Ansiedade, insegurança, medo de perder ou querer demais. Mergulhos profundos, promessas, destino. A passagem do tempo, sentimentos em transformação. Pro bem e pro mal, tudo que corrói por dentro a artista, compositora, multi-instrumentista e artesã de instrumentos musicais Grisa (Giovana Ribeiro Santos), em suas reflexões sobre a vida, se transforma em arte e deságua no álbum Amor Trespasse, que já está disponível no streaming.
O álbum chega pelo selo midsummer madness e tem produção de Grisa e Gil Mosolino (Applegate, Bike).
Amor Trespasse é uma obra multifacetada como sua autora. Fruto de uma residência artística na Casa Líquida, em Pinheiros (SP), o trabalho se ramifica em imagens, conceitos e instrumentos fabricados pela própria artista. Neste trabalho, com tom minimalista e íntimo, a artista toca violão, Omnichord (instrumento eletrônico de 1981), baixo elétrico e um teclado Hering (órgão brasileiro dos anos 1970), criando uma atmosfera marcante em cada faixa. Grisa fabricou o telefone de microfone utilizado em algumas faixas, além de uma cítara medieval (saltério), uma guitarra cigar-box e um teremim.
“Eu componho de uma forma muito instantânea, então todas as músicas desse álbum vieram de sentimentos que estavam muito latentes. Normalmente eu pego o instrumento que estiver ao meu alcance e busco dissecar aquele sentimento, que sai em forma de uma cadência de acordes, meio que reverberando o que se manifesta dentro de mim. E aí eu coloco meu celular pra gravar e começo a cantar, a letra à minha frente se transforma em melodia naturalmente. Vejo composições como ‘fotografias’, registros momentâneos de estados de alma, de sentimentos que atravessam momentos pontuais no espaço-tempo. E estou sempre escrevendo muito. Tenho necessidade de escrever. É uma forma minha de sobreviver ao mundo”, confidencia Grisa.
Cada música é associada a uma imagem “Magic Eye” criada pela própria artista, e que pode ser adquirida pelos fãs na forma de telas e prints, que expandem o universo do disco. Uma mágica acontece quando você aproxima o rosto da superfície e mira em um ponto focal atrás da imagem: a figura abstrata revela uma outra, compreensível, escondendo símbolos que representam cada música. O mesmo acontece com a capa, na qual se vê um coração atravessado por uma espada, uma alusão aos naipes do tarô e ao conceito do disco.
“Amor Trespasse fala sobre a travessia dos afetos — sobre aquilo que insiste em ultrapassar os limites, do corpo, da pele, do tempo. Cada faixa é um mergulho na psique, como se fosse possível atravessar a superfície do outro e se deparar com seu oceano interior”, conceitua a artista. “Todas as faixas habitam esse território emocional profundo, construídas com o mesmo cuidado com que criei minhas imagens: formas aparentemente planas, bidimensionais, que, ao serem contempladas com escuta, revelam profundidade. Amor Trespasse é um universo tridimensional, um complexo de paisagens sonoras que abrem frestas, portais entre o visível e o invisível”, define a artista.
