Enquanto o mainstream insiste em decretar o fim do rock, Mateus Fazeno Rock ergue sua guitarra como arma de resistência cultural. Seu novo álbum, “Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem”, chegou pela gravadora Deck como um manifesto sonoro das periferias nordestinas. Produzido em parceria com Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Rafael Ramos (Pitty, Alceu Valença), o trabalho consolida o artista como voz indispensável da nova cena musical brasileira.
Nascido na Sapiranga, periferia de Fortaleza, Mateus tece crônicas afiadas sobre o cotidiano favelado, misturando a fúria do grunge e do punk com a ginga do funk, R&B e dub. A faixa-título abre o álbum como um hino sobre a busca por dignidade, onde riffs distorcidos se chocam com letras que falam de esperança e resistência. Já o single “Melô do Sossego” revela outra faceta – um soul com toques de MPB que traduz o cansaço de viver no caos (“Não ter esperança cansa/Que vontade de lhe dar sossego”).
A trajetória musical de Mateus é marcada por encontros inusitados: do Raul Seixas ouvido na infância ao Silverchair descoberto nas lan houses, passando pelas festas de punk e metal que frequentava. Essas influências diversas desaguam num som que ele chama de “rock de favela” – um estilo que não pede licença para existir, mas que ocupa seu espaço com orgulho.
O processo criativo manteve a essência caseira das primeiras gravações – muitas guitarras foram capturadas por Mateus em casa – mas ganhou novas camadas com a contribuição de músicos convidados. O resultado é um álbum que vibra entre a crueza do underground e a sofisticação de arranjos bem elaborados, onde cada faixa conta uma história diferente da vida nas quebradas.
Mais do que um disco, “Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem” é um território musical livre, onde o rock se reinventa através do olhar de quem sempre esteve à margem. O título, que usa a gíria cearense “zárea” (favela), provoca: o que significa “viver bem” para quem sempre foi excluído? Mateus não dá respostas fáceis, mas oferece trilha sonora para a reflexão.
Num cenário musical dominado por algoritmos e fórmulas prontas, o trabalho de Mateus Fazeno Rock chega como lembrete potente: o rock não morreu, apenas mudou de endereço. E agora fala com sotaque nordestino, nasce nas periferias e carrega as marcas de quem sabe que arte é, antes de tudo, resistência
