O desejo de criar, de se mover e de acreditar atravessa cada faixa de Afã e Fé, o álbum de estreia da carreira de Maurício Pazz, contemplado pelo Edital Petra Zuca. O disco chega como um registro que conecta ancestralidade, memória e musicalidades afro-diaspóricas, atravessando geografias e referências diversas.
Em Afã e Fé, o “afã” se revela como o impulso do fazer com presença, zelo e entrega. É nesse gesto que Maurício encontra o sentido do próprio ofício — um fazer musical que também é ato de devoção. A “fé”, por sua vez, se amplia para além das religiões e das doutrinas, alcançando o território do sensível: aquilo que se sente, mesmo quando não se vê. Nesse encontro entre o visível e o invisível, entre o físico e o metafísico, o artista busca um novo ponto de partida — um lugar onde o que foi marginalizado ocupa o centro, e o fazer artístico se torna também prática meditativa.
Como canta Gilberto Gil em “Graça Divina”: “A proteína da graça divina não está na doutrina, mas na meditação.” Assim, Afã e Fé é o exercício dessa graça: transformar o ato de criar em contemplação, e a música em ponte entre o corpo, o tempo e a transcendência.
O álbum nasceu em um período de transformações, em que a música se tornou um espaço de encontro, de experimentação e de diálogo coletivo. Cada faixa reflete influências que vão do Brasil a Cuba, Cabo Verde, Mali, Angola, Jamaica, Congo e tantas outras Áfricas possíveis. Como explica o artista, “esse é um disco que atravessa memórias, experiências e desejos de outrora e de agora, construindo e reinventando um espaço para se existir com plenitude e leveza.”

Em Afã e Fé, Maurício dialoga com a ancestralidade e com as referências que moldaram sua trajetória. O disco abre com “Negro Movimento” e “Sobrevoar”, faixas que se inspiram na força propulsora e transformadora dos movimentos negros, bem como no conceito de “pessoas negras em movimento”, e na importância da imaginação como ato político. “Quilombaque” celebra a luta por territórios culturais e comunitários, enquanto “Espiral da Memória” presta homenagem a mestres, artistas e ancestrais que inspiram sua música. Outros momentos, como “Para Bonga e Bogum” e “Primeiro de Janeiro”, dialogam com religiosidades de matriz africana, musicalidades do candomblé e a memória viva da diáspora.
Falando sobre o encontro entre artistas e a importância das redes de criação que possibilitam novas trocas e caminhos, Maurício reflete:
“Esse projeto da Petra Zuca é muito importante. Pensando, por exemplo, a figura da Marina Sena, uma artista com a grandeza dela, se for pensar o tipo de música que eu faço e o lugar que eu estava, em que encruzilhada haveria esse encontro? Então eu acho que esse edital é maravilhoso, porque ele convida a gente a trabalhar em rede e junto com as diferenças.”
A Casa da Música Brasileira, espaço que abriga o Edital Petra Zuca, é um projeto idealizado por Marina Sena e Talita Morais, com o objetivo de fortalecer a cena musical contemporânea e criar pontes entre artistas, público e marcas. Além de promover editais e experiências artísticas, a iniciativa funciona como um centro de criação, formação e celebração da música brasileira em todas as suas camadas — um território de encontros, descobertas e novas vozes.
Faixa a Faixa
1 – Negro Movimento / Sobrevoar
“Negro Movimento” propõe refletir sobre a força do movimento das pessoas negras — nos corpos, nas políticas e na imaginação — talvez até numa “imaginação radical negra”. “Sobrevoar”, composta no ensino médio e inspirada em sua mãe, celebra a coragem de ir além do que se quis alcançar. As duas faixas dialogam com o universo musical da África do Oeste e com desejos de outrora e de agora.
2 – Quilombaque
Inspirada no manifesto da comunidade cultural de Perus, que celebra quase 20 anos de existência, luta e festa, a faixa nasce como contribuição simbólica à campanha para manter o espaço vivo. Na letra, Maurício brinca com a palavra “manifesto”, criando trocas como “mina festa”, “mano festa”, “mona festa” — em celebração à força dos tambores, das diversidades e da manifestação cultural.
3 – Espiral da Memória
Dedicada a referências de ancestralidade como Mestre Ananias, Luiz Melodia, Itamar Assumpção e Pixinguinha, reflete a ideia de que se torna ancestral quem faz história. “Banzo bom, viola” expressa a tristeza boa de lembrar de quem deixou legado, mantendo viva a memória coletiva.
4 – Brincando de Orfeu / Lares, Mares e Manhãs
“Brincando de Orfeu” nasceu da lembrança de uma cena do filme Orfeu Negro, e é seguida por “Lares, Mares e Manhãs”, samba composto após um dia de encontros e surpresas. O refrão, influenciado pelos Racionais MC’s, mostra que tudo se conecta — o samba, o afeto e o cotidiano.
5 – Samba do MB
Composta por Walmir Gil como exercício de uma aula de improvisação, a faixa é uma celebração do aprendizado e da generosidade artística. Ao convidá-lo para o disco, Maurício descobriu que a música havia nascido justamente dessa troca.
6 – Criolo Sim, Doido Não
Homenagem a Gil e à aula que transformou o olhar de Maurício sobre a música. Uma lembrança de processos e afetos que moldaram o disco.
7 – Para Bonga e Bogum
Dedicada às religiões de matriz africana, especialmente às nações Jeje Mahi e ao terreiro do Bogum, a faixa também se inspira em Bessen e Oxumarê, conectando espiritualidade, ancestralidade e celebração.
8 – Sarau para Alforria
Primeiro lançamento do selo Atlântico Sul Music, foi composta em 2008 e se inspira no Choro Negro, de Paulinho da Viola. Transforma o lamento em recurso estético e celebra a liberdade e a memória musical negra.
9 – Gratitude
“Gratitude” oferece gratidão aos ouvintes e às energias que também escutam, transformando a escuta em rito de partilha. É uma celebração da atenção e da presença de quem se abre para ouvir.
10 – Ai, Ai Meu Bem
Com participação de Jota.pê, é uma cantiga para espantar a tristeza e convocar a força transformadora do amor. “A música também cura e renova”, diz Maurício.
11 – Primeiro de Janeiro
Composta na primeira viagem à Bahia, presta uma singela homenagem ao maestro Letieres Leite, que partiu durante a pandemia. Uma canção sobre laços, legados e memória viva.
12 – O Tao Digital
Composta em 13 de maio de 2020, durante o confinamento, reflete sobre o mundo digital e a potência das musicalidades negras periféricas. É um canto de leveza e celebração da liberdade, da espiritualidade e da conexão humana.
