Nascido em Aracaju (SE), Lauckson José Santos Melo é um cantor, compositor e multi-instrumentista que assina seus projetos musicais sob o pseudônimo Lau e Eu. Eu tive contato com a música dele na pandemia, ouvindo músicas tristes no Youtube. Era uma época melancólica e nada melhor que alimentar o pesar do que belas canções. Não que a música de Lau seja essencialmente triste, embora reflexivas.
Ouvi “Dentro do Meu Peito Mora um Cão”, do EP “Selma” (2018) e “Eu estava muito mal ontem à noite” de “O Futuro Está Distante” (2020), de forma incansável e agora, em momento mais tranquilo, reencontro o artista, dessa vez para um papo sobre seu primeiro álbum após sete anos, o ótimo “feroz comum silêncio entre nós…”, que foi dividido em duas partes.
Os sete anos de intervalo amadureceram as reflexões do artista, além de Lau ter investido em sua formação como historiador e amadurecido suas influências musicais. Ele é honesto também sobre viver de música atualmente. “A maioria dos artistas independentes não vive exclusivamente da música devido à precarização do trabalho artístico. É importante ter outros meios de sustentação, além da música, e isso afeta também a consistência de lançamentos. Eu levei um tempo para entender também o que queria com esse segundo álbum. Eu acho que veio no melhor momento possível porque há sete anos eu não tinha por exemplo condições ou capacidade pelo menos a do meu ponto de vista de produzir uma música assim, fui aprendendo ao longo desses sete anos e conhecendo outros músicos e outros artistas”.

Desde a sua chegada com o primeiro EP Café Frio (2016), o artista já apresentava sua gama de referências musicais ao construir um repertório que passeia entre MPB, folk e indie rock. Com o lançamento de Selma (2018), seu elogiado disco de estreia, Lau e Eu transformou sua própria nostalgia familiar em um registro que combina pop experimental, eletrônico, rock e uso refinado de sintetizadores. As mesmas influências aparecem no novo trabalho, mas de forma mais madura e consciente.
“o sonho de Minelle…”, primeiro single do disco, conta com a participação de menino thito. Inspirada a partir de leituras da arte, psique e política, Lau e Eu produziu um som que mistura lo-fi e R&B para dar vida a uma música que narra os altos e baixos da vida após o término de um relacionamento amoroso: Começo a semana cansado \ os móveis parados \ e nada de você aparecer \ onde está você.
“limitações…” possui forte presença do baixo e flertes com o R&B. Na faixa, Lau aborda os limites da reciprocidade em um relacionamento: Verdade que não te amei / do jeito que você esperava / pois tenho minhas limitações. Já em “três e tantas…”, o artista fala sobre reencontros inesperados e histórias inacabadas: Fazia tempo que a gente não falava mais / pois toda saudade implora / por alguém.
Na sequência, após a interlude “abril…”, o repertório ganha ainda mais cores em sua sonoridade ao incluir referências do bolero cubano em “coivara do sono…”. Lau fala sobre o silêncio que ocupa uma relação afetiva: Sonho com você se vou dormir / acordo escutando sua voz / neurótico que sou hei de ficar mudo / não há voz, só o silêncio entre nós. A inspiração do nome da música veio a partir da indicação de um livro do autor Francisco J. C. Dantas, de Sergipe. “Uma professora me indicou ‘Coivara da Memória’, aquela palavra me capturou, li o livro e adorei, a partir dali criei minha própria coivara, a do sono. A professora me reprovou na matéria, mas ganhei o nome do álbum e uma das músicas mais legais que eu já escrevi”, conta.
“Eu nasci em Aracaju, então, por exemplo, a minha primeira relação com música foi ouvir DVD Swingueira da Bahia. Era de Parangolé para outros grupos de pagode baiano. Lembro que eu era criança, comprei um DVD na banca, queria ouvir aquilo e dançar. Então minha relação com música veio um pouco desse lugar também, de maneira que hoje em dia eu ouço bastante esse tipo de som. Inclusive, meu gosto musical vai para aqueles lugares que quem ouve minha música não necessariamente identifica”, explica.
Talvez a relação próxima com o violão e o rock tenha afastado Lau e Eu de deixar ritmos mais percussivos nortearem suas composições, mas ser identificado com a cena indie e não renegar outros estilos já mostra que há bastante honestidade no artista.
Dentro dessa cena independente, Lau e Eu estabeleceu bom trânsito, aparecendo em parcerias de canções com diversos nomes como YMA, Dieguito Reis (ex-Vivendo do Ócio), Thiago Ruas e Pedro Bienemann.
Agora com 27 anos de idade, o artista se orgulha de ter entrado na academia para se formar em história. A influência foi outro negro intelectual nordestino, o historiador pernambucano Jones Manoel.
“Aconteceu uma coisa na pandemia assim uma história engraçada e até boba, mas em 2019, 2020, não tinha show, não tinha nada, e eu em outra cidade, sem família, e acabou que ficou uma situação muito difícil de pensar o futuro. Então, nessa época eu descobri o Jones Manoel. Eu pensei ‘caramba, sou muito burro, cara! O que eu li na minha vida? O que eu fiz da vida? E a partir disso, comecei a estudar por conta própria até o momento em que eu falei ‘preciso fazer uma faculdade’”, revela.
Seja pela faculdade de História ou por ser um corpo negro e nordestino, Lau entendeu que ser morador do Sul Global requer estudo. “Independente de ser artista, melhor fugir de arquétipos, então música e estudo me ajudam a me descobrir como pessoa”.
O novo registro de inéditas apresenta ao público o resultado dessas reflexões.
