Na penúltima noite do The Town, o Autódromo de Interlagos teve uma prova de que Ivete Sangalo não precisa de pirotecnia ou artifícios mirabolantes para se manter no posto de maior performer viva do Brasil. A baiana de Juazeiro levou ao palco principal um espetáculo de axé em sua forma mais pura, fundamentado em talento, carisma e domínio absoluto de público. A ausência de “grandes choques” no repertório ou no cenário não se traduziu em falta de impacto; pelo contrário, foi justamente o poder de sua entrega que transformou o show em um dos momentos mais memoráveis do festival.
Logo na abertura, Ivete mostrou por que é considerada uma das maiores frontwomen do país. Com o público já em expectativa, ela surgiu às 20h32, sob 14ºC, cravando: “A noite é fria, mas cheguei pra esquentar vocês”, e imediatamente puxou “Acelera Aê”. O efeito foi instantâneo: quem estava mais distante começou a correr em direção ao palco, enquanto outros, já embalados, pulavam em sincronia.
Aposta mais simples
Nos anos anteriores, a própria Ivete ajudou a alimentar a expectativa de que sempre entregaria algo grandioso e inesperado. No Rock in Rio 2024, ela sobrevoou o público em um momento cinematográfico. Em outra edição do mesmo festival, surgiu em meio à multidão tocando uma bateria, em um gesto de proximidade raro para artistas de sua grandeza. Esses episódios trouxeram a ideia de que Ivete sempre traria uma surpresa. No The Town, ela escolheu o caminho oposto: abriu mão da “novidade” para apostar só na presença, voz e carisma.
O repertório, ainda que recheado de clássicos, não foi repetitivo. Ivete brincou com diferentes ritmos e abriu espaço para momentos de dança própria, mas também deixou o público ser protagonista, como em “Poeira”, que trouxe a icônica coreografia de braços erguidos. Entre uma virada de percussão e outra, ela mostrou como dialoga com novas gerações: incorporou batidas de funk, jersey club e até nuances de trap, sem abandonar a base do axé.
Houve instantes de oscilação, como em “Energia de Gostosa”, que esfriou um pouco o ritmo, restrita a alguns adeptos da coreografia do TikTok. Mas a maré virou rapidamente com “Macetando”, coroada pelo público como hino carnavalesco recente.
Um dos grandes méritos da noite foi o destaque dado à sua banda. A percussão milimetricamente ajustada deu corpo ao que Ivete já sabe fazer. Entre risadas provocadas por suas tiradas espontâneas e momentos quase pedagógicos sobre música, a cantora conduziu a plateia a bater palmas no compasso, resgatando as raízes do axé music e exaltando seus 40 anos de história. Ao mesmo tempo em que soava como celebração, era também uma aula de cultura popular, que veio com a frase: “Samba-reggae é a música mais foda do mundo”, antes de iniciar uma sequência das melhores do axé.
A sequência com “Berimbau Metalizado”, “Flores Paixão”, “Me Abraça” e “Beleza Rara” foi uma explosão. Mas Ivete sabe a hora de mudar de registro: ao abrir espaço para as baladas com “Deixo”, transformou o palco em templo. Apenas com o microfone em punho e um fundo dourado digno de diva pop, explorou o grave característico de sua voz. “Quando a Chuva Passar”, cantada quase sem sua intervenção – tamanha foi a força do coro coletivo – consolidou esse momento intimista.
Ivete não precisa se reinventar a cada festival com recursos cenográficos ou colaborações inesperadas. Sua grandeza está em conduzir uma massa com naturalidade, transformando multidões em extensão de sua própria voz e conseguindo impactar da primeira até a última pessoa presente no local. Poucas artistas no país, ou mesmo no mundo, conseguem dominar um público dessa magnitude apenas com… música.
