O cantor, compositor, multi-instrumentista e produtor paulistano Melifona apresenta seu novo álbum, “Radiação do Corpo Negro”. Composto por 12 faixas, o disco mescla MPB contemporânea, R&B alternativo, neo-soul e música brasileira experimental.
O título do álbum faz referência a um fenômeno da física que marca o início da mecânica quântica: um corpo que absorve toda a radiação eletromagnética e, ao esquentar, muda de cor até emitir luz. Para Melifona, essa imagem traduz a capacidade de um artista de absorver influências diversas e transformá-las em uma luz própria — um prisma multifacetado de emoções, reflexões e sonoridades.
“Esse disco novo é quente, ele propõe. Acho legal propor, pensar futuros, mesmo com vários estilos musicais já estabelecidos. Tem temperatura, calor, essa termodinâmica. E intensidades. É intenso, com tristezas profundas que precisam ser sentidas, e felicidades muito importantes também. É um disco de vida”, afirma o artista.

O álbum conta com participações especiais de YMA em “Dualidade”, Barbarelli em “Peito Aberto” e Vinícius Damião em “Vamo Morar Junto?”. A produção é assinada por Melifona e Habacuque Lima, mixado por Dani Mariano e masterizado por Felipe Tichauer, com gravações na Casa Líquida e Trampolim Estúdio, além de contribuições de músicos como Heidi Horita (bateria e percussão), Ariane Rodrigues (flauta), Aline Falcão (sanfona) e backings de Matheus Mafra, Barbarelli, Vinícius Damião e Melifona.
Sobre o nome artístico, o cantor explica o surgimento: “Por coincidência, abelhas começaram a aparecer no estúdio quase todos os dias, o que ganhou um sentido místico para mim. Como usava muito mel, fui pesquisar nomes científicos de abelha, cheguei em ‘melipona’ e troquei ‘pona’ por ‘fona’, de ‘fono’, som. Assim surgiu Melifona”.
A sonoridade do disco combina timbres orgânicos — vozes em coro, metais e madeiras — com texturas eletrônicas de sintetizadores e percussão sampleadas. A lírica transita entre amor, autocuidado, política e filosofia.
Faixa a Faixa
Água Régia
Essa música fala sobre a superação de um relacionamento. É um fim definitivo? É uma volta? Em que estado está? Às vezes, trata desse lugar indefinido, quando você tenta se desvencilhar e se afastar, porque percebe que existe uma toxicidade no ar. Água régia na química é uma mistura de ácidos capaz de dissolver metais nobres tipo o ouro, e o ouro é conhecido como um metal muito difícil de ser corroído, ele dura pra sempre basicamente. O amor é algo nobre. Como você corrói algo que é nobre? Eu tentei criar essa imagem da recusa de ser tratado assim, de seguir planos que não vão para lugar nenhum.
Amor Próprio
Depois de um término, chega uma hora que você precisa saber para onde você vai direcionar esse amor todo que você tem aí. E, em algum momento, é importante você direcionar uma boa quantidade para si mesmo.
Pombagira
Olha, Pombagira foi um fenômeno absurdo. Eu tinha voltado de um evento em que tinha tocado, estava bem cansado e fui dormir. Sonhei com Pombagira, que dançava e tocava meu coração. E de repente, eu senti uma sensação absurda no corpo mesmo. Achei que a melhor maneira de retribuir seria a música, eu sinto que ela tem esse poder de chegar nas áreas espirituais e assim nasceu.
Mariana
Eu tive um relacionamento com uma pessoa, que o nome não é Mariana, mas é um nome parecido. E era um nome que as pessoas confundiam. Falavam: “Oh, oi, Mariana”. Aí ela tinha sempre que corrigir: “Não, não é Mariana”. Daí surgiu o nome. É uma canção que eu vou narrando esse processo de superação, se é que é possível, né? Será que é uma mentira? Será que eu tô falando a verdade sobre esquecer seu endereço, seu nome?
