Publicidade

Entrevista: A vez, a voz, a raiva, arte e o protagonismo das mulheres no rap em um papo com Ebony

Entrevista: A vez, a voz, a raiva, arte e o protagonismo das mulheres no rap em um papo com Ebony

Publicidade

Ebony é um acontecimento no rap nacional. Como ela mesma descreve na abertura KM2 (De Luxo), “Eu tenho sangue ruim, eu resolvo sozinha”. Esse poder, ou como os mais jovens tem dito, “a aura”, transparece na segurança com que fala durante nosso papo com ela.

O novo lançamento é a versão mais aprofundada do álbum anterior, lançado em maio do ano passado. “Eu sou Deus. Mas, se eu morro, ninguém sente minha falta”, continua a letra da abertura, apontando para a navalha fina que se tornou a caneta da artista. A poesia da cantora parece ter atingido um novo ponto de maturidade. “Eu sempre escrevi poesias, haikais, tragédias, roteiros de filmes e sempre senti muita vergonha de mostrá-los. Esse poema foi a primeira coisa que senti coragem o suficiente”, entrega.

A exposição na qual Ebony se coloca em  KM2 (De Luxo) aponta os rumos que provavelmente vão influenciar toda uma cena. Mas ela não emula performance ou finge ter tido uma grande imersão mística para compor sua música.  “Eu acho – eu até falei isso na última entrevista –, mas eu sinto que é muito sobre eu ir vivendo de freestyle. Eu nunca estou pronta. Eu nunca sei. Não são coisas que eu planejo. Eu lembro que entrei nessa de usar a arte para explorar coisas mais profundas da vivência. E todo o processo foi muito novo. Foram coisas que eu nunca tinha dito ou verbalizado, muito menos pensado em transformar em arte. Por exemplo, quando eu escrevo, sou eu e a caneta, está tudo bem”, conta.

Entrevista: A vez, a voz, a raiva, arte e o protagonismo das mulheres no rap em um papo com Ebony
Crédito: Fernando Mendes

A rapper conta que o processo de escrever sempre é muito intenso, assim como de gravar as músicas. Essa intensidade pôde ser conferida no show de abertura da turnê, na Audio, em São Paulo.  “Na hora de cantar no show, foi mais intenso ainda nas primeiras vezes. E ver as pessoas se identificando foi mais intenso ainda. Cada uma dessas etapas não foram pensadas, sabe? Mas eu fico muito feliz. Não foi algo fácil ou intencional. Não foi tipo: ‘Ah, eu vou abrir minha vida porque isso vai curar’. Não foi assim. Foi algo que virou isso, e é lindo, e eu amo. Mas foi dolorido, cara. Foi doloroso passar por isso e revisitar depois.”

Quando eu, agora com 37 anos, tinha a idade da cantora, estávamos tentando nos conscientizar, mas ainda tropeçávamos muito. As meninas do rap, hoje, possuem uma consciência racial, de classe, que a gente não tinha na nossa época. Perguntada se isso diferencia o movimento atual por ter acolhido as minas na cena, Ebony respondeu com convicção: “Com certeza. Eu acho que foi um trabalho de muita excelência, muita pesquisa de todas nós. Foi um trabalho que também não poderia ter sido feito sozinho. Foi um trabalho que começa na história do Brasil. O fato de as mulheres pretas permanecerem se apoiando da forma que está – a gente não vê isso em países hipercapitalistas como os Estados Unidos. Lá elas são inimigas: ‘Não quero estar no mesmo ambiente que outra rapper porque a atenção tem que ser só minha’. Então eu gosto muito de olhar para esse movimento e gosto muito de me colocar nesse lugar de: ‘Cara, o Brasil foi feito por mulheres negras e indígenas, e se a gente não se organizar entre nós, não vamos chegar a lugar nenhum’. Os homens, querendo ou não, se organizavam entre eles. Infelizmente, eles optaram por se acovardar e não trazer mais de nós junto.”

