Por Kelly Marques
O Brasil é tão conectado ao forró que tem um dia dedicado ao estilo. Em 13 de dezembro, o Brasil celebra o nascimento de Luiz Gonzaga, um dos maiores expoentes do gênero, o Dia Nacional do Forró. Em 2025, a comunidade forrozeira comemora quatro anos do Registro das Matrizes Tradicionais do Forró pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) como Patrimônio Cultural e Imaterial Brasileiro.
Presente em festas, palcos e celebrações por todo o país, o forró carrega histórias, memórias e identidades que atravessam gerações, porém quando se reflete sobre o panorama do gênero, nomes como Jackson do Pandeiro, Dominguinhos e Luiz Gonzaga são mais frequentemente lembrados, em detrimento às vozes femininas, tão importantes quanto para a expansão do forró no Brasil e no mundo. Neste sentido, a escolha por reunir 10 discos de mulheres é uma forma de ampliar o olhar sobre o Forró.
Estamos em 2026 e as mulheres seguem submetidas a diferentes formas de violência e silenciamento, o forró é substrato social deste cenário, pois trata-se de uma manifestação cultural viva que carrega marcas do tempo, das relações e das disputas.
Escutar esses discos é um exercício de reconhecimento das mulheres que sempre estiveram ali e aqui, cantando, compondo, tocando e sustentando o gênero, tornando-o diverso e plural. Esta lista é um convite para expandir repertórios e se aproximar do forró a partir das vozes femininas que construíram (e continuam construindo) essa história.
1. Anastácia
Disco: Anastácia 80: Lado A (2020)
No ano em que a Rainha do Forró celebrou 80 anos de idade e mais de 60 anos dedicados ao forró pé-de-serra, ela lança este disco icônico com participações de nomes importantes da música brasileira, como Roberta Miranda, Amelinha, Chico César, Mestrinho e Hermeto Pascoal. Destaco o dueto de Anastácia com Amelinha na canção O sertão está chorando, composição de Anastácia com Zeca Baleiro, que também assina a produção do álbum.
2. As Januárias
Disco: Forró Misturado (2024)
O trio é formado pelas gêmeas Mayra e Mayara Barbosa da Silva e pela violonista Sidclea Marques e tem obtido destaque nacional por suas interpretações de clássicos do forró e canções autorais com divisão de vozes impecáveis e fora do senso comum. Neste EP vale realçar a canção Patrulha de Choque do Rei do Baião, com a participação da dupla forrozeira Socorro & Mazé.
3. Bicho de Pé
Disco: Que seja (2008)
A banda Bicho de Pé surge em 1998, época em que o forró ficou conhecido no Sudeste como Forró Universitário, tem vocal marcante de Janayna Pereira, também compositora da maioria das canções apresentadas dos discos do grupo paulistano, hoje atuando em carreira solo. Esse é o segundo CD da banda, dentre as participações, destaca-se Dominguinhos e Caju e Castanha. Uma das canções mais ouvidas e bonitas, intitulada Que seja (Janayna Pereira e Potiguara Menezes).
4. Carmélia Alves
Disco: Correndo o Norte (1969)
A carioca Carmélia Alves, nascida em 1925 teve contato com a música nordestina desde pequena, pois os pais, cearenses, sempre organizavam festas de repentistas. No começo da carreira interpretava sambas, em 1949 grava ao lado de Ivon Curi o seu primeiro baião, ‘Me Leva’. Deste então Carmélia Alves se tornou uma das maiores divulgadoras do baião no Sudeste, recebendo de Luiz Gonzaga, o título de Rainha do Baião. Neste álbum dou ênfase à canção Lavandeira, de João Silva e Anatalício, outro ponto a destacar é que este disco foi lançado pela gravadora Cantagalo, de Pedro Sertanejo, importante divulgador da música nordestina em São Paulo.
