Sete décadas. É esse o marco que os Rolling Stones atravessam com a chegada de “Foreign Tongues”, seu mais novo álbum de estúdio, sucessor do aclamado “Hackney Diamonds” (2023). Em um momento em que a indústria musical se acostumou a ver bandas lendárias se contentarem com turnês nostálgicas e discos de grandes sucessos, os Stones seguem na contramão: compõem, gravam e exercitam o músculo criativo com uma vitalidade que desafia a lógica e o tempo.
O trio formado por Mick Jagger (82), Keith Richards (82) e Ron Wood (79) entrega um trabalho que transita com desenvoltura pelo blues, rock, funk e soul, mantendo a identidade que os consagrou sem jamais soar autorreferente ou cansativo. Mais uma vez, a produção ficou a cargo de Andrew Watt, que repete a parceria bem-sucedida de “Hackney Diamonds” e costura um som coeso, moderno e fiel à mitologia da banda.
O álbum é generoso em participações especiais, e nenhuma delas soa como mero artifício. O mais presente é Steve Winwood, que empresta piano e órgão em doze das quatorze faixas, quando não está, é substituído com maestria por Benmont Tench, ex-Heartbreakers. Robert Smith, do The Cure, marca presença nos backing vocals e sintetizadores em “Never Wanna Loose You” e também em “Divine Intervention”, uma das faixas que melhor sintetiza o “padrão Stones”: levada propulsiva, guitarras em competição e vocais impressionantes de Jagger.

Paul McCartney, que lançou um belo álbum há pouco mais de um mês, toca baixo em “Covered In You”, um funk rock que se encaixa perfeitamente na tradição mais dançante da banda. Bruno Mars aparece na cowbell em “Never Wanna Loose You”, e a faixa ainda conta com a assinatura de Charlie Watts: “Hit Me In The Head” traz a última gravação do baterista com a banda, registrada em 2021, um rock veloz que faz falta e emociona.
Crítica social e reverências
Os Stones também reservam espaço para o humor e a crítica. “Mr Charm” é um rock dançante que mira o bilionário Elon Musk, retratado como alguém que engana os mais ingênuos. “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse, ganha uma versão menos melancólica e mais colorida, numa reverência à cantora precocemente falecida. Já “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, vem em um tom blues que remete a Bob Dylan, com participação do baterista Chad Smith (Red Hot Chili Peppers).
Há faixas que transcendem e merecem destaque especial. “In The Stars”, uma das minhas favoritas, traz um riff característico de Keith Richards, reconhecível a milhas de distância, com vocais celestiais e uma levada sólida. “Jealous Lover” é outro ponto alto: Jagger canta em falsete impressionante para quem já ultrapassou os 80 anos, lembrando as origens sessentistas da banda e sua admiração pela Motown. Essas duas, somadas a “Divine Intervention” e “Hit Me In The Head”, compõem o quadrado mágico do disco.
“Foreign Tongues” é do mesmo nível de “Hackney Diamonds”. Mostra uma banda em forma, criativa, entrosada e consciente de sua história, mas sem se prender a ela. Em 2026, não dá para imaginar um disco mais bacana para os Rolling Stones. Temos muita sorte.
