A relação do Limp Bizkit com a crítica musical sempre foi um conflito declarado. Neste sábado (20), no Allianz Parque, a banda liderada por Fred Durst não buscou reconciliação. Em vez disso, ofereceu um argumento sonoro irrefutável: 40 mil vozes cantando em uníssono, corpos colidindo em sintonia e a prova material de que seu legado vive no músculo e na memória afetiva de uma geração. A turnê Loserville fez sua única parada brasileira não para pedir desculpas, mas para reafirmar seu território com a soberania de quem conhece seu exército.
Fred Durst entrou no palco com uma peruca que remetia ao estilo do ex-jogador Biro Biro, do Corinthians, O que provavelment enão era uma tentativa de conexão através de figuras locais. A verdadeira conexão veio em segundos: o riff de “Break Stuff” explodiu como um decreto. Abrir com o hino de raiva adolescente foi um movimento para estabelecer a nostalgia como estado físico. Várias rodas de bate-cabeça se abriram e a noite prometia.
O setlist que se seguiu foi um mapa do auge do nu metal, administrado com a precisão de quem sabe exatamente o valor de cada cartada. “Rollin’ (Air Raid Vehicle)” e “My Way” funcionaram como os pilares obrigatórios, gerando coros que abafaram a parede de som. Mas a surpresa veio com a adesão fervorosa a faixas como “Hot Dog”, “Livin’ It Up” e “Gold Cobra”. Este não era um público casual à espera dos singles de rádio; era um congregado de fiéis que sabia cada letra, cada break, cada mudança de tempo. A banda, por sua vez, reconheceu esse pacto, entregando as músicas com uma fidelidade quase estudiosa.
Um dos pontos altos da noite foi a participação de Bia, uma fã que foi chamada pela banda ao palco e entregou tudo. A menina tem potencial e carisma. Foi insana sua dupla vocal com Fred Durst.
A única sombra na noite – e uma considerável – foi a ausência palpável de Sam Rivers. O baixista fundador, falecido em 2025, era a espinha dorsal groove da banda. A homenagem foi discreta, quase um aparte. Em seu lugar, Richie ‘Kidnot’ Buxton cumpriu o serviço com competência técnica, mas sem a presença de palco e o swing característico de Rivers. Sua performance “apagada”, como atestado pela plateia, deixou claro que o Limp Bizkit de 2025 é, em parte, um projeto de preservação, uma máquina bem oleada que prioriza a execução impecável do passado.
O cover de “Behind Blue Eyes” (The Who) e os interlúdios do DJ Lethal – com direito a Creedence Clearwater Revival e George Michael – atuaram como válvulas de alívio necessárias. Eram as pausas para o fôlego antes da próxima investida, demonstrando um entendimento maduro da dinâmica de um show de alta intensidade.
O clímax veio com “Take a Look Around”. Fogos pirotécnicos jorrando do meio do público, a identificação com a trilha sonora de Missão: Impossível 2 e a sensação de cumplicidade total. O bis, inevitavelmente com “Break Stuff” novamente, fechou o ciclo. A banda deixou o palco sem discursos grandiosos. A missão estava claramente cumprida.
O show do Limp Bizkit no Allianz Parque não foi uma reinvenção. Não houve surpresas estéticas, arranjos revisados ou tentativas de contemporaneidade. A banda operou não como inovadora, mas como protetoras de um sentimento. Para seus fãs, isso não é pouco. É tudo.
Em um universo musical que frequentemente recompensa a complexidade e a reinvenção, o Limp Bizkit oferece algo mais primal: a certeza. A certeza do riff pesado, do refrão catártico e do direito coletivo a uma noite de caos organizado. A crítica pode não bajular a banda, mas o público saiu vitorioso e completamente satisfeito da arena.
