A escritora, ilustradora e cineasta franco-iraniana Marjane Satrapi, autora da aclamada graphic novel Persépolis, faleceu aos 56 anos. A informação foi confirmada pela família na quarta-feira (4), em comunicado à imprensa internacional. Satrapi morreu pouco mais de um ano após a morte de seu marido, o produtor e cineasta sueco Mattias Ripa, ocorrida em abril de 2025. A família diz que ela “morreu de tristeza”.
Reconhecida mundialmente por transformar sua própria trajetória em uma poderosa narrativa sobre repressão, exílio e liberdade, Satrapi consolidou-se como uma das vozes mais influentes da cultura contemporânea, especialmente no que diz respeito ao Irã, aos direitos das mulheres e à defesa da democracia.
Nascida em 1969 em Rasht e criada em Teerã, Satrapi viveu na infância e adolescência um dos períodos mais turbulentos da história iraniana, testemunhando a Revolução Islâmica de 1979 e a ascensão do regime dos aiatolás. Essas experiências deram origem a Persépolis, publicada entre 2000 e 2003. Em formato de história em quadrinhos, com traço preto e branco inconfundível, a obra mescla memórias pessoais e eventos históricos para retratar a repressão política, as restrições às mulheres e as transformações da sociedade iraniana.
Traduzida para dezenas de idiomas, Persépolis conquistou leitores no mundo inteiro e tornou-se referência tanto na literatura quanto nos quadrinhos, aproximando o público ocidental de uma realidade frequentemente retratada de forma estereotipada.


Em 2007, Satrapi co-dirigiu a animação Persépolis ao lado de Vincent Paronnaud. O filme recebeu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes e foi indicado ao Oscar de Melhor Animação, consolidando sua relevância artística internacional.
Além dessa obra, Satrapi também ganhou reconhecimento com Bordados (Embroideries) e Frango com Ameixas (Chicken with Plums), marcados por crítica social, humor ácido e reflexões sobre a condição humana. Como cineasta, dirigiu Radioactive, cinebiografia de Marie Curie, entre outros projetos de cunho histórico e social.
Mesmo vivendo na França desde 1994 e naturalizada francesa em 2006, Satrapi nunca deixou de acompanhar o Irã. Tornou-se uma das principais vozes críticas ao regime iraniano e defensora intransigente dos direitos das mulheres.
Nos últimos anos, apoiou ativamente os protestos desencadeados após a morte de Mahsa Amini, em 2022. Em 2024, organizou e publicou a obra coletiva Woman, Life, Freedom (“Mulher, Vida, Liberdade”), inspirada no movimento popular. Em 2025, recusou receber a Legião de Honra da França em protesto contra a política francesa em relação ao Irã.
Ao longo da carreira, Satrapi acumulou prêmios literários, cinematográficos e artísticos. Em 2024, recebeu o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades. A comoção por sua morte foi imediata: o presidente da França, Emmanuel Macron, lamentou a perda e destacou a importância de sua obra para a compreensão do mundo contemporâneo.
Mais do que escritora ou cineasta, Marjane Satrapi construiu uma ponte entre culturas. Sua obra deu visibilidade às histórias de mulheres que enfrentam opressão, censura e violência. Com sua partida, a literatura, os quadrinhos e o cinema perdem uma de suas vozes mais influentes. Seu legado, porém, permanece vivo — nas páginas de Persépolis e em cada leitor que encontra em sua narrativa um testemunho inabalável sobre identidade, liberdade e resistência.
