Construído a partir das vivências periféricas da zona leste de São Paulo, ‘A vida disse que é possível‘, da Chá da Tarde, reúne quatro faixas que atravessam temas como tempo, maturidade, afetos, solidão, amor próprio e recomeços – tudo a partir da perspectiva de jovens pretos que encontram na música um espaço de escuta, vulnerabilidade e afirmação. Produzido de forma independente por meio do Programa de Valorização a Iniciativas Culturais da Cidade de São Paulo, o trabalho consolida a formação atual da banda e aprofunda sua pesquisa artística e sonora, marcando, também, um posicionamento.
“Esse trabalho mostra que é possível fazer música na quebrada, composta, produzida e gravada a partir do nosso CEP; que é possível ser homem e se mostrar vulnerável, inseguro; que é possível amar, se amar e acreditar na vida”, afirmam os artistas Peu Morais (voz e direção criativa), Som (voz, violão e direção musical), Léo Prates (baixo, voz e produção musical), Jokaro (guitarra e direção musical) e Gabriel Kinder (bateria, voz e autor das poesias do EP).
Criado dentro do projeto CHAPASOM – Uma viagem sonora pela ZL, o EP nasce de um processo profundamente coletivo. Encontros semanais em estúdio deram forma a um método de criação compartilhado, no qual arranjos, letras e melodias foram construídos de maneira orgânica. Duas faixas surgiram de improvisos e fragmentos desenvolvidos em grupo; as demais já chegavam mais estruturadas, mas ganharam novos contornos a partir da escuta e da interpretação conjunta. “As músicas foram se criando naturalmente, com cada um trazendo suas ideias, até que tudo se transformasse em algo que fosse realmente de todos”.
A sonoridade do EP aposta na simplicidade como escolha estética. Guitarra, baixo, bateria, violão e vozes conduzem o repertório, com poucos elementos digitais, valorizando a veracidade do som e a proximidade com a experiência ao vivo. A intenção é que o que foi registrado em estúdio soe familiar no palco, preservando a naturalidade da execução e da interpretação. Em contraste com trabalhos anteriores mais expansivos, ‘A vida disse que é possível’ convida a uma escuta mais introspectiva, guiada pelo sentimento e por camadas sonoras mais sutis.
Entre as principais influências está o álbum Um Mar pra Cada Um, de Luedji Luna, citado pela banda como referência por sua intensidade emocional e pela forma como cada faixa se apresenta quase como um estado de espírito. “Esse EP também funciona assim: cada música carrega um sentimento, uma vivência, algo que atravessa a gente de forma muito pessoal”.
O projeto também se desdobra em uma série de registros audiovisuais gravados ao vivo, em takes contínuos, com direção criativa assinada pela própria banda.
