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A poesia e a música intimista da cena paulistana traduzida na delicadeza triste de Grisa

A poesia e a música intimista da cena mineira traduzida na delicadeza triste de Grisa

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O álbum “Amor Trespasse” tem uma abertura sensível, delicada e dolorida. A faixa “Ainda Assim” dá o tom do diário musical composto pela cantora Grisa. A artista, também artesã de instrumentos musicais, pratica artesanato poético intimista enquanto compartilha com o ouvinte seus medos e esperanças.

O álbum chegou às plataformas musicais pelo selo midsummer madness e tem produção da própria compositora e de Gil Mosolino (Applegate, Bike).

Em processo de mudança de casa, o novo trabalho parece um retrato de um passado recente. Grisa parece mais animada do que deixou transparecer na nova safra de canções. Ela contou ao Pretessências sobre a trajetória do álbum.

“Eu ouço muita coisa brasileira, mas também muita coisa de fora. Só que eu sempre estou muito ligada a artistas que mexem com timbres de formas diferentes. Por exemplo, o post-rock, o folk porque tem essa coisa minimalista, onde o sentimento nas letras e na sonoridade transborda nas músicas”, conta a cantora.

Na mesma descrição, Grisa cita Fábio de Carvalho, músico e pesquisador de cinema que integra a cena de Belo Horizonte, citando mais uma vez como elo de ligação para gostar, as letras. “Eu o ouço desde o primeiro álbum dele, que se chama ‘Tudo em Vão’ (2016). Meu Deus, as letras… Sabe quando alguém consegue dizer algo muito importante? Eu senti aquilo só de ouvir. E tem vários outros amigos meus que também são influências, como o Yuri Costa, do Rio, que tem uma abordagem parecida”.

Nesse álbum, não pensei muito nos timbres antes. Tem uma faixa, Animais, que toquei no violão e num omnichord. Esse aqui é um dos meus instrumentos preferidos — nele você faz acordes no teclado como em um acordeon e passa a mão nessa touchplate que soa como uma harpa eletrônica. Também tem a cítara que construí, usei ela de um jeito não tradicional, só fazendo sons e puxando as cordas. Gravei em um take, sem regravar. Acho que tem muito dessa coisa do momentoGrisa

O álbum “Amor Trespasse” tem uma abertura sensível, delicada e dolorida
Foto: Arquivo pessoal

Esse apego com a poesia acaba ecoando no canto de Grisa. Há muita sinceridade no desabafo contido em seu trabalho. Me prometa que nossos laços continuarão iguais amanhã/ Te perder por nos permitir sermos animais seria o maior erro”, entoa sem medo na delicada “Animais”.

“Eu sempre estou escrevendo muito. Essa noite, por exemplo, eu virei a noite escrevendo duas músicas em 10 minutos, porque eu só vou escrevendo tudo que tá passando na minha cabeça. Eu pego o violão e começo a tocar, e nem penso em acordes — penso no que aquele som tá me passando. E por isso acaba sendo bem minimalista, porque às vezes entro num ciclo de só dois ou três acordes, no máximo. Aquilo faz sentido com o que eu estou sentindo, e eu começo a cantar algo que acabei de escrever. Não é um pensamento tipo: ‘Ah, vou deixar minimalista para a letra aparecer’. É só o que eu tô sentindo saindo ali”, conta.

Embora quem se depare com a música de Grisa pela primeira vez, possa achar que ela precisa urgente de um abraço (embora todos nós precisamos), o momento pessoal é positivo e talvez mire em canções mais alegres no futuro. Eu acho que, nesse exato momento, eu tô muito bem. Ontem eu tava conversando com uma pessoa aqui de casa e percebi que faz muito tempo que não tenho crise de ansiedade. Agora eu estou muito feliz com como a vida tá fluindo. Tudo que eu estou fazendo parece um sonho — ver esses frutos acontecerem dá uma felicidade muito grande”.

