O rapper e DJ estadunidense Afrika Bambaataa morreu ontem (9), aos 68 anos. Vítima de um câncer, o artista deixou um legado que transcende gerações e fronteiras, sendo amplamente reconhecido como um dos precursores do hip-hop e do rap. Mas poucos sabem que sua influência chegou de forma decisiva ao Brasil — e ajudou a moldar um dos ritmos mais populares do país.
Lançada em 1982, a faixa “Planet Rock” — parceria de Bambaataa com o grupo The Soulsonic Force — se tornou muito mais do que um clássico do electro hip-hop. A música, construída sobre samples de “Trans-Europe Express”, da banda alemã Kraftwerk, acabou se tornando a base rítmica para o surgimento de um gênero que hoje domina as pistas e as plataformas digitais no Brasil: o funk carioca.
A mistura entre a eletrônica do Kraftwerk, o groove do hip-hop e a batida do miami bass — subgênero do hip-hop eletrônico nascido na Flórida — foi absorvida por MCs brasileiros nas décadas de 1980 e 1990. Dessa fusão improvisada nos bailes das comunidades do Rio de Janeiro nasceu o funk carioca. E Afrika Bambaataa não apenas sabia disso como celebrava a conexão.
“Vejo minha música no funk carioca, definitivamente. É tudo parte do electro funk, é minha família. Aqui, são usados mais os ritmos mais próximos da África”, declarou o artista em entrevista ao jornal O Globo, em 2010, durante uma de suas passagens pelo país.
O reconhecimento e a passagem pelo Brasil
Muito orgulhoso de ter servido de inspiração para um movimento tão vigoroso, Bambaataa visitou o Brasil em diferentes ocasiões. Em 2008, fez uma apresentação gratuita na Virada Cultural de São Paulo, levando sua música e sua mensagem a um público massivo. Dois anos depois, em 2010, percorreu capitais brasileiras em uma pequena turnê que reforçou seus laços com o público nacional.
Em 2013, em entrevista à revista Rolling Stone, o rapper foi além da música e fez uma reflexão contundente sobre o papel social do funk carioca. “Precisamos de uma revolução no funk carioca. Precisamos falar do que está acontecendo na comunidade, em como sair dessa situação. Ainda dá para dançar, mas é preciso mandar a mensagem”, disparou, reafirmando seu compromisso com as periferias e com a música como ferramenta de transformação social.
Em 2016, Bambaataa consolidou ainda mais sua relação com o Brasil ao gravar uma parceria com a cantora Fernanda Abreu. A faixa “Tambor”, incluída no álbum “Amor Geral”, trouxe a cadência percussiva e a mensagem de resistência que sempre marcaram o trabalho do norte-americano. A música ganhou um clipe gravado no Rio de Janeiro, em cenários que exaltavam a cultura e a energia das comunidades cariocas.
