Um belo dia meu editor-chefe aqui do Pretessências passou o link para o pedido de credenciamento para um show do Emicida em Curitiba. Minha primeira reação foi hesitar. Mal conhecia o trabalho do cara, só fui ouvir alguma coisa dele na época pandemia quando explodiu (a belíssima) AmarElo. Eu curti na época, mas o rap não é a minha praia.
Então eu pensei melhor: não é como se eu não gostasse do trabalho e da arte do Emicida. Eu só não conheço, nunca fui a um show de rap. No entanto, o pouquíssimo que eu conhecia, achei, no mínimo, bem feito e muito interessante. Então considerei isto e resolvi pedir a credencial. Quando ela foi concedida, eu resolvi fazer um intensivão, pegando as playlists de melhores músicas e ouvindo sem parar. Percebi ali que tinha perdido muito tempo ao não ter feito isso antes, na época que conheci AmarElo. Que arte incrível, que talento tem esse cara!
Enquanto me preparava para o evento, comecei a escrever algumas coisas às quais eu precisava prestar atenção durante o show para poder escrever este texto depois: entrada do artista, interação com o público, cenário, Iluminação, banda/músicos, o público em si. Afinal, já que não poderia analisar pela ótica de um conhecedor da obra, um fã frequentador de shows dele, ou alguém que poderia fazer um comparativo com outros shows de rap, fossem do Emicida, ou de outro artista do gênero, eu precisaria observar tudo de forma mais técnica, até fria. O que tem lá um lado positivo, profissionalmente falando. E assim fui, crente que tava preparado.
Aí começou o show. Demorou cerca de umas duas músicas e meia para que eu esquecesse toda a preparação, toda aquela ideia de olhar crítico, frio e afastado. É tudo muito contagiante, eu não conseguia pensar muito, agir de forma mais planejada e racional. Fui completamente tomado pela energia do cara no palco, dos artistas incrivelmente talentosos que o acompanham e, claro, do público que canta e dança com muita paixão.

Ouvir o Emicida recitar seus versos enquanto sua banda (sim, banda!) acompanha e embeleza, dá corpo às suas palavras, é uma experiência para qual eu jamais poderia estar preparado. Eu me encantei rápido, fui contagiado, derrubado com gentileza e ao mesmo tempo intensidade, e quando percebi, já estava apenas apreciando aquela aula de poesia musical que acontecia diante dos meus olhos e ouvidos.
Em algum momento, ainda ali no primeiro terço do show, até tentei me recompor e prestar atenção nos pontos que anotei quando me preparei (ou pelo menos achei que o tinha feito). E o que notei foi que a produção do show estava impecável, um belo palco com muitas palavras/versos e excelente uso das luzes. Mas até aí, tudo de acordo com as expectativas, tudo igualzinho a diversos outros shows do mesmo porte que eu já havia ido. O que, veja bem, deve ser encarado como mérito, pois a produção não deixava nadinha a desejar em comparação com estes outros shows e artistas que já vi fora do cenário rap/hip hop.
Então eu precisava procurar o que havia de diferente ali, o que tornava aquilo tudo tão especial e contagiante. E preciso começar com o que mais me surpreendeu: a banda. Eu não esperava mesmo ver uma banda, excelente, tocando ao vivo em um show de rap. Na minha cabeça, certamente com um olhar um tanto preconceituoso e desinformado, rap é só o cantor e um DJ. Possivelmente, até seja mesmo. Mas não é isto que Emicida faz, não neste show.
Enquanto o rapper profere sua poesia no mic, ele é acompanhado na maior parte do setlist por uma banda que toca ao vivo e conta com músicos incrivelmente talentosos. O meu destaque vai para Érica Silva, que como se não bastasse a linda voz suave que chega a hipnotizar, ainda toca baixo e violão com maestria. É claro que Pé Beat na batera e percussão e Oscar Junior nos teclados mandam muito bem também, é só que Érica foi tão impressionante, que os caras passaram a ser ‘só bons músicos’ perto dela.

