O centenário de Milton Santos nos lembra que o espaço geográfico nunca é neutro. Assim como respeitar o desinteresse do outro é reconhecer sua existência autônoma, a obra de Santos nos ensina que o território também carrega hierarquias, exclusões e violências silenciosas. Quem ocupa o centro do mundo (o capitalismo global, o Norte global, o homem branco na academia) tende a tratar as periferias como objetos, não como sujeitos produtores de saber.
Santos invertia essa lógica. Ele partia do lugar, do chão, do cotidiano dos “de baixo” para teorizar o global. Isso é, em termos éticos reconhecer o outro como fonte legítima de vontade e de pensamento, e não como mero reflexo do centro.
O exílio imposto pela ditadura militar (1964) foi um ato brutal de anulação do outro — o Estado não aceitou o limite da crítica intelectual e respondeu com violência. Ao percorrer França, EUA, Nigéria e Peru, Santos viveu na pele o que significa ser deslocado, mas transformou essa experiência em ferramenta analítica. Ele percebeu que o conhecimento produzido na periferia do capitalismo tem tanta ou mais potência explicativa quanto aquele produzido nos centros hegemônicos.
O racismo estrutural ainda recusa em reconhecer um homem negro, baiano, filho de escravizados, como autoridade máxima em geografia.

Em Por uma outra globalização (2000), Santos descreveu o sistema técnico-científico-informacional como uma estrutura que, em vez de incluir, aprofunda a desigualdade. Por quê? Porque ela é desenhada por poucos para servir a poucos — ignorando a existência (e o direito à existência digna) da maioria.
O capitalismo globalizado ultrapassa o limite dos territórios pobres, dos corpos periféricos, das culturas locais, e chama isso de “progresso”. Santos respondeu: não, isso é perversidade.
A tecnologia hoje serve à exclusão, mas pode ser apropriada pelos de baixo” é o núcleo político do pensamento de Santos. O “não” ao capitalismo perverso não é um não à modernidade, mas um não à sua forma atual, concentradora e desrespeitosa.
Isso exige uma revolução no reconhecimento: tomar a perspectiva de quem está no limite do sistema, sofre com ele, mas ainda assim resiste.
A trajetória do Mestre
Abaixo, a trajetória de Milton Santos reescrita em formato de perfil jornalístico, com base exclusivamente no texto que você enviou.
Foi lá, no interior baiano, que em 3 de maio de 1926 nasceu aquele que se tornaria um dos maiores intelectuais do país. Neto de escravizados, Milton Santos não apenas colocou o Brasil no mapa da ciência mundial, ele redesenhou o próprio conceito de mapa.
Vencedor do prêmio Vautrin Lud, o “Nobel” da Geografia, Santos não foi um acadêmico de gabinete. Pelo contrário: sua vida foi marcada pelo enfrentamento direto ao poder.
Em 1964, a ditadura militar o obrigou ao exílio. Partiu. Percorreu universidades na França, Estados Unidos, Nigéria e Peru. Só retornou ao Brasil em 1977.
Na Universidade de São Paulo (USP), onde se tornou professor titular em 1984, o baiano enfrentou o racismo estrutural da academia. Fazia isso com a altivez de quem sabia que a liberdade de pensamento era inegociável.
O professor Jaime Tadeu Oliva, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), um dos organizadores de um seminário sobre o centenário, recorda: Milton recusava o rótulo de “homem cordial”. Era um crítico feroz da burocracia universitária e do produtivismo vazio. Tratava o conhecimento como um bem público essencial.
Em sua obra-prima, Por uma outra globalização (2000), Santos descreveu o sistema global como uma “perversidade”. Seu argumento era direto: o meio técnico-científico-informacional – a rede de satélites, cabos de fibra ótica e logística – serve a um punhado de empresas que expropria a dignidade humana.
“O espaço não é apenas um palco onde encenamos o drama social. Ele é parte desse drama, é integrante das nossas vidas”, defendia o geógrafo.
Cem anos após seu nascimento, Milton Santos permanece como o mestre que nos ensinou uma lição fundamental: se a tecnologia hoje serve à exclusão, ela também pode, e deve, ser apropriada pelos de baixo para a construção de um mundo mais justo.
O mapa que ele redesenhava não tinha apenas coordenadas e fronteiras. Tinha dignidade.
