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Bukassa Kabengele celebra melhor momento da carreira com presença em três produções no audiovisual

Com quase 40 anos de carreira, ator pode ser visto em “A Nobreza do amor”, “Dona Beja” e “Emergência Radioativa”, onde vive personagens distintos
Bukassa Kabengele celebra melhor momento da carreira com presença em três produções no audiovisual

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O ator Bukassa Kabengele vive um grande momento na carreira. Atualmente no ar em três produções — as novelas “A Nobreza do amor” (TV Globo) e “Dona Beja” (HBO Max), além da série “Emergência Radioativa” (Netflix) —, ele mostra diferentes facetas de seu talento ao público.

Em “A Nobreza do amor”, trama das 18h da Globo, vive José dos Santos, zambi de nascimento e irmão mais velho de Lumumba/Cayman. Após uma visita ao Brasil, apaixona-se por Teresa (Ana Cecília Costa) e abdica do trono de Batanga em favor do irmão. Em Barro Preto, trabalha como engenheiro civil e acolhe a sobrinha Alika (Duda Santos) e sua mãe Niara (Erika Januza).

“José/Zambi é príncipe, filho de Kayman I, herdeiro do trono de Batanga. Mas se apaixonou por Teresa, uma plebeia, quando veio ao Brasil. Abdicou do trono e escolheu viver esse grande amor refugiado em Barro Preto. É um homem íntegro, altivo, engenheiro e entusiasta da ciência”, complementa o ator.

Bukassa destaca que se inspirou em seu passado: é africano legítimo da República Democrática do Congo, nascido em Bruxelas, e chegou ao Brasil aos 10 anos.

“Minha criança interna e educação são africanas. Sou filho de um grande intelectual, o professor Kabengele Munanga, antropólogo e titular aposentado da USP. Carrego esse DNA da africanidade e consciência negra. Quando cheguei ao Brasil, fui morar em Natal até os 12 anos, depois mudei para São Paulo. Para a construção de Zambi, tive a soma da preparação de elenco, afinidade com os colegas e a construção do meu olhar em anos de vida e carreira, me entendendo como corpo e alma africana e cidadão negro engajado contra o racismo”, ressalta.

Bukassa Kabengele celebra melhor momento da carreira com presença em três produções no audiovisual
Foto: Oseias Barbosa

Com quase 40 anos dedicados às artes, Bukassa foi lembrado por Gustavo Fernandez, diretor artístico da novela, assim que ele recebeu o projeto.

“Todos na indústria do audiovisual brasileiro sabem de minha origem e história de alguma maneira. Isso dá grande relevância e legitimidade. Numa conversa, o Gustavo me disse: ‘Assim que chegou o projeto, falei que o Bukassa teria que estar dentro’. Fico honrado. São anos de trabalho e hoje um reconhecimento e respeito de partes muito importantes da indústria”, relembra.

Uma coincidência é que na trama ele faz par com Ana Cecília Costa, com quem já trabalhara em “Amor perfeito” (2023).

“Tenho muito respeito e admiração por ela. Adoro seu trabalho, e acho que a direção acertou nesse encontro. Conversamos bastante e buscamos os melhores caminhos para construir um amor profundo e a paixão de um casal mais velho que se admira e enfrenta o mundo juntos. Levamos para cena nossas experiências de vida, além da técnica. Cuidamos das visões sociopolíticas e dos detalhes para humanizar a relação interracial e à frente de seu tempo, nesses recortes da narrativa”, revela.

O ator ainda destaca como a novela retrata a história da negritude no Brasil, recorrendo a pesquisas de que a escravidão não é base real para validar a riqueza negra brasileira.

“Queremos devolver a dignidade e reconstruir as imagens negativas narradas por anos sobre a história da negritude no Brasil. Mostrar essa fábula com bases históricas e pesquisas de que a escravidão não é base real para a riqueza negra brasileira é um ótimo começo para a revolução na televisão brasileira. Certamente um divisor de águas. Estamos tratando a África (Batanga) e suas riquezas, começando pela realeza, de forma positiva na trama. Damos visibilidade à mulher negra e investimos num mundo imaginário que conversa com a realidade contemporânea, onde tivemos diversas lutas por uma sociedade mais justa e igualitária. Os abismos sociais estão atravessados por dores profundas, vestidas pela manta do racismo, seus recortes e privilégios da branquitude”, completa.

No streaming da HBO Max, o ator vive o coronel Paulo Sampaio, pai do personagem de David Junior, par romântico da protagonista em “Dona Beja”.

“Ele é um homem rico que lutou com unhas e dentes para manter a família forte e unida, mas as circunstâncias de um tempo difícil, ao ver a família se desintegrar, o levam às últimas consequências”, explica.

