A chegada de dezembro marca o encerramento de um ciclo, mas também um aumento significativo das demandas emocionais e sociais. Popularmente conhecida como “dezembrite”, essa intensificação de exaustão, irritabilidade e sensação de urgência tem ganhado atenção de especialistas. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Clínica Médica aponta que o nível de estresse cresce cerca de 75% entre novembro e dezembro, estimulado por prazos, compromissos sociais e pela ideia de que é preciso resolver tudo antes da virada do ano.
O mês também amplia a sobrecarga emocional de mulheres, mães e cuidadoras, que acumulam diferentes jornadas ao longo do dia. Entre as mães negras, o peso é ampliado pela desigualdade estrutural, pelo menor acesso a redes de apoio e pela maior incidência de maternidade solo. Essas pressões aparecem de forma ainda mais evidente no ambiente de trabalho. De acordo com a International Stress Management Association (ISMA), até 80% das pessoas economicamente ativas apresentam níveis mais altos de estresse, ansiedade e sintomas emocionais no fim do ano, resultado direto da sobrecarga de atividades e expectativas acumuladas.
Para a psicóloga Maiumi Souza, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil, a dezembrite não é um exagero, mas um reflexo da maneira como a sociedade organiza o cuidado e distribui responsabilidades. “A dezembrite é o corpo dizendo que não é possível sustentar indefinidamente a lógica da exaustão. Esse período intensifica demandas que já são desiguais ao longo do ano, principalmente para mulheres que cuidam, mães solo e mulheres negras. Não é apenas sobre organizar a agenda, mas sobre reconhecer que nenhuma subjetividade suporta a combinação de autocobrança, falta de rede e expectativas sociais que não consideram o cansaço real do cotidiano”, afirma.
A especialista destaca que sintomas como irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações no sono, lapsos de memória e sensação constante de urgência tendem a se agravar em dezembro. Ela explica que a combinação entre exigências profissionais, convivências familiares e cobranças internas cria um ambiente emocional que pode aprofundar quadros de ansiedade e esgotamento, especialmente quando o apoio social não acompanha as demandas.