O álbum “Amor Trespasse” tem uma abertura sensível, delicada e dolorida

Para evitar a ansiedade, ela evita pensar muito na hora de criar. Tudo vem em fluxo de consciência muito ágil. A maior parte das músicas foi composta sobre o que a compositora viveu no ano de 2024, morando em Juiz de Fora. “Eu sempre viajei muito, entre Juiz de Fora, Rio, São Paulo, e sentia muito essa instabilidade. Os sentimentos sempre se revirando. Tem músicas que foram muito desse momento, com crises de ansiedade, coisas complicadas. Tem essa coisa da desilusão com o amor… Mas agora eu estou bem, só que os sentimentos estão indo para outro lado”, revela.

Confira mais do papo com Grisa

Você é artesã de instrumentos musicais, né? Como começou essa história — essa intimidade com os instrumentos e a vontade de criar os seus próprios?

Eu fiz Unicamp em 2015, mas sempre estudei música. Lá, teve um ateliê para construir pedais de guitarra. Nesse workshop, comecei a mexer com circuitos e eletrônica. Sempre gostei muito de guitarras — pra mim, é o instrumento perfeito do universo. Depois, fui para a França fazer engenharia acústica, e todo mundo lá também era musicista. Participei de uma associação estudantil onde a gente construía caixas de som e equipamentos de áudio. Tinha um galpão enorme com ferramentas, e eu virei presidente da associação. Organizei ateliês para construir instrumentos — a primeira guitarra que fiz tá aqui. Depois, fiz um curso de luteria clássica e construí uma cítara medieval. Também trabalhei no Museu da Música em Paris e numa empresa de caixas de som, onde construí um teremim com uma amiga. Sempre tive espaços que me permitiam criar instrumentos como hobby.

Tem alguma sonoridade que você conseguiu incluir no álbum só porque criou um instrumento específico?

Nesse álbum, não pensei muito nos timbres antes. Tem uma faixa, *Animais*, que toquei no violão e num mini korg. Esse aqui é um dos meus instrumentos preferidos — parece um tecladinho, mas você faz acordes e passa a mão como uma harpa eletrônica. Usei ele de um jeito não tradicional, só fazendo sons e puxando as cordas. Gravei em um take, sem regravar. Acho que tem muito dessa coisa do momento.

Foi bem no fluxo da criatividade, né? Não foi algo que você ficou meses pensando…

Sim! E isso foi meio que a proposta do álbum — uma liberação pra mim. Antes dele, eu gravei outro álbum que foi o extremo oposto, super megalomaníaco: levei dois anos e meio em sua criação, com músicas com 200 pistas, timbres complexos, conceitos muito elaborados. Fiquei muito ansiosa no processo. Esse é o (Espelho ou Geografia de Lugar Nenhum) que lancei apenas em mídia física, por enquanto se alguém quiser comprar esse álbum tem que ir num show meu, ou em um dos pontos de venda (Mamãe Bar ou Descabeça Livros na Galeria Metrópole em São Paulo, no Calma Bar ou Trauma no Rio de Janeiro)

A mídia física captura coisas que a digital não captura — o conceito de álbum, a arte… Acho bem bacana.

Sim! As artes foram feitas por amigos — fotos do João Freddi e projeto gráfico da Ana Gouveia. É lindo segurar o CD na mão.  

Você já tocou o álbum ao vivo? Qual é a diferença?

No palco, fica mais elaborado. Tenho dois formatos de show: um com banda e outro só eu e o Henrique (da minha banda). Usamos texturas sonoras, sintetizadores, guitarra com arco de violino… As músicas do álbum que são só violão e voz ganham mais camadas no show.

Como é ser independente no mercado musical brasileiro hoje?

A cena independente é muito forte e colaborativa. Meus shows são cheios de amigos e artistas que fazem parte dessa movimentação. O selo que participo, midsummer madness, é uma verdadeira revolução desde os anos 89. A gente prioriza mídia física e coisas verdadeiras, fora da lógica dos algoritmos.

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Última atualização em: 1 de agosto de 2025 às 16:45

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