Eu sou o resultado de uma soma que vem de muita coisa que aconteceu. E não foi só sobre mulheres, mas a cultura como um todo – a forma como ela se especifica, especificamente no ano que eu nasci, e as referências que eu tive. Tudo foi tão amarrado que eu me vejo literalmente como a soma de algo.

Crédito: Fernando Mendes

Talvez nós, jornalistas e veículos de imprensa, já tenhamos passado da hora de ficar separando rap e rap feminino como se o feminino fosse uma diferenciação nova, como se não tivesse havido precursoras lá atrás como Dina Di, Negra Li, Cris SNJ, Rupia e tantas outras. Nesse quesito, Ebony é taxativa: “Eu acho que o rap é um gênero como MPB. Não existe ‘MPB feminina’. Não existe ‘pop masculino’. Chega a ser engraçado porque é especificamente porque eles assumiram que o rap era algo de homens. Sempre que alguém assume que algo é de homem, sempre que uma mulher faz, vira ‘feminino’. Vira a versão feminina daquilo. E, por mim, eu estou ok com o termo ‘rap feminino’, desde que a gente possa chamar também de ‘rap masculino’. E tá ótimo. Eu até prefiro que separe, porque por mim assim – eu não faço questão nenhuma.”

Há uns anos, quando entrevistei MC Soffia, ela comentou como era difícil ser uma mulhe fazendo rap e conseguir gravar colaborações com homens consolidados na cena. No atual projeto de Ebony, os feats continuam econômicos, mas são e peso, entre eles, o carioca Black Alien. Mas ao que parece, a ausência de mais feats é uma escolha que Ebony pode fazer à essa altura da carreira.

“Tem muitos caras que há muito tempo – uns cinco anos atrás, talvez, quando a gente estava começando a se estabelecer – a gente era um lugar de negócios mesmo. De querer esses ajustes. E essas parcerias eram por questão de negócio. Porque, pô, em algum grau isso vai talvez me dar um holofote. E é negócio, é o que é. Hoje em dia eu não faria mais com muitos, assim. Eu faria feat exclusivamente com quem eu admiro. Óbvio que há homens que eu admiro muito, que eu respeito muito – como é o caso do Black Alien, do BK, que hoje em dia já tenho feat. O Borges também temos feat. Gosto muito do Major, e vários outros. Não é sobre isso. Tem um monte. Mas esse lugar de tipo ‘ai, se eu fizer feat com um cara, vai dar mais visibilidade’ – eu não sinto mais que a gente precisa desse feito.”

Entre todas as faixas de KM2 (De Luxo), Ebony escolhe “Kia”, parceria com Ag Beatz, como a que melhor resume sua persona atual. escolheu uma que nem entrou no álbum. A cantora escolheu a faixa por ser onde, além de mostrar seu já notado talento para o rap, também  canta da forma tradicional, trazendo uma mistura de reflexão e raiva (olha ela aí novamente).

Lotando shows enquanto afirma a autoestima das minas, o sentimento é um reflexo do que a própria artista sente sobre si mesma. Ela se permite ser contraditória ao narrar força e vulnerabilidade sem esbarrar no fingimento.

“Cara, é uma permissão que eu tenho que me dar. É o tipo de permissão que eu não posso esperar que alguém dê. Nunca vou esperar alguém dar. Ainda que eu fale com todas as palavras corretas, alguém vai criticar o tom. Mesmo que eu fale no tom certo, alguém vai criticar a gíria. Ainda que eu fale sem gíria, vão dizer que eu não sou o suficiente. Então, sempre vai ter isso. Eu acho que é sobre a gente dar essa permissão. Eu acho que todo esse movimento que está acontecendo vem muito disso: a gente está se dando permissão. Sabe? A gente ficou por muito tempo assim: ‘Ei, tá tudo bem se eu falar isso?’ E agora a gente está mais: ‘Olha, então eu falei mesmo. E aí, você vai fazer o quê? Vai bater?’ Sabe? Então eu gosto muito de ver isso dessa forma. Eu não faço música para alguém especificamente. Eu acho que faço muita música para mim. E eu me entendo como uma mulher negra, então naturalmente também para mulheres negras. Mas não é proposital. A minha autoestima, a forma como eu me posiciono, não faz parte de um personagem. São coisas que eu realmente acredito. Então eu preciso me permitir entender essas coisas, sabe?”

