Por Jonatas Solano
Na última sexta-feira (27), o Espaço Unimed virou quase um confessionário coletivo. Não era só um show da turnê do álbum HASOS — foi um mergulho sem bóia nas nossas emoções, de um dos maiores letristas que o Brasil já pariu.
Baco recita letras em forma de música. E quando ele solta a voz, parece menos um cantor e mais um poeta inspirado, recitando verdades que doem bonito.
O clima não era de pular igual festival, era de degustar, tipo vinho caro, que você não vira de uma vez… você respeita cada gota. O repertório de HASOS carrega um emocional. Amor, vazio, ego, reconstrução. É o cara que já foi “o machão da quebrada” e agora tá tentando ser desconstruído, romântico e politizado da quebrada. E isso bate forte porque ele vai na contramão de tudo. Enquanto o mundo quer hit descartável, Baco entrega literatura. Ele é, sem medo de exagerar, um dos últimos românticos do caos moderno.

A casa tava daquele jeito que respeita o público: estrutura grande, palco imponente, sistema de bar funcionando redondo (vários caixas), espaço confortável pra circular. O rolê foi organizado, bonito, sem dor de cabeça. Aquela experiência que você curte sem ficar brigando com fila ou aperto.
Se tem uma coisa que é sagrada no show do Baco, é a palavra. E em alguns momentos, a voz poderia estar mais limpa, mais cristalina. Porque ali não é só música, é texto, é uma poesia falada. Teve hora que parecia que ele tava recitando um poema no meio de uma névoa sonora. Bonito, mas dava pra ser ainda mais impactante se cada palavra batesse seca no ouvido. Porque no universo do Baco, entender a letra não é detalhe, é o principal.
O público do Baco é apaixonado. Vive o artista. Quer levar ele pra casa. E aí ficou um ponto que poderiam pensar pros próximos: só tinha um backdrop na entrada pra foto. Amigas e amigos, lá era pra ser um parque de experiência. Imagina: cenários inspirados em cada faixa do álbum, elementos visuais com estética de matriz africana, espaços imersivos pra foto e vídeo. Cada canto virando conteúdo orgânico. As mina, os mano iam amassar, pirar nisso. E cada story postado ia virar divulgação gratuita. Hoje, evento sem cenário é dinheiro deixado na mesa. Isso aqui não é ideia, é necessidade cultural e “instagramável”.
Meus amigos, as músicas do Baco merecem virar livro. Um projeto gráfico pesado, bem pensado, com letras organizadas como poesia, interlúdios como textos reflexivos, direção artística no nível que ele já entrega na música. Porque o que ele escreve não pode ficar só no streaming. Isso é material de cabeceira. De estudo. De sentir sozinho. Seria histórico.

O show do Baco não é sobre ele.
É sobre o que ele desperta em nós. É sobre amor mal resolvido. É sobre ego quebrado. É sobre tentar ser melhor depois de ter se perdido um pouco. É sobre espiritualidade, religiões de matriz africana.
Eu indico fácil. Sem pensar duas vezes. Porque no meio de tanta música vazia rodando por aí… Baco Exu do Blues aparece como um soco elegante. Daquele tipo que machuca ensinando, mas temos de agradecer depois.
E no fim, fica claro: ele não tá tentando ser o melhor do momento. Ele tá escrevendo pra eternidade.