Na história, é casado com Ceci (Deborah Evelyn), mulher guiada pelas aparências, que odeia Dona Beja (Grazi Massafera) por enxergar nela a liberdade que combate. Ela age para afastar o filho e é racista, apesar de ter marido e filhos negros.

“Isso é muito mais comum do que imaginamos. Para responder, devolvo com outra pergunta: por acaso, dentro do casamento heteronormativo, os homens deixaram de ser machistas por serem casados com mulheres? No Brasil, o índice de feminicídio está entre os mais altos do mundo. Algo intolerável. A trama dá luz a algo muito comum e que precisa ser elucidado. As violências do racismo também estão dentro de famílias interraciais, tal qual o machismo nos casamentos entre homens e mulheres. Isso precisa ser debatido e confrontado”, diz Bukassa.

Ele também comenta a nova versão da história, que teve uma primeira exibida pela Manchete em 1986.

“Acredito que queremos ressignificar o olhar para a mulher. Dar à protagonista caráter de heroína, trazer visibilidade a uma mulher trans e colocar personagens negros em lugares de destaque e protagonismo. Um olhar diverso sobre o significado de família. O autor Daniel disse no lançamento em São Paulo que a versão anterior era ‘Dona Beija’, o que trazia a mulher como desejo e objeto; já ‘Dona Beja’ a transforma em substantivo, pessoa, não objeto. São escolhas focadas em mudar paradigmas injustos para mulheres, negros e indígenas. A arte pode ajudar a desfazer a falsa ideia de que esses grupos são menos capazes ou indignos de dignidade”, observa.

Na Netflix, ele vive Evenildo, um dos contaminados pelo Césio-137 na série “Emergência Radioativa”, inspirada no caso real de 1987 em Goiânia.

“Evenildo está entre os contaminados. Ele e sua família tiveram perdas irreparáveis. É dono de um ferro-velho, ambicioso, quer o melhor para seu povo. Toda a contaminação começa na casa dele, sem que ele saiba”, conta.

Na produção, contracena com Johnny Massaro (protagonista), Ana Costa, Paulo Gorgulho, Leandra Leal e Tuca Andrada. Ele é o mais velho de três irmãos; os outros são João (Alan Rocha) e Darlei (William Costa).

“Adoro o Alan Rocha, com quem já trabalhei em ‘Amor Perfeito’. O William conheci nessa produção. Gosto de trabalhar com parceiros negros porque é importante não sermos apenas ‘um’. Precisamos ser plurais e múltiplos nessa saga de inserir atores e atrizes negros na visibilidade do mercado audiovisual. Amei estar perto deles. Muita troca, diálogo, respeito e afeto”, acrescenta.

Crédito: Oseias Barbosa

O ator analisa seu momento atual no audiovisual, com três produções em diferentes plataformas e na TV.

“Desde que fiz ‘El President’, na Amazon, ainda na pandemia — quando passei quatro meses no Uruguai —, até agora, tenho emendado trabalhos sem parar. Acho que produtores de elenco, diretores e autores me reconheceram como profissional e ator, dando-me cada vez mais espaço conquistado por mim e reconhecido pelo público a cada projeto. Mostro que posso contribuir para nossa cultura na indústria. O que me fortalece me convence a me entregar mais para dar o meu melhor. Excelência é um caminho individual e coletivo para nossas lutas e conquistas para o povo negro. Aqui defendo brasileiros e africanos”, compartilha.

Além desses trabalhos, ele será visto em breve no filme “Narciso”, vivendo um dos irmãos que cuidam do protagonista em um lar temporário.

“É um lindo filme de Jeferson De, um dos nossos maiores diretores de cinema. Joaquim é um homem simples que vive as dores do mundo com todos os nossos recortes, de forma altiva e positiva. Somos sobreviventes e sempre encontramos no caos um sorriso. Esse filme vai emocionar. Há delicadeza e beleza no trato do silêncio na interpretação, direção e fotografia”, afirma.

O longa conta a história de um menino negro em um lar temporário que, após ser ‘devolvido’, lida com a dor da rejeição e ganha um presente mágico de outra criança do orfanato.

“A trama também passa por isso. Mas acredito que ela mostra camadas profundas e complexas do olhar desse menino sobre como o mundo se apresenta para pessoas negras. Há códigos e símbolos que nos atravessam e personagens que abraçam Narciso. Nas linhas invisíveis da trama, há dores comuns, silêncios e sofrimentos vividos por muitos. O filme é lindo e emocionante”, completa Bukassa sobre contar a história de tantas crianças brasileiras em abrigos, enfrentando a rejeição e a dificuldade de encontrar novos lares.

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Última atualização em: 8 de abril de 2026 às 10:59

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