A crise climática não afeta todos os territórios da mesma forma. Nas periferias urbanas, onde a infraestrutura é mais precária e a presença do Estado é fragmentada, eventos como enchentes e alagamentos não são apenas desastres naturais, são manifestações de uma desigualdade estrutural que define quem é protegido e quem é exposto ao risco.
A engenheira de produção Camila Santos, especialista em projetos de impacto social e fundadora da Margem Viva, tem dedicado sua trajetória a investigar como infraestruturas invisíveis organizam a produção da vida nas cidades. Seu trabalho parte de uma constatação: a desigualdade não é apenas econômica; é também informacional.
“Os territórios mais vulneráveis são também os menos representados nos sistemas de dados que orientam políticas públicas. Sem dados, não há prioridade. Sem prioridade, não há proteção”, afirma.
A partir dessa perspectiva, Camila desenvolve uma nova abordagem para adaptação climática urbana, baseada na construção de infraestruturas de dados territoriais que integrem informações públicas e conhecimento comunitário. A proposta não se limita ao uso de tecnologia, mas à reconfiguração da forma como o risco é identificado, medido e enfrentado.
Seu trabalho propõe que a produção de dados não seja centralizada apenas em sistemas técnicos, mas que incorpore a leitura territorial de quem vivencia os impactos cotidianos da crise climática. Nesse modelo, a escuta deixa de ser um processo qualitativo isolado e passa a integrar a própria arquitetura dos sistemas de informação.
Essa abordagem conecta tecnologia, política pública e ética do cuidado, ao reconhecer que decisões baseadas em dados têm impactos diretos na distribuição da proteção nas cidades. Ao tornar visíveis territórios historicamente ignorados, a proposta tensiona a forma como governos e instituições priorizam recursos e planejam respostas.
A iniciativa se insere em um debate global sobre justiça de dados e governança tecnológica, questionando modelos centralizados que, muitas vezes, reproduzem desigualdades estruturais. Ao propor uma infraestrutura aberta e replicável, o trabalho busca contribuir para que cidades, especialmente no Sul Global, possam desenvolver sistemas mais justos e sensíveis às realidades locais.
Para a Margem Viva, organização fundada por Camila, o desafio não é apenas implementar soluções, mas estruturar modelos que possam ser adaptados a diferentes contextos, conectando tecnologia, território e impacto social.
“Não se trata apenas de prever alagamentos. Trata-se de entender como os sistemas que usamos para tomar decisões públicas podem reforçar ou reduzir desigualdades. Tecnologia também é política. E, hoje, quem não aparece nos dados não aparece na cidade.”
