receberam o título ao representar suas escolas mas além disso, por levantarem bandeiras que, historicamente, o movimento negro iria defender, de maneira mais veemente, apenas no final da década de 1970. Esses sambistas tinham o objetivo de lutar não apenas pela igualdade racial, mas também por uma sociedade fundamentalmente igualitária. Com esse movimento, cumpriram um importante papel de aglutinador popular dentro dos bairros periféricos da cidade.

Coleção inédita de livros de bolso contará as histórias de cardeais do samba paulista


Pé Rachado, o Cardeal Mandingueiro
Sebastião Eduardo do Amaral, mais conhecido como Pé Rachado, presidente negro do cordão Vai-Vai, foi um dos sambistas mais notáveis da história do samba negro da cidade de São Paulo. Sua história foi retratada na coleção pela jornalista e escritora Claudia Alexandre. Pé Rachado se desvencilhou do apelido quando deixou a roça e conseguiu ser padeiro, seu sonho. Pé rachado representava a gente preta que labutava nas roças de café no interior paulista. Homens, mulheres e crianças dormiam nas senzalas, sofriam as violências da escravidão e pisavam o chão de terra com os pés descalços, machucados. Eram proibidos de vestir ou até possuir sapatos, para dificultar tentativas de fuga. Só quem era livre podia calçar os pés. Sebastião quis sua liberdade e conseguiu ser padeiro, na cidade grande, São Paulo. Em terras paulistanas, manteve seu espírito de fé e crença nos ancestrais, participando de procissões e festas católicas e em manifestações como congadas e moçambiques, de onde recebeu sua herança mandingueira.

Madrinha Eunice

Deolinda Madre foi a precursora e inaugurou a praxe de cuidado com a comunidade a partir de um território negro dentro de uma cidade de exclusão racial. Antes de ser conhecida como Madrinha Eunice, viveu as festas com o calor e a paixão que lhe eram naturais em tudo que se propunha a fazer. Circulou entre Piracicaba e o Samba de Umbigada, as festas de Bom Jesus de Pirapora e o Samba de Bumbo. Na cidade de São Paulo, era frequentadora assídua das festas religiosas. Mas também gostava de fazer excursões para Santos e Rio de Janeiro sempre atuando de forma a construir um intercâmbio cultural.

Madrinha Eunice não tinha filhos, mas criou várias crianças e entendeu a comunidade como sua família. Para que os direitos dessa comunidade fossem respeitados, se tornou um corpo político. Para a escritora e pesquisadora Lyllian Bragança, o livro narra a história de uma mulher que aprendeu com os mais velhos e que abriu caminho para que o carnaval seja o que é hoje, um espetáculo.

Carlão do Peruche – um cardeal da Rua Zilda ao infinito
Carlos Alberto Caetano, o Carlão do Peruche, foi o mais longevo dos sambistas e dos cardeais em São Paulo. Foi o último deles e viveu 94 anos, quase todos dedicados ao carnaval. Nasceu em 1930, no bairro da Barra Funda, um dos principais territórios negros da cidade na primeira metade do século XX. Na Barra Funda que foi fundado, por Dionísio Barbosa, o Grupo Carnavalesco Barra Funda, o primeiro cordão carnavalesco da cidade, considerado o marco inicial do carnaval negro da capital, onde Seu Carlão assistiu seu primeiro desfile, ainda nos braços da mãe. Antes do final da adolescência, frequentava com grande desenvoltura os três territórios negros da cidade: Barra Funda, Bixiga e Baixada do Glicério, na região da rua Lavapés. Como engraxate na Praça da Sé, aos 13 anos, Seu Carlão aprendeu a batucar, conheceu o telecoteco e os ritmos dos cordões, chamado de marcha- sambada. Durante dez anos foi ritmista na Lavapés, escola de samba da Madrinha Eunice, principal liderança feminina do carnaval de São Paulo, mas depois, seguiu solo e participou ativamente da fundação da Unidos do Peruche. Bruno Sanches Baronetti é o pesquisador e escritor das memórias de Seu Carlão na coletânea.

Seu Inocêncio Tobias – o elo forte do carnaval paulistano
Em 1953, no bairro da Barra Funda, oeste da cidade, território fundamental para a memória negra paulistana, sob a liderança de Inocêncio Tobias, surgiu o Cordão Mocidade Camisa Verde e Branco, dando continuidade ao legado do grupo carnavalesco Barra Funda. Figura central na história do samba paulistano, Seu Inocêncio Tobias é reconhecido como um dos grandes responsáveis pela organização e oficialização do carnaval em São Paulo. Com sua visão estratégica e profundo envolvimento nas comunidades, ele foi peça chave na formação da União das Escolas de Samba Paulistanas (Uesp), consolidando um modelo de desfile que até hoje influencia a festa. Sua liderança firme, mas sempre dialogada, fez dele uma referência entre sambistas, dirigentes e poder público, na luta para que o samba conquistasse seu espaço legítimo nos calendários oficiais da cidade. A história de Seu Inocêncio Tobias foi registrada pelo sociólogo e pesquisador Tadeu Kaçula.

Nenê de Vila Matilde
Alberto Alves da Silva é o Seu Nenê de Vila Matilde. A inteligência e o talento do sambista da zona leste de São Paulo modificaram seu entorno, a história do bairro, da região e do samba. Notadamente conhecido pela contribuição social, Seu Nenê foi um griot que impactou o tempo e a história da cidade. Tiaraju Pablo D’Andrea é professor e escritor da história de Seu Nenê nesta série de publicações.



Lançamento
O evento de lançamento da Coleção Cardeais do Samba Paulista será no dia 18 de maio, às 19h, na Fábrica do Samba – Espaço Cultural. Haverá depoimentos dos autores da coleção Bruno Sanches Baronetti, Tadeu Kaçula, Claudia Alexandre, Lyllian Bragança e Tiaraju Pablo D’Andrea, além de uma apresentação da Mocidade Unida da Mooca (MUM), com o enredo do Carnaval 2027: “Modupé, Cardeais!, terminando com roda de samba da Madrinha Eunice.

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Última atualização em: 12 de maio de 2026 às 10:13

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