Há discos que são meros produtos de sua época. E há discos que, por pura força bruta, transcendem o tempo e moldam a realidade ao seu redor. Cabeça Dinossauro, lançado em 1986, é inequivocamente a segunda opção. Celebrar quatro décadas de uma obra tão visceral é, por si só, um feito. Mas os Titãs, em sua formação remanescente (Sérgio Britto, Branco Mello e Tony Bellotto), foram além do óbvio no show do Espaço Unimed: provaram que o álbum não é apenas um clássico a ser revisitado, mas um manifesto que ainda ecoa com uma qualidade e um peso raramente vistos no rock nacional contemporâneo.
A abertura do espetáculo com a leitura do documento do Arquivo Nacional de 1987 foi um golpe de mestre. Ao expor a deliberação da DCDP que exigia a supressão “in totum” da expressão “vão se foder” em “Bichos Escrotos”, os Titãs não apenas contextualizaram o disco, mas reacenderam sua importância como artefato de resistência. Na noite de sábado, cada “vão se foder” gritado pelo público não foi apenas um coro; foi um ato de restauração histórica e um triunfo sobre o pessimismo escatológico que os censores, em 1987, tentaram abafar. A música, hoje popular, serviu como o centro nervoso de um show que entendeu que o punk e o hardcore dos anos 80 ainda são as trilhas sonoras mais honestas para o caos brasileiro.

Se há um mérito técnico indiscutível nessa celebração, é a constatação de que o repertório dos Titãs sempre pediu, ou melhor, exigiu o peso de uma formação robusta. A escalação de Beto Lee e Alexandre de Orio ao lado de Tony Bellotto conseguiu traduzir a crueza da gravação original em uma parede de som ainda mais densa e letal.
Tony, liberado para se concentrar em solos afiados e vocais em faixas como “Estado Violência” e a catártica “Canção da Vingança” (esta, dedicada com um humor digno do grupo aos médicos que o operaram), mostrou que a técnica aliada à experiência resulta em autoridade. A qualidade sonora do show residiu nessa tríade: o baixo sólido de Branco, a bateria precisa de Mário Fabre e esse paredão de guitarras que transformaram até mesmo “Família” — originalmente ancorada no reggae — em um hino de riffs poderosos, sufocando a levada sincopada em favor da distorção.

Sérgio Britto, aos 66 anos, assumiu o posto de frontman, livre para circular e comandar o palco, ele provou que a alma do Cabeça Dinossauro ainda pulsa com fúria juvenil.
Mas foi Branco Mello quem entregou a maior lição de resiliência e qualidade artística. Sua “nova” voz, moldada pelas cirurgias contra tumores na garganta, adquiriu um timbre grave e áspero que, ironicamente, se encaixa com ainda mais precisão no repertório pesado. Em “Eu Não Sei Fazer Música” e “Nem Sempre Se Pode Ser Deus”, a textura de sua voz não soou como uma limitação, mas como uma ferramenta que adicionou camadas de dor, superação e autenticidade a canções que já tratavam de limites e imperfeições.
A importância artística desse show também se mede pelo que ele deixou de tocar. Num movimento raro e digno de aplausos, a banda dispensou os hinos fáceis (“Sonífera Ilha”, “Marvin”, “Epitáfio”) que poderiam transformar a noite em um greatest hits preguiçoso. A aposta foi na coerência.

Ao preservar a integridade de Cabeça Dinossauro (da anarquia da faixa-título ao experimentalismo pós-punk de “O Que”) e complementar com um segundo bloco que priorizou a fase mais agressiva (como a pesadíssima “Será que É Isso que Eu Necessito?” e a raivosa “Desordem”), os Titãs reafirmaram a tese de que o peso não está apenas na estética sonora, mas na atitude.
Cabeça Dinossauro sempre foi o divisor de águas. Em 1986, foi a afirmação do rock nacional como potência de crítica social. Em 2026, nessa celebração de 40 anos, o show provou que o álbum permanece não apenas relevante, mas urgentemente necessário. Longe de soar como uma iniciativa “caça-níquel”, a turnê consolidou-se como um ato de resistência sônica, onde a memória não é tratada com nostalgia, mas com a ferocidade de quem ainda tem algo a dizer.
Que venham mais 40 anos. E que o grito “vão se foder” continue ecoando enquanto for preciso.