Dualidade ft. YMA
Dualidade foi uma faixa que eu comecei a fazer com um ex, terminamos e a música não foi pra frente. Mas eu acredito que é possível reciclar uma música, então peguei esse trecho que havia feito com ele e fiquei pensando no nosso término. E é uma letra simples, acho que às vezes o término pede que seja descrito em palavras simples. E aí fiquei pensando na dualidade… É uma pessoa importante e também é uma pessoa que também é preciso ficar um tempo longe. Depois de pronta, ouvi a música algumas vezes, ela passou por algumas reformulações, até que pensei na YMA, no timbre da YMA. E ficou melhor do que pensava, ela compôs e trouxe outros elementos pra essa música.
Role Ruim
Eu fiz uma viagem com um grupo de amigos que foi maravilhosa, chegou ao fim e voltamos para nossas rotinas em São Paulo. Todos ainda estavam muito animados com tudo que vivemos na praia e decidimos ir curtir um rolê juntos. Tava um dia frio, garoando, tínhamos que ficar em pé na rua, um som alto do nosso lado, aqueles inícios de brigas em volta e eu só pensava que queria dormir, que estava com fome e frio. E eu pensei “Poxa, acho que não é mais isso, sabe?”. Tem a ver também com com amadurecer, às vezes você começa a ver que alguns rolês não são para você ou não são pra você naquele momento.
Objetos
Nessa composição eu tento trazer a parte do que sobrou de um término. E penso nisso por meio das partes físicas e digitais, como as fotos que a gente tira dentro de um relacionamento. E aí o que fazer com essas fotos depois que tudo acaba, eu vou jogar fora, apagar, apago quando? São objetos dolorosos.
Peito Aberto ft. Barbarelli
Peito aberto foi uma parceria com Barbarelli. Ele me enviou uma mensagem falando que tinha uma música e ele é um letrista absurdo. Então, eu comecei a pensar numa harmonia que encaixasse ali, e fomos montando junto essa imagem. Também fiz uma parte da composição da letra, foi uma faixa bem intensa de se fazer.
A Fome
Quando a fome começou a voltar mais no Brasil, de uma forma mais mais potente eu fiquei pensando muito nisso. O que é essa essa coisa de dormir com fome e ter que dormir de novo justamente porque tá com fome. Então, fiquei tentando pensar numa maneira de compilar e sintetizar essas sensações, que são horríveis. E aí eu tento também colocar alguns responsáveis por ela, eu falo “por que lado é que ela volta?”. É como se fosse algo que tá circulando o povo. É um espectro, como se fosse uma forma gasosa, ela sai e se movimenta e ela vai voltar, ela volta por quê e por onde?
Você
Você é uma música que eu imagino essa uma cena ali noturna, de cozinhar pra alguém que você ama. É estar ali com uma pessoa que é tão importante, tanto que fico repetindo a palavra “você”, eu grito essa palavra, quando está apaixonado tudo tem que ser exagerado mesmo.
Vamo Morar Junto ft. Vinícius Damião
Na pandemia eu fiz uma porção de música, onde eu tentava imaginar outra coisa, outra realidade, porque tava muito difícil mesmo imaginar o futuro, e essa foi uma dessas composições. E então, pra trazer pro disco eu trouxe o Vinícius Damião e nessa época estávamos ficando cada vez mais amigos e eu brinco que a gente vai morar na música juntos, por isso é uma participação que faz muito sentido nessa faixa.
Sexta-Feira
Nessa música eu falo um beijo para o show da Filadélfia, que é um dos estilos musicais que me trouxeram até aqui. É um tipo de soul muito orquestrado, ele é cheio de instrumentos, cheio de elementos assim. E eu me vejo assim nessa parte de criação hoje em dia. Além disso, é uma música que eu quero falar da importância de você sorrir e dançar. É sexta-feira, você merece isso.