Crédito: Fernando Mendes

Ebony foi adotada por um casal branco, e isso poderia ser uma barreira para o despertar de sua consciência racial, uma vez que como muitos de nossos pais, tiveram sero letramento sobre essas questões em voga na contemporaneidade. Ela diz que entende que não pode e nunca pôde cobrá-los por algo que não viveram. No entanto, na condição de mulher negra, ela foi naturalmente confrontada pelo racismo.

“A conclusão do ‘porque eu sou negra’, de fato, demora. Demorou para mim na minha história. Começaram a rolar muitas coisas. Eu também não tinha muitos amigos negros nessa época. E aí, quando eu comecei a frequentar casas de pessoas pretas – quando eu virei instrumentista e me imbuí ali naquela vivência, tipo uma família inteira de pessoas pretas falando: ‘Ah, nós já é preto’ – aí todo mundo: ‘Ah!’ E eu fiquei tipo: ‘É verdade, a gente é preto’. A sensação de me sentir sobre aquilo foi tão incrível e me fez sentir vista que eu falei: ‘Cara, se eu conseguir fazer isso por alguém, vai ser incrível’. Porque toda a minha força veio desse momento, eu acho.

Sobre a evolução artística entre o primeiro KM2 e a versão De Luxo, Ebony explicou: “Como foram coisas que eu reescrevi, revisitei, fiz de novo – só que a mensagem ainda é a mesma. E eu gosto muito da mensagem do álbum. Foi mais sobre a forma que eu estava entregando essa mensagem para o mundo. Porque eu senti que estava muito denso, e eu queria trazer mais esperança no final, em como a gente sente esse álbum. Então eu queria quebrar a densidade dele também em alguns momentos, mas ainda manter a sensação de que não há uma ordem cronológica – de sentimentos, ou de nada. Porque a vida não é assim. A minha vida, pelo menos, não é assim. Então eu quero muito essa sensação de que você está ouvindo uma coisa que é uma unidade, mas que você visita várias sensações dentro desse álbum. Isso definitivamente veio junto com a minha maturidade e com a minha atualização artística.

Eu estou crescendo. Eu comecei a fazer música com 17 anos. Eu tenho 25 agora. É muito tempo. Eu virei mulher dentro do rap. Então, como é isso? Eu também preciso me perdoar pelas besteiras que fiz. Eu também fui uma criança. Eu me sinto melhor todo dia na música. Cada linha que eu escrevo, eu falo: ‘Isso aqui é muito melhor’. Por mim, eu sou a artista que apaga coisa. Por mim, eu apagaria meu catálogo inteiro para lançar outra coisa.”

Para finalizar, Ebony contou o que espera com a audição de sua nova era artística: “Paz. Quero que eles me acompanhem nessa jornada dolorosa de tiros, filhos de trem, autoestima, religiosidade, abuso – meu Deus, que coisa louca. Infância. O que é infância? O que são pessoas? E passando por tudo isso junto, mas no final eu vou conseguir botar isso de uma forma que a gente vai falar assim: ‘Maneiro, tá?’”

Publicidade

Última atualização em: 18 de maio de 2026 às 11:30

Siga-nos no

Google News

Compartilhe :

Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram
WhatsApp

Deixe um comentário

Área para Anúncios

Seus anúncios aqui (área 365 x 300)

Publicidade

Matérias Relacionadas

Se inscreva na nossa Newsletter 🔥

Receba semanalmente no seu e-mail as notícias e destaques que estão em alta no nosso portal

Categorias

Publicidade

Links Patrocinados