5. Clemilda
Disco: Coqueiro da Bahia (1980)
A cantora e compositora alagoana Clemilda tornou-se bastante conhecida por interpretar músicas do chamado “Forró de duplo sentido”, também explorado por Genival Lacerda e Zenilton. O mais famoso, lançado em 1985, é Prenda o Tadeu. Porém Clemilda colocou sua voz aguda e potente em cocos, toadas e arrasta-pés. Neste disco destaco o arrasta-pé (ou marchinha) Coqueiro da Bahia, de Vavá Machado e Marcolino, cuja sanfona foi gravada pelo saudoso Caçulinha.
6. Elba Ramalho
Disco: Cordas, Gonzaga e afins (2015)
Álbum e DVD gravado ao vivo com Elba Ramalho e os grupos pernambucanos SaGRAMA e Quarteto de Cordas Encore. O disco traz releituras de obras do cancioneiro nordestino em formato de concerto. Destaque para a interpretação emocionante de Elba para Ave Maria Sertaneja, composição de Júlio Ricardo e Osvaldo de Oliveira e eternizada na voz do Rei do Baião.
7. Lucy Alves & Clã Brasil
Disco: No forró de Seu Rosil
A multi-instrumentista, produtora musical, cantora, compositora e atriz paraibana Lucy Alves tornou-se conhecida no Brasil depois da sua participação no Programa The Voice, em 2013, de lá pra cá, atuou em diversas novelas brasileiras, em grande parte levando no peito a sanfona e a musicalidade nordestina. Lucy é uma artista completa que permeia por diversos gêneros, mas tem raízes profundas no forró. O Clã Brasil um grupo formado por sete integrantes da mesma família, dentre eles as irmãs Lucy, Laryssa e Lizete Alves. Este disco, lançado em 2015, é uma homenagem ao centenário do compositor Rosil Cavalcante. Vale a pena ouvir do começo ao fim.
8. Márcia Fellipe
Disco: Forró e Mulher (2025)
Álbum e DVD gravado ao vivo reúne um time feminino de peso: Taty Girl, Walkyria Santos, Eliane, Mara Pavanelly, Galícia Cruz, Samyra, Samyra Show, Yara Tchê e Fernandinha. É uma celebração feminina com 23 releituras de sucesso como: “Tudo ou Nada”, “Me Usa”, “Diga sim Pra Mim”, “Não Vou Voltar” e “Brilho da Lua”. Marcia Fellipe celebra o sucesso do disco e diz que: “Forró e Mulher é a realização de um sonho antigo: dar voz, vez e destaque às mulheres que fazem história no nosso forró.” Sugiro colocar pra tocar bem alto em um churrasco de família num domingo de sol, certamente todo mundo vai cantar e dançar estes clássicos.
9. Marinês
Disco: Na peneira do amor (1971)
Gilberto Gil define Marinês como “a grande mãe da música nordestina”, sua voz única começa ecoar no Nordeste principalmente nos anos 1950, conhecida como a “Rainha do Xaxado”, tem um compromisso com as raízes do Nordeste que marca a alma do brasileiro. Abriu portas para que muitas outras mulheres pudessem também se expressar através do forró, a música foi sua expressão de liberdade. Deste disco vale o destaque para sua interpretação da canção Eu vi sim, composição de Anastácia e Dominguinhos.
10. Solange Almeida
Disco: Sol João das Estrelas (2025)
Projeto audiovisual de Solange Almeida conta com participações de mestres do forró tradicional: Jorge de Altinho, Alcymar Monteiro, Petrúcio Amorim, Nando Cordel e Dorgival Dantas. Destaco as canções Você endoideceu meu coração e É gostoso demais, ambas de Nando Cordel. Solange é uma das pioneiras em quebrar o estereótipo da indústria musical, especialmente no forró, que ditava regras de rígidas de aparência de artistas mulheres, mostrando que talento vai além de corpo e rosto bonitos.
