Nascido em 26 de junho de 1942, Gilberto Gil é um dos nomes mais influentes e ativos da música brasileira. Um dos fundadores do movimento Tropicália ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa, Tom Zé e Maria Bethânia, o artista acumula uma trajetória de mais de seis décadas com discos essenciais como “Expresso 2222”, “Refazenda”, “Realce” e “Um Banda Um”.
Além da música, Gilberto Gil teve atuação marcante como ministro da Cultura (2003–2008), onde promoveu políticas de democratização cultural e software livre. Ainda hoje, segue compondo, lançando trabalhos inéditos e se apresentando, mantendo-se como voz ativa e inquieta da cultura brasileira.
Sua obra permanece como um diálogo constante com o Brasil – suas tradições, contradições e futuros possíveis. Ouvi-lo é reencontrar a história do país através de uma das suas mais inventivas e generosas expressões artísticas.
Selecionamos 10 canções que representam a pluralidade e a genialidade de sua obra:
Ele falava nisso todo dia – Gilberto Gil (1968)
Já “cronicando” a vida, como seria uma de suas marcas em diversas canções, Gil narra a vida de um jovem rapaz preocupado com as cobranças em relação a ter condições dignas de vida para si e a família. No entanto, como muitos trabalhadores, o personagem da música morre antes de conseguir aquilo que tanto almejava. Uma canção sobre como pode ser sem sentido e trágica a vida de um homem comum.
Cérebro Eletrônico – Gilberto Gil (1969)
Se hoje a inteligência artificial gera temor em quem tem acompanhado suas maravilhas e bizarrices, Gil já fazia um contraponto reflexivo ao avanço da tecnologia. “O cérebro eletrônico faz tudo/ Quase tudo/ (…) Mas ele não anda/ Só eu posso pensar/ Se deus existe, só eu/ Só eu posso chorar quando estou triste”, dispara o cantor. Ainda muito atual.
Meu glorioso São Cristovão – Gil e Jorge (1975
Um disco pouco ouvido e conhecido até mesmo por entusiastas dos dois artistas. Em sessões de improviso, os dois deuses da canção se juntaram para conceber verdadeiros mantras, a exemplo desta canção.
Refazenda – Refazenda (1977)
Criada a partir e um neologismo de Gilberto Gil, “Refazenda” se tornou um dos maiores sucessos do cantor e compositor baiano. Na canção cheia de imagens que evocam uma aproximação com a natureza, o artista também ensaia uma volta à Tropicália. Uma canção para fluir junto com tudo que há de natural ao nosso redor.
Super-Homem: A Canção – Realce (1979)
O fim dos anos70 e início dos 80 marcou um período de muito sucesso para Gil, tanto com a crítica quanto comercial. “Realce” é de seus álbuns mais bem-sucedidos e nele se encontra essa pérola. Intrigado com o entusiasmo de Caetano Veloso ao assistir “Super-Homem: O Filme”, em que o herói invulnerável parece extremamente sensibilizado com Lois Lane, sua paixão terráquea. O diálogo intermídia gerou essa magnífica composição.
Sonho Molhado – Luar (1981)
“Luar” trouxe clássicos como ‘Palco’ e ‘Se eu quiser falar com Deus’. O disco é irrepreensível da primeira até a última faixa, mas ‘Sonho Molhado’ traz bastante do que resume o trabalho. Um namoro harmônico de forró, reggae, funk, disco e pop, enquanto o cantor fala sobre voltar a sentir a água da chuva como metáfora para viver intensamente enquanto Dominguinhos o acompanha na sanfona.
Drão – Um Banda Um (1982)
Uma das músicas mais lindas já escritas sobre divórcio, “Drão” é uma homenagem à Sandra, mãe de três filhos do cantor. Nada de mágoa e ódio. Aqui, o fim é um trampolim para que o amor se transforme em outra forma de afeto positivo. O amor morre para o carinho e admiração ficarem mais fortes. Ao menos pelo ponto de vista do cantor.
A Linha e o Linho – Extra (1983)
“É a sua vida que eu quero bordar na minha/ Como se eu fosse o pano e você fosse a linha”, abrem os versos de ‘A Linha e o Linho’, quarta faixa de “Extra”. Sensibilidade até o último nervo, Gil nunca esteve tão apaixonado.
Pessoa Nefasta – Raça Humana (1984)
“Reza/Chama pelo teu guia/Ganha fé, sai a pé, vai até a Bahia/Cai aos pés do Senhor do Bonfim/Dobra/Teus joelhos cem vezes/Faz as pazes com os deuses/Carrega contigo uma figa de puro marfim”, aconselha Gil na canção que namora com a sonoridade pop rock oitentista. Toda a letra pode ser interpretada como forma de “homenagem” a certos políticos brasileiros e seus defensores.
Three Little Birds – ‘Kaya N’Gan Daya (2002)
A relação de Gil com o reggae é mais que conhecida. Na verdade, ele foi o maior responsável pela popularização dogçenero no Brasil, regravando ‘No Woman, No Cry’, que virou “Não Chores Mais” e depois gravou “Vamos Fugir” acompanhado do lendário grupo “The Wailers”. Em ‘Kaya N’Gan Daya’, o musicista chamou nomes como Samuel Rosa, Paralamas do Sucesso e I-Three para darem nova roupagem aos clássicos do Rei do Reggae. “Three Little Birds” ganhou até viodeoclipe animado.
Menções honrosas
“Aquele Abraço” (1969) – Hino de despedida antes do exílio, tornou-se símbolo de afeto e resistência.
“Expresso 2222” (1972) – Faixa-título do álbum que marcou seu retorno ao Brasil após o exílio.
“Andar com Fé” (1982) – Um dos grandes clássicos de sua fase espiritual e sincretista.
“Toda Menina Baiana” (1979) – Celebração das raízes baianas com arranjo contagiantemente alegre.
“Realce” (1979) – Experimentação com música disco e soul, mostrando sua versatilidade.
“Palco” (1982) – Reflexão sobre a vida artística e a relação com o público.
“Sítio do Pica-Pau Amarelo” (com Caetano Veloso, 1994) – Releitura afetuosa do tema da série infantil.
“Tempo Rei” (1984) – Reflexão filosófica sobre o tempo, com letra atemporal.
