“Os Donos do Jogo” estreou e se estabeleceu como um marco na recente leva de produções brasileiras que usam o crime organizado — especificamente o jogo do bicho e seu ecossistema — como lente para examinar a sociedade. Heitor Dhalia dirige com a costumeira competência é essa “crônica quase documental” de um Rio de Janeiro onde o ilegal se torna a engrenagem oficial do poder.
Saindo de Campo dos Goytacazes em busca de expandir o negócio da família, o golpista novato Profeta (André Lamoglia) ambiciona liderar o submundo do jogo do bicho no Rio de Janeiro e acaba se envolvendo em uma perigosa rede de traições, luxúria e sangue. E poderia ser só isso se o Rio de Janeiro não oferecesse muito mais subtextos para que o público consiga explorar além da superfície, ainda que a própria série, por vezes, se limite nesse mergulho.
A série prima desde o início por sua clareza temática e fluidez nos acontecimentos. Acompanhar a saga de Profeta em busca de poder e influência enquanto se apaixona por Mirna Guerra (Mel Maia), uma das filhas de um grande chefe do bicho é satisfatório. A química entre os atores é palpável e isso serve como parte do trunfo da produção. Na verdade, o que não falta nesse elenco é química. Todos os pares exalam tesão quando estão em cena juntos e podem expandir o significado dessa palavra.
O casal que antagoniza Profeta e Mirna, Suzane Guerra e Búfalo (Giullia Buscacio e Xamã) oferecem tanta intransigência quanto os protagonistas, estrelando cenas de tensão que oferecem aquele sentimento de imprevisibilidade que, infelizmente, não permeiam toda a série.

O que pode ou não depor contra “Os Donos do Jogo” não é falta de qualidade, mas de um pouco mais de originalidade. A série é funcional, é atraente, muito bem filmada, mas explora pouco as possibilidades de reviravoltas inesperadas. Ela pouco se difere de tramas de famílias mafiosas que já vimos tantas vezes e perde a chance de explorar, por exemplo, a influência atual das BETs no submundo do crime. Talvez fique para a segunda temporada, já confirmada pela Netflix. A sensação de “já vi isso” é uma falha de criatividade ou um reflexo consciente da natureza repetitiva e autodestrutiva desse mundo?
Apesar da falta de inovação narrativa, “Os Donos do Jogo” muito mais acerta do que erra. Um ponto alto que merece destaque é explorar as perspectivas de gênero. Apesar dos homens estarem no comando das famílias criminosas, as mulheres são as verdadeiras estrategistas deste mundo. Entre melodrama familiar e arcos de ascensão e queda já previstos, Mel Maia, Giullia Buscacio e Juliana Paes brilham no papel de jogadoras de um mundo que coloca a figura feminina como adorno enquanto é guiado pelo charme e sagacidade delas.
Baseado em fatos, a série acaba servindo como um registro sobre a institucionalização da ilegalidade no Brasil. Todas as famílias criminosas operam “a céu aberto”, com anuência de membros do governo e da polícia, a tal ponto que que já não se distingue mais o que é legal e ilegal.
Nesse contexto, Chico Díaz brinca como o bicheiro mais influente da cidade, Galego Fernandez, marido de Leila, personagem de Juliana Paes. Díaz confere ao bicheiro um charme perigoso típico de quem cresceu na vida adulando e sendo adulado, entendendo as nuances e estabelecendo os princípios para se manter no poder dentro da cúpula de bicheiros cariocas. Se sua interpretação lembra mafiosos já vistos em filmes de Scorsese, os maneirismos usados pelo ator e o contexto brasileiro oferecem a diferenciação bem-vinda à jornada de Galego.
Para quem quer entender melhor a ascensão dos bicheiros cariocas, vale visitar “Vale o Escrito – A Guerra do Jogo do Bicho”, documentário da Globoplay, onde os nomes reais são oferecidos. Mas “Os Donos do Jogo” serve como pedida para quem gosta da dinâmica ficcionalizada com as deixas a cada episódio fornecendo tensão.

É bom ressaltar que a série não se furta de mostrar violência gráfica. Parte da força da série está em mostrar a tragédia inevitável na vida de parte destes personagens. A mulher traída que se apaixona pelo adversário do marido perigoso; o fillho gay que não pode se assumir ao pai; o filho adotivo tentando pertencer.
A série corre para fechar seus ciclos e desenvolver seus personagens. Embora um pouco mais de respiro fizesse bem, o texto ajuda a nos apegarmos àquelas histórias de forma eficiente e rápida. Se a inspiração para as reviravoltas de traição familiar são buscadas em “Game of Thrones” ou Shakespeare, talvez na próxima temporada os realizadores invistam mais na complexidade psicológica dos personagens. Potencial tem para isso.
“Os Donos do Jogo” é uma obra que segue uma tradição brasileira que se tornou notável: audiovisual como denúncia ou diagnóstico social, ainda que no caso, o entretenimento se sobreponha a análises mais profundas. E bom, talvez isso faça a série funcionar para o público geral e também internacional. Mostrar a infraestrutura local do crime em uma linguagem global. Não foi assim com “Peaky Blinders”?
No fim da maratona de oito episódios, “Os Donos do Jogo” funciona tanto como avaliação de parte da estrutura criminal no Rio de Janeiro como entretenimento altamente eficaz e atraente. O drama funciona, assim como a ação, mesmo não ousando na estrutura narrativa. Um thriller eficiente que pode melhorar muito em sua segunda parte acompanhando Profeta e cia.
