O Planet Hemp é uma das melhores bandas de rock que o Brasil já entregou. A banda que negou o mainstream e fez de sua carreira um manifesto pela legalização da maconha e fim da hedionda guerra às drogas, também se mostrou eficiente musicalmente em sua curta, mas coesa discografia. O som, intitulado pelo grupo como “Raprocknrollpsicodeliahardcoreragga”, pode ser apreciado em pedrada como Usuário (1995), Os Cães Ladram mas a Caravana Não Pára (1997), A Invasão do Sagaz Homem Fumaça (2000) e Jardineiros (2022). Essa história foi contada de maneira linear num show memorável no Allianz Parque, em São Paulo, no último sábado (15), como parte da turnê “A Última Ponta.
Antes mesmo de a banda subir ao palco, o público foi envolvido por uma linha do tempo visual exibida nos telões, que relembrou episódios históricos de repressão à cannabis, cenas de contracultura, a violência no Rio e a trajetória do Planet Hemp. Esse recurso se transformou em um “livro-show”, com capítulos dedicados a momentos marcantes, como a prisão dos integrantes em 1997 por suposta apologia às drogas, e uma emocionante homenagem a Skunk, membro fundador que faleceu em 1994.
As milhares de pessoas que compareceram ao estádio presenciaram faixas que são mais que representativas de como o rock pode ser poderoso e incisivo em suas mensagens.”Dig Dig Dig”, “Legalize Já”, “Mantenha o Respeito”, “Queimando Tudo” e “Stab” fizeram o público explodir sem concessões, enquanto faixas mais recentes, como “Jardineiro” e “Distopia” ganharam uma atenção mais concentrada, mas não dispersa.
As rodas de bate-cabeça e os sinalizadores de fumaça converteram o show num ritual de defensores da liberação da cannabis.

O BaianaSystem, um dos grupos mais aclamados da atual cena de música brasileira, abriu a noite com a energia pulsante já característica. E foi só o começo de uma noite que aglutinou as presenças de Pitty cantando “Admirável Chip Novo” e “Teto de Vidro”, Seu Jorge — ex-integrante da banda de apoio — emocionou com um solo de flauta doce e a icônica “Quem tem Seda?”, enquanto Emicida, Black Alien, João Gordo e DJ Zegon também marcaram presença, reforçando o o poder magnético de D2, BNegão e cia.
O tom de despedida não fez com que o Planet esquecesse o que marcou sua trajetória: seu discurso político. Se havia alguém de direita perdido por lá, deve ter ficado fora da casinha enquanto os membros da banda bradavam contra o fascismo e a intolerância. O grande final da turnê está marcado para 13 de dezembro, na Fundição Progresso, no Rio de Janeiro, encerrando uma jornada que influenciou gerações e deixou um legado inquestionável na música e no ativismo brasileiro.
