Desde que estreou, a novela “Vale Tudo”, de Manuela Dias, tornou-se alvo de críticas por se distanciar do enredo no qual foi inspirado. Acredito que remakes podem ter liberdade de recontar histórias e atualizar personagens para seu tempo, mas parece que não era a intenção da autora desde projeto. E o principal problema de Manuela Dias é a dificuldade de representação de personagens negros, especialmente o arco da personagem Raquel, interpretada por Taís Araújo. Espectadores nas redes sociais perceberam um padrão problemático na forma como a autora conduz narrativas envolvendo protagonistas negros: em vez de avançar, suas histórias frequentemente culminam em perdas, retrocessos e apagamento de suas conquistas.
A trama de Raquel, que era uma empresária bem-sucedida, tomou um rumo controverso ao levá-la à falência e à pobreza, Para muitos, a mensagem transmitida é a de que não há recompensa para a honestidade quando se trata de personagens negros, especialmente quando a autoria é branca e desconhece ou ignora as nuances do letramento racial.
A própria Taís Araújo questionou os rumos de sua personagem durante entrevista à revista Quem: Quando peguei a Raquel, achei que seria uma narrativa inédita. Uma mulher negra que ascende socialmente pelo trabalho, que permanece nesse espaço e que representa o Brasil. Eu tinha muita esperança nisso, mas confesso que me frustrei. O público está pronto para esse tipo de história”, disse Taís.
A atriz explicou que, mesmo tendo espaço para diálogo com a direção, o limite do roteiro é um desafio. “É muito difícil dar outro contorno quando a caneta não está na sua mão. Eu queria muito contar essa nova narrativa, mas a personagem não foi escrita por mim”, completou.

Não é a primeira vez que Manuela Dias é criticada por suas escolhas narrativas em relação a personagens negros. Em “Amor de Mãe”, a personagem Vitória (também vivida por Taís Araújo) passou de promotora a costureira, perdendo status e agência no processo. Em “Justiça”, Jéssica Ellen interpretou uma personagem cujo desenvolvimento também foi considerado insatisfatório e estereotipado.
Além disso, na trama atual, núcleos negros como os de Consuelo (Léa Garcia), Eunice (Zezé Motta) e Fernanda (Nanda Costa) são acusados de tokenismo – inclusão superficial sem densidade narrativa – ou de completo abandono pela autoria.
A representatividade não se resume à presença física de atores negros em elencos diversos. É necessária uma autoria consciente, que entenda a importância de narrativas que não repliquem violências simbólicas, nem reduzam personagens negros a estereótipos ou tragédias. Quando autoras e autores brancos falham em contratar consultores raciais ou em ouvir vozes negras no processo criativo, correm o risco de perpetuar racismos mesmo com boas intenções.
A demanda do público por representação autêntica e emancipatória é clara: personagens negros devem ter direito à complexidade, ao crescimento e, principalmente, a finais que não os condenem sistematicamente à desgraça, à perda ou ao apagamento.
A saída é também contarmos nossas histórias, termos poder por trás, como tem ocorrido há anos na indústria cinematográfica estadunidense, ou em Nollywood, indústria nigeriana. Não podemos mais sermos reféns da caneta de autores que não entendem a importância do símbolo racial numa trama.