Então passei a prestar atenção em outro item da minha lista: o público. Este é um ponto que eu realmente não fazia ideia do que esperar. Quem é o público que curte Emicida em Curitiba e vai ao seu show? A resposta é que se trata de uma maioria que flutua entre seus 20 e 35 anos, mas que também conta com gente mais nova que isso (vi famílias com seus filhos adolescentes cantando juntos) e até uma galera mais velha, incluindo alguns na terceira idade.
E se em faixa etária a diversidade não chega a ser tão surpreendente, o que me chamou mesmo atenção é o fato de que havia ali muitos pretos. Me chama atenção não porque não era o que eu esperava num show do Emicida, muito pelo contrário. A questão é que no dia a dia, até mesmo nos terminais e dentro dos ônibus em Curitiba, não se vê tantas pessoas negras como nas outras capitais onde já tive oportunidade de passar tempo o suficiente para observar isso.
Eu estava bem curioso para ver se o público no show também seria uma maioria esmagadora de brancos, como costuma ser no cotidiano da cidade. Mas felizmente, fui surpreendido positivamente. O próprio Emicida reforçou minha percepção no palco mesmo quando disse que Curitiba é a capital mais preta do sul do Brasil, dado que confirmei depois, descobrindo que cerca de 24% da população curitibana se declara preta ou parda, o que a deixa com um empate técnico com Porto Alegre neste número. A própria Érica, da banda, é uma mulher preta curitibana.
Enquanto tentava racionalizar um pouco sobre essa minha experiência enquanto ainda estava ali, vivendo ela, eu acabei sendo puxado de volta para a atmosfera do show. A intensidade é enorme. Diferentemente de absolutamente todos ao meu redor, eu não sabia praticamente nenhuma das letras, exceto um refrão ou outro (meu intensivão não foi tão eficiente assim, as letras do Emicida são elaboradas demais para isso). Mesmo assim, eu sentia os versos. A música me invadia e me deixava em êxtase.
Pode parecer exagero, mas eu realmente me sentia muito contagiado. As mensagens contidas na arte do Emicida são muito poderosas, emocionantes, tocantes e fáceis de se relacionar pois muito do que ele fala é comum a muita gente, não importa a origem e história de vida. Se você tiver um pouco mais de consciência de classe, se tiver empatia e, mesmo não sendo preto e pobre da periferia, conhecer minimamente essa realidade, já dá para ser impactado. Se você já tiver sofrido com questões de saúde mental, também. Se for um pai ou mãe presente, valorizar de verdade esses laços de família e se preocupar com um futuro melhor para as próximas gerações, também. O cara consegue expressar em palavras de forma excepcional o que sente e pensa sobre tudo isso.
E como é culto! São tantas e diversas as referências que ele usa em suas letras que até mesmo eu, um nerd inveterado, fico perdido às vezes. Como eu gostaria de trocar umas ideias com ele de vez em quando, deve ser muito interessante e enriquecedor. Eu já sabia que ele era um cara culto, inteligente. Já o vi dando várias entrevistas, vários cortes de quando apresentava um programa na GNT. Mas vê-lo fazer tudo isso ao vivo, seja improvisando ou cantando uma letra sua de mais de 10 anos… é muito impressionante. Junte à suas letras elaboradas e inteligentes o som poderoso de sua banda e DJ, e isto se torna uma masterclass de arte. Pura arte.

Que aula que eu tive! E tendo a alma e o coração de professor, dá muito gosto e genuíno prazer ver uma aula bem dada. Tudo que vi e vivi ali foi pensado e executado de maneira magistral, inclusive os momentos improvisados. Até para entender o nome da turnê é preciso referências multiculturais. MCMV é ao mesmo tempo um acrônimo para Mesmas Cores & Mesmos Valores (subtítulo do seu último álbum), como também é 1905 em algarismos romanos, ano em que Einstein publicou a Teoria da Relatividade. O conceito da turnê é esse: assim como Einstein afirmou que tempo e espaço são relativos ao observador, o show propõe uma experiência em que começo, meio e fim se confundem — cada um ali construindo sua própria leitura do percurso. Tá entendendo a profundidade disso?
Eu vivi exatamente isso, desde o momento em que me foi dada a oportunidade de me credenciar para cobrir o show, mesmo sem conhecer quase nada sobre a obra do artista em questão, até a apoteótica batalha de rima improvisada no bis, quase três horas depois do início do show. A minha própria leitura daquele percurso. A minha experiência. E foi tudo incrível, fantástico, surpreendente e arrebatador. Que bom que me decidi por topar ir ao show. Talvez eu continue não tendo o rap como meu gênero musical favorito, mas definitivamente Emicida entrou para minha playlist. Além disto, passo a acompanhar tudo o que ele faz mais de perto agora. Virei fã do cara. Imagina não ter me permitido experimentar, não ter me dado a oportunidade de viver essa experiência tão incrível? Desejo que mais pessoas façam isso, não só com o Emicida (mas recomendo que façam esse favor a vocês mesmos), mas com arte e cultura em geral. Obrigado Emcida e Pretessências por me proporcionarem tudo isso que senti e vivi neste show.
