Filmado em Portugal e produzido pela BR153 Filmes, de São Paulo, o curta-metragem Não São Águas Passadas é dirigido, roteirizado, produzido e montado pela paraense Viviane Rodrigues, em parceria com o produtor Brunno Constante. Com equipe majoritariamente brasileira, a obra traz à tona uma reflexão urgente: o apagamento da memória sobre a participação de Portugal no comércio transatlântico de pessoas escravizadas, iniciado no século XVI.
O filme percorre locais historicamente ligados à presença africana em Portugal, mostrando espaços urbanos e arquitetônicos erguidos a partir do trabalho forçado de pessoas escravizadas. No entanto, evidencia também a ausência de referências históricas nessas cidades — sejam em livros escolares, museus ou mesmo em placas de rua — sobre a responsabilidade de Portugal como pioneiro no tráfico de pessoas escravizadas.
Não São Águas Passadas aponta para essa falta de reconhecimento e questiona a ausência de uma “mea culpa” oficial por parte do país. A narrativa denuncia não apenas o silêncio histórico, mas também como esse apagamento reverbera no presente, alimentando a persistência de problemas como racismo, xenofobia e desigualdades sociais na Europa e nas antigas colônias. Mais do que uma denúncia, o curta propõe uma reflexão: de que forma a sociedade atual pode se responsabilizar, se conscientizar e criar ferramentas para que os horrores da escravidão não sejam repetidos sob novas formas de violência.
“Sempre fiquei impressionada com o fato de Portugal não assumir a triste responsabilidade que teve durante o que eles chamam de expansões marítimas — e nós, brasileiros, sabemos que se trata de colonização. O comércio de pessoas escravizadas é tratado como tabu, como se fosse apenas um ‘efeito colateral’ dessa expansão. Nem a sociedade nem os manuais escolares reconhecem essa tragédia histórica”, explica Viviane Rodrigues. “Espero que a reflexão passe pelo reconhecimento de que países colonizadores, em especial Portugal, tratem o tema com a devida importância. Que a educação das novas gerações reflita de forma diferente das anteriores e que possíveis reparações históricas sejam feitas.”

O curta conta com a narração e contribuição histórica de Naky Gaglo, guia turístico togolês e idealizador da marca African Lisbon Tour, que convida visitantes a “descobrir a alma africana na cidade das sete colinas”. Seu trabalho resgata e evidencia as influências africanas muitas vezes invisibilizadas na história e na paisagem cultural de Lisboa.
Outra participação marcante é da cantora, compositora, multi-instrumentista e artivista brasileira Bia Ferreira, cuja obra, definida por ela como Música de Mulher Preta (MMP), aborda temas como feminismo, antirracismo e LGBTfobia. Sua presença acrescenta força e contemporaneidade ao discurso do filme.
