Enquanto os holofotes do The Town se voltavam para os headliners internacionais, uma das apresentações mais autênticas e necessárias do festival acontecia em um canto mais reservado, mas nem por menos potente. No Palco Quebrada, Punho de Mahim e MC Taya tiveram a chance preciosa – e rara – de apresentar ao grande público o punk rock cru de garagem, comandado por mulheres pretas, em uma performance que foi muito mais que musical: foi um ato de resistência.
Para um público enxuto, porém atento e conectado, as artistas esbanjaram energia raw e entregaram uma mensagem sonora incisiva sobre poder negro, feminino e o massacre indígena. A Punho de Mahim soa como uma ressurreição das bandas de garagem dos anos 70, suja, distorcida e cheia de atitude, transportando a urgência daquele era para os urgentes problemas do presente. Uma bateria mais ajustada faria bem à banda. Já MC Taya complementa e amplifica o recado com um gutural poderoso e seu nu metal potente. Sua presença de palco magnética é impossível ignorar.

A energia era contagiante e a importância simbólica de sua presença num festival desse porte é imensurável. Elas não estão apenas tocando; estão ocupando um espaço que lhes é historicamente negado e fazendo isso com a autoridade de quem tem algo vital a dizer.
No entanto, a experiência foi manchada por uma falha grosseira e simbólica da produção do festival: o áudio do show de Bruce Dickinson, no palco principal, invadiu o som das artistas durante sua apresentação. A bola fora não passou despercebida e chamou a atenção de parte do público, funcionando como uma metáfora infeliz do apagão que sonoridades periféricas e militantes ainda sofrem mesmo em grandes eventos.

Fiquem de olho nelas. Mais do que uma promessa do punk nacional, elas são seu presente mais urgente e verdadeiro. O The Town pode ter errado na operação, mas acertou em cheio ao dar-lhes um palco. Quem estava lá, com certeza, testemunhou o início de algo grande.
